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Protocolo de Convulsão Febril

Manejo e critérios de investigação

Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.

1. Definição

A convulsão febril (CF) é definida como uma crise convulsiva que ocorre nas primeiras 24 horas de um episódio febril (temperatura ≥ 38°C, preferencialmente aferida por via retal como método de referência), em crianças entre 6 meses e 5 anos de idade, na ausência de evidência de infecção ou inflamação do sistema nervoso central (SNC), sem alteração metabólica e sem história prévia de crise convulsiva afebril. Trata-se da forma mais comum de crise epiléptica na infância, acometendo 2 a 5% das crianças nessa faixa etária.

2. Classificação

 Tipo                       Características
                            Crise tônico-clônica generalizada · Duração < 15 minutos ·
 Simples
                            Recuperação espontânea e completa · Única crise em 24 horas
                            Crise focal ou generalizada · Duração > 15 minutos · Pós-ictal
 Complexa
                            prolongado · Recorrência em < 24 horas
A convulsão febril simples representa cerca de 70–75% dos casos e tem prognóstico
benigno. A forma complexa requer investigação mais detalhada e acompanhamento
neurológico (ver seção 7).

3. Diagnóstico

O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história e no exame físico. A investigação laboratorial e de imagem não é recomendada rotineiramente para a convulsão febril simples.

3.1 Indicações de Punção Liquórica

A punção lombar deve ser considerada nas seguintes situações:

3.2 Exames Não Recomendados Rotineiramente

Eletroencefalograma (EEG), eletrólitos séricos (cálcio, fósforo, magnésio, glicemia), hemograma completo e neuroimagem não devem ser solicitados de rotina na convulsão febril simples, conforme diretrizes da SBP, AAP e Royal Children's Hospital de Melbourne.

4. Conduta na Fase Aguda

4.1 Crise com Duração < 5 Minutos

A maioria das convulsões febris simples cessa espontaneamente em menos de 5 minutos. Conduta de suporte e observação:

4.2 Crise com Duração ≥ 5 Minutos (Status Epiléptico Febril)

Quando a crise persiste por 5 minutos ou mais, iniciar tratamento medicamentoso escalonado:

 Etapa              Medicação                     Dose                                 Via
                                                  0,3–0,5 mg/kg (máx. 10
 1ª linha           Diazepam                                                           Retal
                                                  0,2–0,3 mg/kg (máx. 10
 1ª linha           Midazolam                                                          Bucal ou intranasal
                                                  0,2–0,3 mg/kg (máx. 10
 1ª linha           Diazepam                                                           EV lento *
                                                  15–20 mg/kg (máx. 1.000
 2ª linha           Fenitoína                                                          EV em 20 min **
                                                  15–20 mg/kg (máx. 1.000
 2ª linha           Fenobarbital                                                       EV em 20 min
                                                                                       Infusão EV contínua
 3ª linha           Midazolam                     0,1–0,2 mg/kg/h
                                                                                       (UTI)
* Benzodiazepínicos IV: monitorar continuamente a função respiratória e ter disponível suporte
ventilatório. Acesso venoso calibroso obrigatório.
** Fenitoína IV: requer acesso venoso calibroso, infusão em solução salina (incompatível com
glicose), e monitorização cardíaca durante a infusão.

5. Critérios de Internação

A maioria das crianças com convulsão febril simples retorna ao nível normal de consciência dentro de uma hora e pode receber alta após observação. A internação está indicada em:

6. Conduta na Convulsão Febril Complexa

A CF complexa exige avaliação mais ampla e acompanhamento neurológico.

Recomendações específicas:

7. Fatores de Risco para Recorrência

Aproximadamente 30–35% das crianças com convulsão febril apresentarão pelo menos um episódio recorrente. Principais fatores de risco:

8. Profilaxia

O uso profilático de antipiréticos (paracetamol ou ibuprofeno) não reduz o risco de recorrência e, portanto, não é recomendado com essa finalidade.

A profilaxia contínua com anticonvulsivantes (fenobarbital, ácido valproico) não é indicada para a CF simples, dado o risco de efeitos adversos e a natureza benigna da condição.

9. Prognóstico

A convulsão febril simples tem excelente prognóstico. O risco de desenvolvimento de epilepsia é de aproximadamente 2–3%, apenas discretamente superior ao da população geral (1%). Não há evidências de comprometimento cognitivo, comportamental ou de mortalidade associados à CF simples.

10. Orientações para os Pais

Os pais devem ser tranquilizados quanto ao caráter benigno da condição. As orientações incluem:

Referências

1. Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Abordagem da Febre Aguda em Pediatria e Reflexões. 2024. Disponível em: https://www.sbp.com.br 2. American Academy of Pediatrics (AAP). Febrile Seizures: Clinical Practice Guideline for the Long-term Management of the Child with Simple Febrile Seizures. Pediatrics. 2008;121(6):1281–1286.

3. Ferretti A, et al. Best practices for the management of febrile seizures in children. Ital J Pediatr. 2024;50(1):89.

4. Corsello A, et al. Febrile Seizures: A Systematic Review of Different Guidelines. Pediatr Neurol. 2024;156:1–10.

5. Hospital Albert Einstein. Guia do Episódio de Cuidado — Convulsão Febril Benigna. São Paulo, 2024.

6. Royal Children's Hospital Melbourne. Clinical Practice Guidelines — Febrile Seizure. 2024.

7. NICE — National Institute for Health and Care Excellence. Epilepsies in children, young people and adults. NICE Guideline NG217. 2022.