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Protocolo de Estado de Mal Convulsivo

Escalonamento terapêutico no estado de mal epiléptico

Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.

1. Dados Epidemiológicos

Incidência                             Faixa Etária de Risco                  Mortalidade
18–20 por 100.000                      < 5 anos (pico: 6 meses a 3            3–5% (convulsivo
crianças/ano                           anos)                                  prolongado); até 30% em
                                                                              etiologia aguda grave

2. Fisiopatologia

O estado de mal convulsivo (EMC) define-se como convulsão contínua ≥ 5 minutos ou ≥ 2 crises sem recuperação da consciência entre elas. A janela de 5 minutos substitui o limiar clássico de 30 minutos com base em evidências de que crises raramente cessam espontaneamente após esse tempo.

O mecanismo central envolve falha nos mecanismos inibitórios GABAérgicos e hiperativação dos receptores excitatórios NMDA e AMPA. A evolução temporal ocorre em fases:

Por que tratar precocemente?

3. Principais Etiologias por Faixa Etária

A etiologia orienta o prognóstico e o tratamento adjuvante:

Faixa Etária               Principais Causas
Lactente (< 12 m)          Meningite/encefalite bacteriana, distúrbios metabólicos (hipoglicemia,
                           hiponatremia), encefalopatia hipóxico-isquêmica, piridoxino-
                           dependência
Pré-escolar (1–5 a)        Crise febril prolongada (causa mais comum), meningite viral,
                           traumatismo craniano, intoxicação exógena
Escolar e                  Epilepsia prévia com nível subterapêutico de CAE, encefalite
adolescente                autoimune (anti-NMDAR), AVC, tumor, abuso de substâncias

4. Manifestações Clínicas

Convulsivo Generalizado (forma mais frequente)

Não-Convulsivo (EMNC — subdiagnosticado)

Focal com Generalização Secundária

5. Exames Complementares

6. Diagnóstico

O diagnóstico é CLÍNICO no EMC convulsivo manifesto. Definições operacionais:

Definição                        Critério
Operacional (prático)            Crise ≥ 5 min sem cessar — iniciar tratamento imediatamente
Estabelecido                     ≥ 30 min sem cessação ou recuperação da consciência
Definição                        Critério
Refratário                       Falha à 1ª e 2ª linha — crise contínua > 60 min apesar de
                                 benzodiazepínico + 2º agente
Super-refratário                 Crise > 24 h apesar de anestesia geral contínua

7. Diagnóstico Diferencial

Condição                         Características Diferenciadoras
Síncope convulsivante            Breve, resolução espontânea rápida, EEG normal, gatilho
                                 postural ou emocional
CPNE (crises                     Movimentos não rítmicos, sem cianose, pós-ictal ausente,
psicogênicas)                    duração variável, olhos fechados durante a crise
Espasmo do choro                 Lactentes < 18 m, gatilho emocional claro, resolução espontânea
cianótico                        em segundos
Hiperexplexia                    Resposta exagerada ao susto, sem perda de consciência,
                                 clonazepam eficaz
Tremores neonatais /             Suprimidos pela flexão passiva do membro, sem componente
jitteriness                      ocular
Mioclonias fisiológicas          Ocorrem exclusivamente no adormecimento, sem EEG patológico
do sono
Tiques complexos                 Voluntariamente suprimíveis, sem alteração de consciência,
motores                          história familiar

8. Tratamento — Protocolo Escalonado

Iniciar IMEDIATAMENTE ao diagnóstico de crise ≥ 5 min, em paralelo com estabilização clínica (via aérea, respiração, circulação — ABCDEs).

