1.Definição e conceito
A síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P / MIS-C) é uma condição hiperinflamatória pós-infecciosa associada ao SARS-CoV-2, que surge em geral 2 a 6 semanas após a infecção (muitas vezes assintomática). Caracteriza-se por febre, inflamação acentuada e disfunção de múltiplos órgãos, com sobreposição clínica à doença de Kawasaki e à síndrome do choque tóxico.
2.Epidemiologia
Acomete crianças e adolescentes (< 21 anos), com predomínio em escolares. A incidência caiu acentuadamente após a ampla imunidade populacional e a vacinação — que se associa a menor risco e menor gravidade —, mas a vigilância permanece relevante.
3.Fisiopatologia
Resposta imune desregulada e tardia ao SARS-CoV-2, com ativação de imunidade inata e adaptativa, tempestade de citocinas e vasculopatia/miocardite. Distingue-se da fase aguda da COVID-19, sendo um fenômeno pós-infeccioso.
4.Definições de caso
Existem definições da OMS, do CDC/CSTE e do RCPCH. De forma geral, exigem: criança/adolescente com febre, evidência laboratorial de inflamação, acometimento de ≥ 2 sistemas, evidência de infecção/exposição ao SARS-CoV-2 e exclusão de outras causas. O CDC/CSTE atualizou a definição de vigilância em 2023, tornando-a mais específica.
A grande sobreposição com a doença de Kawasaki e com sepse/choque tóxico exige diagnóstico de exclusão cuidadoso. Manifestações gastrointestinais proeminentes (dor abdominal, vômitos, diarreia) e disfunção cardíaca são frequentes.
5.Manifestações clínicas
- Gerais: febre persistente, prostração.
- Gastrointestinais: dor abdominal, vômitos, diarreia (muito comuns).
- Cardiovasculares: disfunção miocárdica, hipotensão/choque, alterações coronarianas, arritmias.
- Mucocutâneas: exantema, conjuntivite, alterações de mucosas (semelhantes à DK).
- Neurológicas: cefaleia, irritabilidade, raramente quadros mais graves.
6.Exames complementares
Provas inflamatórias muito elevadas (PCR, VHS, ferritina), elevação de marcadores cardíacos (troponina, BNP/NT-proBNP), D-dímero e alterações de coagulação, linfopenia. Sorologia/RT-PCR para SARS-CoV-2. Ecocardiograma é essencial (função ventricular e coronárias); ECG para arritmias. Avaliar função renal e hepática.
7.Tratamento
- Imunoglobulina IV 2 g/kg e corticosteroides são a base imunomoduladora.
- Anakinra (anti-IL-1) em casos refratários ou graves.
- Ácido acetilsalicílico em baixa dose pela preocupação coronariana; tromboprofilaxia pelo estado pró-trombótico.
- Suporte intensivo (inotrópicos, ventilação) na disfunção cardíaca/choque; antibióticos empíricos até afastar sepse.
Evitar corticoterapia ambulatorial prolongada após a alta; o desmame deve ser orientado pela resposta clínica e laboratorial.
8.Seguimento e prognóstico
Com tratamento, a maioria se recupera bem, inclusive a função cardíaca, na maior parte dos casos. O seguimento cardiológico (ecocardiograma seriado) é indicado pela possibilidade de disfunção miocárdica e de alterações coronarianas; também se acompanham eventuais sequelas neurológicas/psicológicas. A vacinação contra a COVID-19 reduz o risco e é a principal medida preventiva.
9.Referências selecionadas
- CDC/CSTE. MIS-C surveillance case definition (2023) e Clinical Care/Treatment Guidance.
- OMS. Multisystem inflammatory syndrome in children and adolescents with COVID-19.
- ACR Clinical Guidance for MIS-C associated with SARS-CoV-2.