Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.
1. Visão Geral do PALS
Público-alvo Lactentes, crianças e adolescentes (exceto RN em sala de
parto)Objetivo Reconhecer e tratar estados pré-parada, PCR e pós-
ressuscitação
Base científica AHA Guidelines 2020 / ILCOR 2020
Certificação Válida por 2 anos; renovação a cada cicloO PALS organiza a abordagem pediátrica em avaliações sistemáticas e algoritmos baseados em evidências, priorizando o reconhecimento precoce da deterioração clínica antes da parada cardiorrespiratória.
2. Avaliação Sistemática Pediátrica
2.1 Triângulo de Avaliação Pediátrica (TAP)
Avaliação visual rápida (< 30 s) sem tocar na criança:
- Aparência: Tônus, Interação, Consolabilidade, Olhar, Fala/Choro (TICLS)
- Trabalho respiratório: retrações, BAN, estridor, postura anormal
- Circulação cutânea: palidez, mottling, cianose central ou periférica
Figura 1 – Triângulo de Avaliação Pediátrica (TAP) – avaliação visual em < 30 segundos.
2.2 ABCDE Primário
A – Airway Permeabilidade da via aérea; posicionar, aspirar, dispositivos B – Breathing FR, saturação, ausculta, esforço respiratório C – Circulation FC, PA, pulsos, TEC, perfusão periférica D – Disability Nível de consciência (AVPU / GCS), glicemia, pupilas E – Exposure Temperatura, rash, trauma; prevenir hipotermia
Figura 2 – Avaliação Primária Sequencial (ABCDE): tratar problemas à medida que são identificados.
2.3 ABCDE Secundário
História SAMPLE + exame físico completo + exames complementares dirigidos.
3. Reconhecimento e Classificação dos Estados
Clínicos
3.1 Insuficiência Respiratória
Obstrução alta Estridor inspiratório, sialorreia, postura em tripé – croup, (supraglótica) epiglotite Obstrução baixa Sibilância expiratória, prolongamento – broncoespasmo, (infraglótica) bronquiolite Doença do parênquima Crepitações, hipoxemia – pneumonia, edema, SDRA Distúrbio do controle Respiração irregular ou apneia – intoxicação, TCE, convulsão
3.2 Choque
Hipovolêmico Taquicardia, TEC > 2 s, pulsos finos, extremidades frias, oligúria
Distributivo (séptico) Fase quente: pele quente, pulso amplo; Fase fria:
vasoconstrição, má perfusão
Cardiogênico Taquicardia, B3, hepatomegalia, edema, má perfusão sem
hipovolemia
Obstrutivo Tamponamento, pneumotórax hipertensivo, TEP – pulso
paradoxal, ingurgitamento jugularHIPOTENSÃO = CHOQUE DESCOMPENSADO – intervenção imediata!
3.3 Valores Normais por Faixa Etária
Referência essencial para definir taquicardia, bradicardia e hipotensão em pediatria:
PA sist. VC
Faixa Etária FC mín FC máx PA sist. mín FR (irpm)
normal (mL/kg)RN (0–28 dias) 100 180 ≥ 60 mmHg 65–85 mmHg 30–60 6–8
80–100
Lactente (1–12 m) 100 160 ≥ 70 mmHg 25–50 6–8
≥
Pré-escolar (1– 90–110
60 140 70+(2×idade) 20–30 6–8
5a) mmHg≥ 95–120
Escolar (6–11a) 60 130 70+(2×idade) 18–25 6–8
Adolescente ≥ 110–130
60 120 ≥ 90 mmHg 12–20 6–8
12a mmHgHipotensão pediátrica (PA sistólica abaixo do limite mínimo):
- < 1 ano: PA sistólica < 60–70 mmHg
- 1–10 anos: PA sistólica < 70 + (2 × idade em anos) mmHg — ex: criança de 4 anos → PA sistólica < 78 mmHg
- > 10 anos: PA sistólica < 90 mmHg
Atenção: CHOQUE COMPENSADO pode cursar sem hipotensão — reconhecer por taquicardia, TEC > 2 s, pulsos finos e má perfusão!
