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Protocolo de Anafilaxia

Reconhecimento e manejo imediato

Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.

1. Definição

A anafilaxia é uma reação alérgica (hipersensibilidade) grave, de início agudo, potencialmente fatal, que resulta da liberação sistêmica de mediadores inflamatórios por mastócitos e basófilos. Pode envolver pele e mucosas, os sistemas respiratório, cardiovascular e/ou gastrointestinal.

A anafilaxia com risco de vida é caracterizada pelo acometimento respiratório e/ou cardiovascular, podendo não envolver pele ou mucosas em até 20% dos casos — o que torna o reconhecimento clínico um desafio relevante na prática pediátrica. Os principais desencadeantes em crianças são alimentos (leite de vaca, amendoim, ovos, frutos do mar, nozes), medicamentos (antibióticos beta-lactâmicos, anti- inflamatórios) e picadas de insetos.

2. Critérios Diagnósticos

O diagnóstico é clínico, baseado na história e no exame físico. A anafilaxia é provável quando qualquer um dos três critérios abaixo for atendido:

Critério                      Condição
                              Início agudo (minutos a horas) com envolvimento simultâneo de
1 — Sem alérgeno
                              pele/mucosas e pelo menos um dos seguintes: comprometimento
identificado
                              respiratório ou cardiovascular
2 — Alérgeno
                              Início agudo com dois ou mais dos seguintes: comprometimento de
provável ou
                              pele/mucosas, respiratório, cardiovascular ou gastrointestinal grave
conhecido
3 — Alérgeno                  Início agudo de comprometimento respiratório após exposição a
conhecido                     alérgeno não-inalatório ou comprometimento cardiovascular

3. Manifestações Clínicas por Sistema

Sistema                  Manifestações
Pele                     Urticária, flushing, eritema, edema facial, moteamento cutâneo
                         Edema de lábios, língua ou orofaringe, aperto severo na garganta,
Mucosas
                         disfagia; em lactentes: lambedura repetitiva dos lábios
                         Sibilância, desconforto respiratório, hipoxemia, tosse, dispneia, estridor,
Respiratório
                         rouquidão; em lactentes: choro rouco
                         Hipotensão, síncope, tontura, alteração do nível de consciência; em
Cardiovascular
                         lactentes: taquicardia inexplicada persistente
Sistema                  Manifestações
Gastrointestinal         Dor abdominal intensa, vômitos recorrentes, diarreia

4. Conduta Imediata

4.1 Medidas Gerais

Ao reconhecer a anafilaxia, agir imediatamente na seguinte sequência:

1. Chamar ajuda e acionar o SAMU (192) se fora de ambiente hospitalar

2. Remover o alérgeno, se possível (ex.: retirar o ferrão de inseto)

3. Posicionamento — conforme situação clínica (ver quadro abaixo)

4. Ofertar oxigênio suplementar por máscara (10–15 L/min)

5. Monitorar sinais vitais continuamente: FC, FR, SpO₂, PA

6. Administrar adrenalina IM imediatamente — não postergar

Posicionamento conforme situação clínica

4.2 Tratamento Medicamentoso

Medicação                  Dose e Via                          Observações
                                                               Repetir a cada 5–15 min (até 3 doses).
                           0,01 mg/kg sol. 1:1.000 ·
                                                               Monitorar FC. Único tratamento que
Adrenalina IM (1ª          máx. 0,3 mg (criança) /
                                                               modifica o curso da anafilaxia. Pode ser
linha — SEMPRE)            0,5 mg (adolescente) ·
                                                               aplicada sem remover a roupa se
                           face anterolateral da coxa
                                                               necessário.
                           5–10 mL/kg IV nos
                                                               Monitorar sinais de sobrecarga de
Expansão volêmica          primeiros 5 min; até 30
                                                               volume. SF 0,9% como 1ª escolha.
                           mL/kg na 1ª hora
                           0,1–1 mcg/kg/min em                 Reservada para casos refratários com
Adrenalina EV              bomba de infusão                    hipotensão após múltiplas doses IM e
contínua                   Diluição: 1 mg em 100 mL            ressuscitação volêmica. Monitoração
                           SF → 10 mcg/mL                      cardíaca contínua.
                           50 mcg/kg/dose = 1 jato/2
Salbutamol                                                     Para broncoespasmo persistente após
                           kg (máx. 10 jatos) com
inalatório                                                     adrenalina.
                           espaçador
Medicação                  Dose e Via                          Observações
                                                               Ação sintomática (prurido, urticária).
Anti-histamínico           1 mg/kg IV ou VO (máx.
                                                               NÃO previne progressão. NÃO substitui
(difenidramina)            50 mg)
                                                               a adrenalina.
Corticosteroide            1–2 mg/kg IV (máx. 125              Pouca ação no tratamento agudo. Pode
(metilprednisolona)        mg)                                 reduzir risco de reação bifásica.
                           20–30 mcg/kg (máx. 1                Reservado para pacientes em uso de
Glucagon                   mg) bolus EV lento em 5             beta-bloqueadores, nos quais a
                           min                                 adrenalina pode ter resposta reduzida.

⚠ Atenção — Prioridade da Adrenalina

5. Considerações em Populações Especiais

Condição                   Consideração Clínica
                           Maior risco de broncoespasmo grave e morte. Adrenalina IM deve ser
Criança com asma           administrada ainda mais precocemente. Associar salbutamol inalatório
                           desde o início.
Uso de beta-               Resposta reduzida à adrenalina. Considerar glucagon como
bloqueadores               adjuvante. Pode exigir doses maiores de adrenalina.
                           Risco aumentado de anafilaxia grave e recorrente. Manter adrenalina
Mastocitose                autoinjetável sempre disponível. Encaminhar obrigatoriamente ao
                           alergologista.
Lactentes < 6              Sinais atípicos: irritabilidade, taquicardia inexplicada, palidez, recusa
meses                      alimentar. Alto índice de suspeita clínica necessário.

6. Reação Bifásica

Aproximadamente 5–20% dos pacientes podem apresentar recorrência dos sintomas 4 a 12 horas após a resolução do episódio inicial, mesmo sem nova exposição ao alérgeno.

7. Critérios de Alta e Orientações

7.1 Critérios Objetivos para Alta

A alta pode ser considerada após período de observação adequado e todos os critérios abaixo atendidos:

7.2 Orientações na Alta

Referências 1. Hospital Albert Einstein. Guia do Episódio de Cuidado — Anafilaxia Pediátrica. São Paulo, 2025.

2. Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Guia Prático de Atualização — Anafilaxia. Departamento de Alergia e Imunologia. Disponível em: https://www.sbp.com.br 3. Dribin TE, et al. Anaphylaxis definition, overview, and clinical support tool. J Allergy Clin Immunol. 2025. DOI: 10.1016/j.jaci.2025.01.007 4. Golden DBK, et al. Anaphylaxis: A 2023 practice parameter update. Ann Allergy Asthma Immunol. 2024;132(2):124–176.

5. Royal Children's Hospital Melbourne. Clinical Practice Guidelines — Anaphylaxis. 2024.

6. World Allergy Organization (WAO). WAO White Book on Allergy 2026.

7. EBSERH. Protocolo de Manejo de Anafilaxia em Pediatria — PRT.UCA.004. 2025. 8. Ministério da Saúde do Brasil. Protocolos de Urgência e Emergência Pediátrica. Brasília, 2023.