Fase / Tempo              Fármaco                  Dose e Via                         Observações
                                                   O₂, acesso venoso/IO,
FASE 1 · 0–5 min          ABCDEs +
                                                   glicemia capilar, PA,
Estabilização             Monitorização
                                                   SpO₂, ECG
FASE 2 · 5–20
min 1ª Linha
                          Midazolam                IM 0,2 mg/kg (máx. 10              1ª escolha sem
                          (preferencial sem        mg) IN 0,2 mg/kg (máx.             acesso venoso.
                          AV)                      10 mg) Bucal 0,3 mg/kg             Eficácia equivalente
                                                   (máx. 10 mg)                       ao diazepam IV.
                                                                                      Pode ser aplicado
                                                                                      antes de obter
                                                                                      acesso venoso.
                          Diazepam                 IV/IO 0,2–0,5 mg/kg (máx.          Monitorar depressão
                                                   10 mg) Retal 0,5 mg/kg             respiratória. Ter
                                                   (máx. 20 mg)
Fase / Tempo              Fármaco                  Dose e Via                         Observações
                                                                                      suporte ventilatório
                                                                                      disponível.
                          Lorazepam*               IV/IO 0,1 mg/kg (máx. 4            * Disponibilidade
                                                   mg)                                limitada no Brasil
                                                                                      (ausente em muitos
                                                                                      serviços públicos).
                                                                                      Verificar estoque
                                                                                      antes de incluir no
                                                                                      protocolo local.
FASE 3 · 20–40
min 2ª Linha
                          Fenitoína /              IV 20 mg/kg, máx. 1.000            Infusão em SF 0,9%
                          Fosfenitoína             mg (velocidade ≤ 1                 (incompatível com
                                                   mg/kg/min)                         glicose). Monitoração
                                                                                      cardíaca obrigatória
                                                                                      (risco de arritmia e
                                                                                      hipotensão).
                          Ácido Valpróico          IV 40 mg/kg em 10 min              ** Contraindicado em:
                          **                       (máx. 3.000 mg)                    suspeita de doença
                                                                                      mitocondrial,
                                                                                      hepatopatia, crianças
                                                                                      < 2 anos (risco de
                                                                                      hepatotoxicidade
                                                                                      fulminante). Verificar
                                                                                      antes de usar.
                          Levetiracetam            IV 60 mg/kg em 10 min              Boa tolerabilidade.
                                                   (máx. 4.500 mg)                    Preferível ao
                                                                                      valproato em < 2
                                                                                      anos e nas
                                                                                      contraindicações
                                                                                      acima.
                                                                                      * Iniciar assim que
                                                                                      confirmada falha à
                                                                                      2ª linha — não
                                                                                      aguardar o minuto
FASE 4 · > 30–40
                                                                                      40 se BDZ + agente
min * Refratário
                                                                                      de 2ª linha já
— UTI
                                                                                      falharam. Intubação
                                                                                      orotraqueal e
                                                                                      suporte intensivo
                                                                                      obrigatórios.
                          Midazolam                Bolus 0,2 mg/kg IV;                1ª escolha refratário.
                          contínuo                 infusão 0,05–2 mg/kg/h             Ajuste de dose a
                                                   Titular até cessação               cada 15 min.
                                                   clínica/EEG                        Monitoração
                                                                                      hemodinâmica.
                          Ketamina                 1–2 mg/kg IV bolus +               Broncodilatador —
                                                   infusão 0,3–3 mg/kg/h              vantajoso em
                                                                                      pacientes com
Fase / Tempo              Fármaco                  Dose e Via                         Observações
                                                                                      broncoespasmo.
                                                                                      Pode elevar PIC —
                                                                                      evitar em HIC não
                                                                                      controlada.
                          Pentobarbital /          Pentobarbital: 5–15 mg/kg          Sob intubação. Meta:
                          Tiopental                IV + infusão 0,5–5                 supressão burst no
                                                   mg/kg/h Tiopental: 3–5             EEG contínuo. Alta
                                                   mg/kg IV + infusão 3–5             depressão
                                                   mg/kg/h                            hemodinâmica —
                                                                                      suporte pressórico
                                                                                      frequente.
                          Propofol (≥ 3            1–2 mg/kg IV bolus +               CONTRAINDICADO
                          anos, curto              infusão 1–4 mg/kg/h (máx.          < 3 anos. Risco de
                          prazo)                   48h)                               síndrome de infusão
                                                                                      do propofol (PRIS):
                                                                                      acidose metabólica,
                                                                                      rabdomiólise,
                                                                                      insuficiência cardíaca
                                                                                      — monitorar
                                                                                      triglicerídeos e CPK.
                          Anestesia geral          Titulação por                      Reservada para
                          (isoflurano)             anestesiologista Meta:             casos super-
                                                   supressão burst no EEG             refratários. Exige
                                                                                      suporte de
                                                                                      anestesiologia e UTI
                                                                                      pediátrica
                                                                                      especializada.

Quando iniciar a Fase 4 — Fundamentação Clínica e Diretriz

⚠ Causas Tratáveis — Corrigir em Paralelo ao Escalonamento

9. Conduta Pós-EMC e Monitoração Neurológica

A abordagem pós-EMC é tão importante quanto o tratamento agudo e frequentemente negligenciada:

9.1 Monitoração Pós-Ictal Imediata

9.2 Critérios de Extubação

O paciente intubado para anestesia geral na fase refratária pode ser extubado quando:

9.3 Quando Solicitar EEG Pós-Ictal

Situação                                 Indicação de EEG
EMC convulsivo generalizado              EEG nas 1–2 h após cessação para descartar EMNC
                                         residual (obrigatório)
Paciente comatoso pós-EMC                EEG contínuo — EMNC presente em até 8% dos comas
                                         de causa não estrutural
Recuperação lenta da                     EEG urgente se não retorna ao basal em > 30–60 min
consciência                              após cessação da crise
EMC refratário em UTI                    EEG contínuo para guiar titulação de sedoanalgesia e
                                         confirmar supressão burst

10. Complicações e Prognóstico

Complicações Agudas                                       Sequelas / Longo Prazo
Hipoxemia / apneia                                        Epilepsia pós-ictus (até 40%)
Hipotensão e bradicardia                                  Déficit cognitivo e de linguagem
Hipoglicemia, hiponatremia                                Hemiplegia de Todd prolongada
Rabdomiólise / hiperpirexia                               Encefalopatia hipóxico-isquêmica
Edema cerebral / herniação                                Dependência de CAE longo prazo
Insuficiência respiratória

O prognóstico depende fundamentalmente da etiologia. Crises febris prolongadas isoladas têm prognóstico excelente (> 95% sem sequelas). O EMC sintomático agudo (encefalite, AVC, trauma) carrega mortalidade significativa e risco elevado de epilepsia posterior.

11. Prevenção de Recorrências