3.4 Parâmetros Ventilatórios Pós-IOT
Volume corrente (VC) 6–8 mL/kg de peso ideal (evitar hiperdistensão; ajustar pela
expansão torácica)PEEP inicial 5 cmH₂O (aumentar até 8–10 em SDRA ou edema pulmonar)
FR pós-IOT Lactente (< 1 ano): 25–30 irpm · Criança (1–8 anos): 20–25 irpm
· > 8 anos: 15–20 irpm
FiO₂ inicial 100% → reduzir para manter SpO₂ 94–99% (evitar hiperoxia
pós-PCR)
Pressão de platô < 30 cmH₂O (estratégia protetora pulmonar)ETCO₂ alvo 35–45 mmHg (capnografia contínua obrigatória); evitar
hiperventilação
Confirmação Capnografia + ausculta bilateral + Rx tórax (carina em T3–T4);
descartar intubação seletiva4. Manejo das Emergências Respiratórias
4.1 Oxigenioterapia e Via Aérea
- O₂ 100% por máscara não reinalante na instabilidade hemodinâmica ou SpO₂ < 94%
- Cânula nasal de alto fluxo (CNAF): titular FiO₂ e fluxo pela SpO₂ (alvo ≥ 94%)
- VNI – CPAP/BiPAP: asma grave, bronquiolite moderada-grave, edema pulmonar cardiogênico
- IOT: falência ventilatória, apneia, proteção de via aérea, GCS ≤ 8
4.2 Sequência Rápida de Intubação (SRI)
Pré-oxigenação O₂ 100% por 3–5 min (ou 8 respirações profundas)
Pré-medicação Atropina 0,02 mg/kg IV (mín 0,1 mg) em < 1 ano ou bradicardia Indução Ketamina 1–2 mg/kg IV ou Etomidato 0,3 mg/kg IV Bloqueio NM Succinilcolina 1–2 mg/kg IV ou Rocurônio 1,2 mg/kg IV
Confirmação Capnografia (ETCO₂), ausculta bilateral, radiografia de tórax
4.3 Broncoespasmo Grave
- Salbutamol inalatório contínuo; adicionar ipratrópio nas 3 primeiras doses
- Sulfato de magnésio 50–75 mg/kg IV (máx 2 g) em 20–30 min
- Corticoide: metilprednisolona 1–2 mg/kg IV (máx 60 mg)
- Ketamina 1–2 mg/kg IV se rebelde à terapia inicial (broncodilatador + sedação)
- Heliox (Hélio/O₂ 70:30): considerar em obstrução grave refratária
5. Manejo do Choque
5.1 Acesso Vascular
- Periférico: primeira escolha; 2 tentativas em ≤ 90 segundos antes de IO
- Intraósseo (IO): falha do periférico ou PCR – qualquer medicação IV pode ser administrada por IO
- Central: após estabilização inicial ou se IO/periférico inviáveis
- Dose flush pós-IO: SF 5–10 mL para garantir chegada da droga à circulação central
5.2 Expansão Volêmica
SF 0,9% ou Ringer Lactato 20 mL/kg em 5–10 min; repetir conforme resposta (máx 60 mL/kg/hora). Reavaliar após cada bolus.
