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Autolesão e Transtorno de Personalidade Borderline

Autolesão não suicida, abordagem e TPB no adolescente

Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.

1. Autolesão Não Suicida (ALNS): Conceito e

Contexto A autoagressão, tecnicamente denominada Autolesão Não Suicida (ALNS), é um fenômeno complexo na adolescência, frequentemente utilizado como mecanismo de enfrentamento para lidar com uma dor emocional que o jovem não consegue verbalizar ou processar.

Na prática clínica pediátrica, é fundamental diferenciar a ALNS de tentativas de suicídio, embora ambas exijam intervenção imediata, pois a autolesão é um forte preditor de risco futuro.

1.1 Principais Distúrbios e Fatores Etiológicos

Transtornos e condições clínicas que mais frequentemente se associam à autoagressão em adolescentes:

1.2 Psicodinâmica do Ato: "Por que cortar?"

1.3 Sinais de Alerta no Exame Físico

Observação Clínica: Atente-se para cicatrizes em estágios diferentes de cicatrização (recorrência) e uso de roupas inadequadas para o clima (mangas longas no calor).

Critério                                                 Característica
Localização Comum                                        Antebraços, face anterior das coxas e abdômen.
                                                         Lâminas de barbear, apontadores, estiletes ou
Instrumentos
                                                         unhas.
                                                         Frequentemente associado ao Cyberbullying e
Comorbidade Social
                                                         isolamento social.

2. Abordagem Clínica e Conduta

O foco deve ser a despatologização do adolescente e a acolhida da dor, sem julgamentos moralistas. O objetivo é transformar o comportamento impulsivo em comunicação verbal.

2.1 Abordagem com o Adolescente (Privacidade Obrigatória)

2.2 Orientações Práticas para os Pais

1. Contenção Emocional — Imediato

Oriente os pais a não punir, gritar ou revistar o jovem. A abordagem deve ser: "Eu vi suas marcas e estou aqui com você. Vamos buscar ajuda juntos". O foco é o afeto, não a vigilância.

2. Segurança Ambiental — Redução de Danos

Sugerir que objetos cortantes óbvios fiquem em locais menos acessíveis, sem transformar a casa em prisão nem proibições agressivas.

3. Estratégias de Regulação Emocional Baseadas em Evidências

Oriente os pais e o adolescente — preferencialmente com supervisão do psicólogo — sobre as habilidades de tolerância ao mal-estar da DBT:

Atenção: Técnicas que utilizam dor física (gelo prolongado, elásticos no pulso) não devem ser ensinadas por não-especialistas, pois podem reforçar a autoagressão como mecanismo de regulação emocional.

4. Encaminhamento Especializado — Multiprofissional

Acompanhamento conjunto: Pediatra (clínico) + Psicólogo (DBT — padrão-ouro) + Psiquiatra Infantil.

2.3 Notificação Compulsória

A autolesão em adolescentes configura violência autoprovocada e é de notificação compulsória ao SINAN, conforme a Portaria GM/MS nº 204/2016 e o ECA (Lei nº 8.069/1990). A notificação não depende de consentimento familiar.

Situação                                                 Conduta Obrigatória
                                                         Notificação ao SINAN (ficha de violência
Cicatrizes confirmadas de autolesão
                                                         autoprovocada)
Suspeita de abuso associado                              Notificação ao Conselho Tutelar e ao SINAN
                                                         Encaminhamento imediato à emergência
Ferimentos graves ou plano suicida
                                                         psiquiátrica

2.4 Red Flags para Internação ou Emergência

Atenção: Ferimentos profundos que exijam sutura, recusa em garantir a própria segurança ou plano suicida estruturado exigem encaminhamento imediato ao pronto- atendimento psiquiátrico.

O que os pais devem observar Conduta Recomendada

Isolamento extremo Tentar atividades conjuntas sem pressão por fala. Picos de agressividade Afastar objetos perigosos e manter a calma. Melhora súbita inexplicável Alerta: pode indicar decisão de ato grave.

3. Transtorno de Personalidade Borderline (TPB)

O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) — denominado na CID-11 como Transtorno de Personalidade com Proeminente Desregulação Emocional

(6D11.5) — é um padrão de desregulação emocional persistente que geralmente se manifesta no final da adolescência e início da idade adulta.

O diagnóstico em menores de 18 anos é aceito pelo DSM-5-TR quando os sintomas são graves e persistem por mais de um ano. A CID-11 não impõe restrição etária, mas exige avaliação longitudinal da personalidade.

3.1 Os 3 Pilares do TPB

3.2 Critérios Diagnósticos (DSM-5-TR)

Para o diagnóstico pelo DSM-5-TR, são necessários ao menos 5 dos 9 critérios:

Critério                                                  Manifestação no Adolescente
                                                          Crises de pânico ou raiva se um amigo demora a
Esforços contra abandono
                                                          responder uma mensagem.
                                                          Amizades intensas que terminam em brigas
Relacionamentos instáveis
                                                          catastróficas.
                                                          Mudanças drásticas frequentes de estilo, metas e
Perturbação da identidade
                                                          valores.
                                                          Comportamentos de risco sem medir
Impulsividade
                                                          consequências.
Autoagressão/Suicídio                                     Cortes, queimaduras ou ameaças recorrentes.
Instabilidade emocional                                   Disforia episódica e irritabilidade intensa.
Vazio crônico                                             Queixa persistente de tédio ou falta de propósito.
                                                          Dificuldade em controlar o temperamento; brigas
Raiva inapropriada
                                                          físicas.
                                                          Desconfiança ou sintomas dissociativos sob
Ideação paranoide
                                                          estresse severo.

