1.Definição e conceito
As doenças autoinflamatórias resultam de desregulação da imunidade inata, com episódios recorrentes de inflamação sem autoanticorpos ou linfócitos T autorreativos (ao contrário das autoimunes). Muitas são monogênicas e cursam com febres periódicas. A complicação crônica mais temida de várias delas é a amiloidose AA.
2.Abordagem da febre recorrente
Diante de febres recorrentes, valorizar: periodicidade, duração dos episódios, sintomas associados (serosite, exantema, aftas, adenomegalia, dor abdominal, mialgia), idade de início, etnia/origem e história familiar. Provas inflamatórias elevam-se nas crises e normalizam (ou não) nos intervalos. O teste genético confirma as formas monogênicas, mas pode ser negativo.
3.Principais síndromes
| Síndrome (gene) | Características | Tratamento |
|---|---|---|
| FMF — Febre Familiar do Mediterrâneo (MEFV/pirina) | Crises curtas (1–3 dias) de febre com serosite (peritonite, pleurite), artrite, eritema erisipela-símile | Colchicina (1ª linha; previne amiloidose); IL-1 se resistente |
| PFAPA | A mais comum; 2–5 anos; febre periódica "como relógio" + aftas, faringite e adenite cervical; sem sequelas | Dose única de corticoide aborta a crise; colchicina se frequente; amigdalectomia em casos selecionados |
| CAPS (NLRP3/criopirina) | Espectro FCAS → MWS → NOMID/CINCA; urticária ao frio, surdez neurossensorial, acometimento do SNC | Inibidores de IL-1 (base do tratamento) |
| TRAPS (TNFRSF1A) | Crises prolongadas (1–3 semanas), edema periorbital, mialgia migratória, exantema | Inibidores de IL-1; evitar anti-TNF monoclonais (reações paradoxais) |
| MKD/HIDS (MVK) | Início na lactância; febre com adenomegalia, dor abdominal, aftas, exantema; IgD frequentemente alta | Inibidores de IL-1 |
4.Princípios de tratamento e doses
- Colchicina: tratamento de escolha da FMF — controla as crises e, sobretudo, previne a amiloidose; uso contínuo e seguro a longo prazo.
- Bloqueio de IL-1: pilar das demais doenças mediadas por inflamassoma. Anakinra (diária, SC) e canaquinumabe (SC a cada 4 semanas) — este aprovado para FMF colchicina-resistente, MKD/HIDS, TRAPS e CAPS.
- PFAPA: dose única de corticoide no início da crise resolve o episódio; colchicina reduz a frequência; a amigdalectomia pode ser curativa em casos bem selecionados. Tende à resolução espontânea na 2ª década.
- Opções de exceção (refratários): tocilizumabe e inibidores de JAK em situações específicas.
No TRAPS, os anti-TNF monoclonais (infliximabe/adalimumabe) são desaconselhados pelo risco de piora paradoxal; o etanercepte tem resposta limitada. Prefira o bloqueio de IL-1.
5.Complicações
- Amiloidose AA (sobretudo FMF e CAPS/TRAPS não tratados), com risco de doença renal.
- Surdez neurossensorial e dano do SNC nas formas graves de CAPS (NOMID/CINCA).
- Impacto na qualidade de vida, escolar e no crescimento pelas crises recorrentes.
6.Seguimento e prognóstico
Acompanhamento da frequência/intensidade das crises e das provas inflamatórias nos intervalos, com vigilância de proteinúria (rastreio de amiloidose) e, na CAPS, avaliação auditiva e neurológica. Com diagnóstico e tratamento adequados — especialmente o controle inflamatório contínuo —, o prognóstico melhorou muito, com prevenção das complicações de órgão. A PFAPA, em particular, tem excelente prognóstico e costuma ceder com a idade.
7.Referências selecionadas
- De Benedetti F, et al. Canakinumab for the Treatment of Autoinflammatory Recurrent Fever Syndromes (CLUSTER). N Engl J Med. 2018.
- Current Therapeutic Options for Monogenic Autoinflammatory Diseases and PFAPA — practical guide. Front Immunol. 2020.
- PFAPA Syndrome — comprehensive review. PMC. 2025.
- Recomendações EULAR/PRINTO para o manejo das febres periódicas mediadas por IL-1.