5.3 Vasopressores e Inotrópicos
Norepinefrina 0,05–2 mcg/kg/min – choque distributivo/vasoplégico (séptico
quente); 1ª escolha na sepse com vasodilatação sistêmica
Dopamina 5–20 mcg/kg/min – choque com bradicardia associadaDobutamina 2–20 mcg/kg/min – choque cardiogênico Adrenalina 0,01–1 mcg/kg/min – choque refratário, anafilaxia grave Epinefrina IM 0,01 mg/kg (máx 0,5 mg) – anafilaxia (vasto lateral da coxa)
5.4 Manejo do Choque Séptico
Pacote de 1 hora (Surviving Sepsis Campaign pediátrica):
- Reconhecer choque séptico: febre/hipotermia + taquicardia + má perfusão OU hipotensão
- Hemoculturas (2 sítios) ANTES dos antibióticos – coleta rápida (< 5 min) NÃO deve atrasar o início do ATB
- Antibioticoterapia empírica de amplo espectro: INICIAR em até 1 hora do reconhecimento. Esquema: Cefepima 50 mg/kg IV (máx 2 g) + Vancomicina 15 mg/kg IV (máx 500 mg) — ajustar conforme foco, cultura local e imunodepressão
- Expansão volêmica: SF 0,9% 10–20 mL/kg; reavaliar após cada bolus; evitar sobrecarga (≤ 40–60 mL/kg total se sem resposta)
- Vasopressores se refratário a fluidos: Norepinefrina como 1ª escolha em choque quente; Dopamina ou Adrenalina em choque frio
- Glicemia: manter 80–180 mg/dL; corrigir hipoglicemia e hiperglicemia
- Hidrocortisona 2 mg/kg/dia IV (máx 200 mg/dia): considerar em choque refratário a catecolaminas por > 1 h ou suspeita de insuficiência adrenal
- Lactato sérico: monitorar clareamento (redução ≥ 10% a cada 2 h indica resposta)
- Controle do foco: drenar coleções, retirar cateter infectado, desbridamento quando indicado
6. Ritmos Cardíacos e Arritmias
Tabela-resumo comparativa de todas as arritmias relevantes em Pediatria:
Arritmia FC Onda P QRS Conduta PALS
(bpm)Sinusal Normal 60–100 Presente/normal Estreito Observar; tratar causa
Taquicardia 100–180 Presente/normal Estreito Tratar causa (febre, dor, Sinusal hipovolemia)
Bradicardia < 60 Presente/normal Estreito Hipóxia? → O₂. Atropina / Sinusal Adrenalina se sintomática
BAV 1º Grau 60–100 Presente; PR > Estreito Observar; monitorar
200msBAV 2º Mobitz I Variável Presente; PR Estreito (ou Monitorar; Atropina se sintomático
cresce ausente)BAV 2º Mobitz II Variável PR fixo; P Estreito/largo Marcapasso! Risco de BAV total
bloqueadaBAV 3º Grau 20–45 Dissociada do Largo EMERGÊNCIA: Atropina +
(BAVT) (esc.) QRS (escape Adrenalina + Marcapasso
ventricular)TSV > 180– Ausente ou Estreito Estável: vagal + Adenosina |
220 retrógrada Instável: CVSFlutter Atrial Atrial Dente de serra Estreito CVE; Amiodarona; controle de FC
~300; (F)
Ventr.
75–150Fibrilação Atrial Irregular Ausente (ondas Estreito; RR CVE se instável; anticoagulação;
f) irregular amiodarona
WPW Variável Presente; PR < Alargado TSV c/ WPW estável: adenosina
120ms (onda delta) OK | FA c/ WPW: EVITAR
adenosina, digoxina, verapamil
(risco FV) | CVE se instável |
Ablação eletivaEV isolada Normal + Ausente antes Largo, Monitorar; tratar causa (hipóxia,
EV do EV bizarro eletrólitos)TV 150–250 Dissociada (AV) Largo > Pulso: CVS 0,5–1 J/kg | Sem
90ms pulso: DesfibrilaçãoTorsades de 150–250 Ausente Rotacional Mg²⁺ 50 mg/kg IV | Desfibrilação | Pointes (polimórfico) Corrigir QT
Fibrilação Caótica Ausente Caótico DESFIBRILAÇÃO 2 J/kg → 4 J/kg Ventricular → ≥4 J/kg
AESP Qualquer Pode estar Organizado RCP + Adrenalina; investigar
presente (sem pulso) 5H/5TAssistolia 0 Ausente Ausente RCP + Adrenalina; investigar
5H/5T6.1 Ritmos de Referência
6.1.1 Ritmo Sinusal Normal FC 60–100 bpm. Onda P visível e positiva em DII, com morfologia normal. PR 120– 200 ms. QRS estreito (< 90 ms). RR regular.