Nota CID-11: Na classificação da OMS, o diagnóstico requer: (1) perturbação grave da personalidade; (2) especificador 'Desregulação Emocional Proeminente' (6D11.5); e (3) avaliação de severidade (leve, moderada ou grave).

3.3 Diagnóstico Diferencial

3.4 Tratamento e Prognóstico

O TPB tem bom prognóstico se tratado precocemente.

Pilar                              Descrição da Conduta                                        Evidência
                                   DBT (Terapia Dialética Comportamental) —
Psicoterapia (Padrão-Ouro)         tolerância ao mal-estar e regulação emocional sem           Nível A
                                   autolesão.
                                   Não é curativa. ISRS para depressão comórbida;
Farmacoterapia                     Lamotrigina ou Topiramato para impulsividade.               Nível B
                                   Nunca como tratamento isolado.
                                   Treinamento de pais em validação emocional para
Ambiente Familiar                                                                              Nível A
                                   reduzir invalidação — principal gatilho de crises.

Ponto de Atenção: O paciente Borderline não é "manipulador" por maldade; ele está usando as ferramentas que possui para sobreviver a uma dor emocional que sente como queimadura de terceiro grau em toda a pele.

4. Caso Clínico: O "Vazio" de Mariana

Este caso foi estruturado para estimular o raciocínio clínico de internos e residentes, focando na diferenciação entre a "crise da adolescência" e a psicopatologia estruturada.

4.1 Identificação

M.L.S., 15 anos, sexo feminino, estudante, acompanhada pela mãe.

4.2 Queixa Principal

"Cortes nos braços e crises de choro há 6 meses."

4.3 História da Moléstia Atual (HMA)

A mãe relata que Mariana sempre foi uma criança "sensível", mas que há cerca de um ano as oscilações de humor tornaram-se extremas. A paciente apresenta episódios de raiva intensa por motivos fúteis (ex: a mãe não poder levá-la ao shopping), seguidos por períodos de profundo abatimento e choro.

Há 6 meses, a mãe descobriu cicatrizes lineares nos antebraços e coxas da filha. Mariana admitiu o uso de lâminas de apontador, justificando que "a dor física faz a dor de dentro parar".

Antecedentes Recentes

4.4 Exame Físico e Psíquico

4.5 Questões para Discussão

1. Diagnóstico Sindrômico e Diferencial: Quais critérios do DSM-5-TR Mariana preenche? Como diferenciar de Depressão Maior ou Transtorno Bipolar Tipo II?

2. Psicodinâmica da Autolesão: Analise a frase "A dor física faz a dor de dentro parar". Qual a função neurobiológica e psicológica? Como abordar a ferida no exame sem causar invalidação?

3. Fatores de Risco e Prognóstico: Em que ponto as mudanças de identidade deixam de ser normativas? O diagnóstico de TPB pode ser fechado antes dos 18 anos?

4. Conduta Terapêutica: Quais os pilares do tratamento? Há indicação de

farmacoterapia? Qual a psicoterapia com maior evidência? Como orientar a família?

5. Obrigação Legal: Como proceder com a notificação compulsória neste caso? Quais os instrumentos legais? A família precisa consentir?

5. Gabarito Comentado: O "Vazio" de Mariana

Gabarito estruturado com base no DSM-5-TR (APA), CID-11 (OMS) e diretrizes da SBP.

5.1 Diagnóstico Sindrômico e Diferencial

Mariana preenche 6 dos 9 critérios do DSM-5-TR para TPB:

Diferenciação Crítica

5.2 Psicodinâmica da Autolesão

5.3 Diagnóstico em Menores de 18 Anos

5.4 Conduta Terapêutica

Pilar                         Descrição da Conduta                                        Evidência
Psicoterapia (Padrão-         DBT — habilidades de tolerância ao mal-estar e
                                                                                          Nível A
Ouro)                         regulação emocional.
                              ISRS para depressão comórbida; Lamotrigina ou
Farmacoterapia                                                                            Nível B
                              Topiramato para impulsividade. Não é curativa.
                              Treinamento em validação emocional. Vigilância
Orientação Familiar                                                                       Nível A
                              excessiva aumenta a ansiedade. Foco no diálogo.

SINAN (Portaria GM/MS nº 204/2016). Não requer

Notificação                   consentimento. Encaminhar ao serviço de proteção            Obrigatório
                              se houver suspeita de violência.

5.5 Take-home

O paciente com TPB possui "hipersensibilidade emocional". Eventos triviais para outros são processados como catástrofes. O tratamento visa aumentar a "pele emocional" desse paciente.

Nota da Teoria Biossocial: O caso permite discutir a Teoria Biossocial de Marsha Linehan (1993), que propõe que o TPB surge da interação entre vulnerabilidade biológica (reatividade emocional alta) e um ambiente invalidante. Essa teoria embasa toda a estrutura da DBT.

O caso de Mariana não termina com a prescrição, mas com o encaminhamento para uma rede de cuidados. O pediatra atua como gestor do caso, coordenando escola, psicólogo, psiquiatra e família.

6. Referências Bibliográficas

2016. Diário Oficial da União, 2016.