Figura 3 – Ritmo Sinusal Normal – FC 70 bpm. Referência comparativa para identificação das arritmias.
6.1.2 Taquicardia Sinusal FC > 100 bpm (padrão > 150 bpm em lactentes). Onda P normal, precede cada QRS. Causa identificável: febre, dor, hipovolemia, hipóxia, ansiedade. Tratar a causa.
Figura 4 – Taquicardia Sinusal – FC 130 bpm. Onda P normal, QRS estreito. Diferencia-se da TSV pela FC variável e P visível.
6.2 Bradicardia Sinusal
FC < 60 bpm. Causa mais comum em pediatria: HIPÓXIA – resolver a causa antes de medicar!
Figura 5 – Bradicardia Sinusal – FC 38 bpm. Onda P normal, QRS estreito, RR aumentado. Tratar causa; Atropina se sintomática.
- Atropina 0,02 mg/kg IV/IO (mín 0,1 mg; máx 0,5 mg) – repetir 1×
- Adrenalina 0,01 mg/kg IV/IO se refratária à atropina
- Marcapasso transcutâneo: refratária a drogas
6.3 Bloqueios Atrioventriculares (BAV)
6.3.1 BAV 1º Grau – PR prolongado PR > 200 ms (em crianças > 180 ms), constante. Todo impulso atrial conduz ao ventrículo. Benigno. Causas: vagotonia, digoxina, hipercalemia, miocardite, cardiopatias congênitas. Conduta: observar e monitorar.
Figura 6 – BAV 1º Grau – PR = 320 ms. Todo P conduz ao QRS. QRS estreito, RR regular. Conduta: observação.
6.3.2 BAV 2º Grau Mobitz I (Wenckebach) PR aumenta progressivamente a cada batimento até que uma onda P é bloqueada (sem QRS), e o ciclo reinicia. RR diminui progressivamente dentro do grupo, com pausa longa após o bloqueio. Geralmente benigno; raramente requer tratamento.
Figura 7 – BAV 2º Grau Mobitz I (Wenckebach) – Padrão 3:2. PR cresce 140→240 ms até bloqueio. Benigno, monitorar.
6.3.3 BAV 2º Grau Mobitz II PR CONSTANTE (normal ou prolongado), com bloqueio súbito de ondas P (sem QRS) sem aviso prévio. Indica lesão abaixo do nó AV (feixe de His ou ramos). RISCO de progredir para BAV total. Indicação de marcapasso!
Figura 8 – BAV 2º Grau Mobitz II – Padrão 3:1. PR fixo; 2 de cada 3 P bloqueadas abruptamente. MARCAPASSO indicado.
6.3.4 BAV 3º Grau – Completo (BAVT) Nenhum impulso atrial conduz ao ventrículo. Ondas P e QRS completamente independentes (dissociação AV). Ritmo ventricular de escape: juncional (estreito, 40– 60 bpm) ou idioventricular (largo, 20–40 bpm). EMERGÊNCIA cardíaca.
Figura 9 – BAV 3º Grau (BAVT) – Ondas P 88 bpm e escape juncional 38 bpm: completamente dissociados. EMERGÊNCIA.
- Atropina 0,02 mg/kg IV/IO — SEM efeito em BAVT infranodal (age no nó AV, não no feixe de His/ramos); pode aumentar FC sinusal sem acelerar escape ventricular
- Adrenalina IV em infusão contínua: 0,01–0,3 mcg/kg/min (titular pela FC e PA; iniciar em 0,05 mcg/kg/min)
- Marcapasso transcutâneo imediato; preparar para transvenoso
- Isoproterenol 0,05–0,5 mcg/kg/min como ponte
6.4 Taquiarritmias Supraventriculares
6.4.1 Taquicardia Supraventricular (TSV) Arritmia mais comum em pediatria. FC fixa > 220 bpm (lactente) / > 180 bpm (criança). QRS estreito. P retrógrada ou ausente. Início e término súbitos. Mecanismo mais comum: reentrada (via acessória ou nodal).
Figura 10 – TSV – FC 220 bpm. QRS estreito, P retrógrada após QRS. RR absolutamente regular. Início/término súbitos.
ESTÁVEL: manobra vagal (gelo na face em lactentes; Valsalva) → Adenosina 0,1 mg/kg IV rápido (máx 6 mg; pode repetir 0,2 mg/kg, máx 12 mg).
INSTÁVEL (hipotensão, alteração de consciência): cardioversão sincronizada 0,5–1 J/kg → 2 J/kg.
Recorrente: Amiodarona 5 mg/kg IV em 30 min ou propranolol oral; encaminhamento para eletrofisiologia.
6.4.2 Flutter Atrial Ritmo atrial rápido e regular (ondas F "dente de serra") a ~300/min, com bloqueio AV variável (2:1 → FC 150 bpm; 4:1 → 75 bpm). FC ventricular geralmente regular. Incomum em pediatria saudável; associado a cardiopatias congênitas.
Figura 11 – Flutter Atrial – Ondas F em dente de serra 300/min; condução 2:1 (FC ventricular 150 bpm). Linha de base sem isoelétrica.
- Instável: cardioversão elétrica sincronizada (CVE) 0,5–1 J/kg
- Controle de FC: amiodarona, betabloqueador ou verapamil (> 1 ano)
- Anticoagulação se > 48 h de duração ou desconhecido
6.4.3 Fibrilação Atrial (FA) Atividade atrial caótica e desorganizada (ondas f de baixa amplitude na linha de base). Resposta ventricular irregularmente irregular. QRS estreito (quando sem aberrância). Rara em pediatria sem cardiopatia estrutural ou tireotoxicose.
Figura 12 – Fibrilação Atrial – Linha de base fibrilatória, sem ondas P identificáveis. RR irregularmente irregular.
- Instável: CVE 0,5–1 J/kg (sincronizada)
- Controle de FC: amiodarona, betabloqueador, digoxina
- Anticoagulação: mesmos critérios do adulto se > 48 h
- Investigar: cardiopatia estrutural, tireotoxicose, infecção, iatrogenia
6.4.4 Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW) Pré-excitação ventricular via via acessória (feixe de Kent). Tríade: PR curto (< 120 ms), onda delta (empastamento inicial do QRS) e QRS alargado. Risco de FA de alta condução (> 250/min → FV!).
Figura 13 – WPW – PR curto ~80 ms, onda delta visível (empastamento inicial), QRS alargado. Risco de FA com condução rápida.
- TSV em WPW estável: adenosina (seguro na TSV por reentrada)
- FA com WPW: EVITAR adenosina, digoxina, verapamil e amiodarona (risco de FV)
- FA com WPW instável: CVE imediata
- Tratamento definitivo: ablação por cateter por radiofrequência (eletiva)
6.5 Extrassístoles e Taquiarritmias Ventriculares
6.5.1 Extrassístole Ventricular (EV) Batimento prematuro originado nos ventrículos. QRS largo (> 90 ms) e bizarro, sem onda P precedente. Pausa compensatória após a EV. Isoladas em corações sãos: benignas. Frequentes, em salvas ou sobre onda T (fenômeno R/T): monitorar.
Figura 14 – EV – Batimento prematuro de QRS largo e bizarro (seta), sem P precedente, seguido de pausa compensatória.
- Investigar: hipóxia, hipocalemia, hipomagnesemia, intoxicação, miocardite
- EV sintomáticas ou frequentes: lidocaína 1 mg/kg IV, amiodarona ou betabloqueador
6.5.2 Taquicardia Ventricular (TV) Sequência de 3 ou mais EV. FC 150–250 bpm. QRS largo (> 90 ms) e bizarro. Dissociação AV (P e QRS independentes). Grave – pode causar instabilidade hemodinâmica e degenerar em FV.
Figura 15 – TV Monomórfica – FC 175 bpm. QRS largo e uniforme. Sem ondas P identificáveis. Risco de FV.
COM PULSO estável: Amiodarona 5 mg/kg IV em 20–60 min; Lidocaína 1 mg/kg IV; Cardioversão sincronizada 0,5 J/kg.
COM PULSO instável: Cardioversão sincronizada 0,5–1 J/kg → 2 J/kg.
SEM PULSO: Algoritmo FV/TV sem pulso – Desfibrilação 2 J/kg → 4 J/kg → ≥4 J/kg. 6.5.3 Torsades de Pointes (TV Polimórfica) Forma especial de TV com morfologia QRS rotacional ("torção em torno da linha de base"). Associada a QT longo (congênito ou adquirido: hipoK, hipoMg, drogas). Pode ser autolimitada ou degenerar em FV.
Figura 16 – Torsades de Pointes – QRS polimórfico com amplitude rotacional. Contexto de QT longo. Pode degenerar em FV.
- Magnésio 50 mg/kg IV em bolus lento (máx 2 g) – mesmo sem hipomagnesemia
- Corrigir hipocalemia, hipocalcemia, hipotermia
- Suspender drogas que prolongam o QT (eritromicina, metadona, antidepressivos TCA, antifúngicos azólicos)
- Desfibrilação se colapso hemodinâmico ou FV
- Estimulação cardíaca (marcapasso) a 90–100 bpm para encurtar QT
6.5.4 Fibrilação Ventricular (FV) Atividade elétrica ventricular caótica e desorganizada, sem débito cardíaco. Causa imediata de morte súbita. Tratamento único efetivo: desfibrilação precoce.
Figura 17 – Fibrilação Ventricular – Atividade elétrica caótica, sem QRS identificável. Desfibrilação imediata.
6.6 PCR: AESP e Assistolia
6.6.1 AESP – Atividade Elétrica Sem Pulso Ritmo organizado no monitor (qualquer padrão: sinusal, juncional, ventricular lento), mas SEM pulso palpável e SEM débito cardíaco. O ECG "engana". Investigar e tratar causas reversíveis (5H/5T) é fundamental.
Figura 18 – AESP – Ritmo organizado (escape lento, QRS levemente alargado) SEM pulso palpável. RCP + Adrenalina + 5H/5T.
6.6.2 Assistolia Ausência de atividade elétrica ventricular. Linha isoelétrica. Confirmar em 2 derivações (afastar artefato de cabo desconectado). Pior prognóstico entre os ritmos de PCR.
Figura 19 – Assistolia – Linha isoelétrica. Sem atividade elétrica. Confirmar em 2 derivações. RCP + Adrenalina + 5H/5T.
7. Parada Cardiorrespiratória (PCR) Pediátrica
7.1 Epidemiologia e Causas
Causa mais comum Hipóxia / insuficiência respiratória (diferente do adulto – FV
menos frequente)
Ritmos chocáveis FV e TV sem pulso (~10–15% das PCR pediátricas intra-
hospitalares)
Ritmos não chocáveis Assistolia e AESP (~85–90% das PCR pediátricas)
Sobrevida com alta ~30–40% intra-hospitalar; ~10% extra-hospitalar7.2 RCP de Alta Qualidade
- Frequência: 100–120 compressões/min
- Profundidade: ≥ 1/3 do diâmetro AP (~4 cm lactente / ~5 cm criança)
- Recuo completo após cada compressão; minimizar interrupções (< 10 s)
- Relação compressão:ventilação: 30:2 (1 socorrista) / 15:2 (2 socorristas)
- Via aérea avançada: 1 ventilação a cada 2–3 s sem pausar compressões
Técnica de Compressão por Faixa Etária
Lactente (< 1 ano) 2 dedos (1 socorrista) ou técnica dos polegares com mãos
envolvendo o tórax (2 socorristas) · Ponto: centro do esterno,
logo abaixo da linha intermamilar
Criança (1 ano – 1 ou 2 mãos sobrepostas · Ponto: metade inferior do esterno ·
puberdade) Profundidade ≥ 5 cm
Adolescente / adulto 2 mãos sobrepostas · Ponto: metade inferior do esterno ·
Profundidade 5–6 cmDEA / Desfibrilador Pediátrico
- DEA disponível: usar preferencialmente com atenuador pediátrico em crianças < 8 anos ou < 25 kg (reduz energia para ~50–75 J)
- Sem atenuador pediátrico: usar modo adulto mesmo em crianças – desfibrilação é prioritária
- Desfibriladores manuais: preferíveis em lactentes (dose titulável 2 J/kg); se DEA for o único disponível, usar sem hesitar
- Posição das pás: anterolateral (padrão) ou anteroposterior (preferível em lactentes pequenos)
7.3 Algoritmo – Ritmo Não Chocável (Assistolia / AESP)
Figura 20 – Algoritmo PCR Pediátrica – Assistolia / AESP. Adrenalina a cada 3–5 min. Investigar 5H e 5T.
7.4 Algoritmo – Ritmo Chocável (FV / TV sem pulso)
Figura 21 – Algoritmo PCR Pediátrica – FV / TV sem pulso. Desfibrilação 2 → 4 → 4+ J/kg. Amiodarona ou Lidocaína.
7.5 Medicações na PCR
Adrenalina 0,01 mg/kg IV/IO (= 0,1 mL/kg de 1:10.000); máx 1 mg; a cada
3–5 min
Amiodarona 5 mg/kg IV/IO em bolus (FV/TV refratária); máx 300 mg/dose;
até 3 doses
Lidocaína 1 mg/kg IV/IO; alternativa à amiodarona
Bicarbonato 1 mEq/kg IV/IO: hipercalemia, intoxicação por TCA, acidose
grave documentada
Cálcio 20 mg/kg de gluconato (= 0,2 mL/kg sol 10%): hipocalcemia,
hipercalemia, bloqueio Ca
Glicose 0,5–1 g/kg IV: hipoglicemia (SG 25%: 2–4 mL/kg)
Magnésio 50 mg/kg IV: Torsades de Pointes8. Cuidados Pós-Ressuscitação
8.1 Metas
- PA sistólica ≥ P5 para a idade; SpO₂ 94–99%
- ETCO₂ 35–45 mmHg; PaCO₂ 35–45 mmHg; PaO₂ 80–100 mmHg
- Glicemia 80–180 mg/dL; Hb ≥ 10 g/dL
8.2 Controle de Temperatura Alvo
Comatosos pós-PCR: normotermia (36–37,5 °C) ou hipotermia leve (32–36 °C) por 48–72 h. EVITAR FEBRE (> 38 °C) nas primeiras 72 h.
8.3 Monitoramento e Suporte Orgânico
- Monitoração contínua: ECG, SpO₂, ETCO₂, PAI (pressão arterial invasiva), temperatura central
- Glicemia: alvo 80–180 mg/dL; corrigir hipoglicemia e evitar hiperglicemia
- Crises epilépticas: EEG contínuo em comatosos; tratar com benzodiazepínicos + fenitoína 20 mg/kg ou levetiracetam 60 mg/kg IV
- Ecocardiograma precoce: avaliar função miocárdica pós-PCR, derrame pericárdico e cardiopatia estrutural
- Hemoglobina ≥ 10 g/dL em disfunção miocárdica pós-PCR; considerar transfusão
- Diurese-alvo: 1–2 mL/kg/h; monitorar lesão renal aguda (creatinina, ureia)
9. Situações Especiais
9.1 Anafilaxia
Figura 22 – Algoritmo de Manejo da Anafilaxia Pediátrica. Adrenalina IM é a primeira e mais importante medida.
- Adrenalina IM 0,01 mg/kg (máx 0,5 mg) no vasto lateral – PRIMEIRA MEDIDA
- Decúbito dorsal + MMII elevados; O₂ alto fluxo; SF 20 mL/kg se hipotensão
- Difenidramina 1 mg/kg IV (máx 50 mg) + Metilprednisolona 1–2 mg/kg IV
- Observação mínima 4–8 h; plano de ação por escrito na alta
9.2 Estado de Mal Epiléptico (EME)
Fase 1: 0–5 min Estabilização: Monitorar, O₂, acesso vascular, glicemia, PA,
ECGFase 2: 5–20 min Midazolam 0,1–0,2 mg/kg IV/IM/IN ou Diazepam 0,2–0,5 mg/kg Primeira Linha IV/retal
Fase 2: 20–30 min Fenitoína 20 mg/kg IV ou Ácido valpróico 40 mg/kg IV ou
Segubda Linha Levetiracetam 60 mg/kg IV
Fase 3: > 30 a 40 min EME refratário: IOT Ketamina 1–2 mg/kg IV bolus + infusão 0,3–
Refratário 3 mg/kg/h + Midazolam contínuo, Bolus 0,2 mg/kg IV; infusão
0,05–2 mg/kg/h, titular até cessação clínica/EEG (primeira
escolha) ou Pentobarbital: 5–15 mg/kg IV + infusão 0,5–5
mg/kg/h ouTiopental: 3–5 mg/kg IV + infusão 3–5 mg/kg/h ou
Anestesia geral (isoflurano) Titulação por anestesiologista Meta:
supressão burst no EEG, reservada para casos super-
refratários. Exige suporte de anestesiologia e UTI pediátrica
especializada.Obs.: Na fase 2 é melhor usar Ácido Valpróico ou Levetiracetam, se usar Fenitoína e não responder vamos para a fase 3 com 40min ultrapassando os 30 minutos com maior risco de lesão cerebral.
9.3 Trauma Pediátrico
Abordagem CABC: Controle de hemorragia catastrófica primeiro, depois A → B → C → D → E.
- Hemorragia externa: compressão direta; torniquete em amputações ou sangramento de membros incontrolável
- Fluidos: SF 0,9% ou RL 10–20 mL/kg; preferir hemoderivados precocemente em trauma grave (proporção 1:1:1 – CH:PFC:Plaquetas)
- Ácido tranexâmico: 15 mg/kg IV (máx 1 g) nas primeiras 3 horas do trauma
- Pneumotórax hipertensivo: descompressão com agulha 2º EIC linha hemiclavicular → toracostomia
- TCE grave (GCS ≤ 8): IOT + normocapnia (PaCO₂ 35–40 mmHg); PPC alvo 40–65 mmHg; evitar hipóxia, hipotensão, hiperglicemia
- Hipotermia: manter normotermia; fluidos aquecidos; cobertor térmico
- Colar cervical + imobilização: indicados em trauma de alta energia com mecanismo suspeito de lesão cervical
10. Doses de Emergência por Peso
Peso estimado: Fita de Broselow ou (Idade + 4) × 2 kg para crianças de 1–10 anos.
Adrenalina PCR 0,01 mg/kg IV/IO (ex: 10 kg = 0,1 mg = 1 mL de 1:10.000) Atropina 0,02 mg/kg IV (mín 0,1 mg; máx 0,5 mg)
Adenosina 0,1 mg/kg IV rápido (máx 6 mg 1ª dose); 0,2 mg/kg (máx 12
mg 2ª dose)
Amiodarona 5 mg/kg IV/IO (máx 300 mg/dose)
Magnésio 50 mg/kg IV em 20–30 min (máx 2 g) – Torsades /
broncoespasmo
Midazolam 0,1–0,2 mg/kg IV/IM/IN (máx 5 mg/dose)Ketamina 1–2 mg/kg IV; 4–5 mg/kg IM
Glicose 25% 2–4 mL/kg IV (= 0,5–1 g/kg de glicose)
Desfibrilação 2 J/kg → 4 J/kg → 4+ J/kg (máx 10 J/kg ou dose adulto)
Cardioversão sync. 0,5–1 J/kg → 2 J/kg (TSV instável, TV com pulso, Flutter,
FA)11. Referências Bibliográficas
Este documento foi elaborado com base nas seguintes fontes primárias e diretrizes internacionais e nacionais:
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16. Nichols DG, Shaffner DH. Rogers’ Textbook of Pediatric Intensive Care. 5ª ed. Philadelphia, PA: Wolters Kluwer; 2016.
Documento elaborado para fins educacionais e de referência clínica.
As informações não substituem o julgamento clínico nem os protocolos institucionais vigentes. — Fim do documento —