Reumatologia Pediátrica · Revisão

Síndrome de Ativação Macrofágica (SAM)

HLH secundária na reumatologia pediátrica: quando suspeitar, critérios 2016, tratamento (corticoide, anakinra, emapalumabe) e prognóstico.

1.Definição e conceito

A síndrome de ativação macrofágica (SAM) é uma forma de linfo-histiocitose hemofagocítica (HLH) secundária, caracterizada por ativação descontrolada de macrófagos e linfócitos T, com tempestade de citocinas e falência de múltiplos órgãos. É uma emergência potencialmente fatal.

2.Quando ocorre

Complica sobretudo a AIJ sistêmica (e a doença de Still), mas também o LES juvenil, a doença de Kawasaki, a MIS-C, infecções (em especial vírus, como Epstein-Barr) e neoplasias. Pode ser a manifestação inicial ou surgir durante a evolução, às vezes precipitada por infecção ou mudança de tratamento.

3.Fisiopatologia

Há defeito (genético ou funcional) na citotoxicidade de células NK e linfócitos T citotóxicos, com persistência do estímulo, hiperprodução de interferon-γ e outras citocinas (IL-1, IL-6, IL-18), ativação maciça de macrófagos e hemofagocitose. O resultado é citopenias, coagulopatia e dano tecidual.

4.Quando suspeitar

  • Febre persistente com piora do estado geral em paciente com doença reumática.
  • Queda das séries hematológicas (citopenias); de forma característica, queda/normalização paradoxal do VHS (consumo de fibrinogênio) com PCR ainda alta.
  • Hiperferritinemia acentuada (marcador-chave), hipertrigliceridemia, hipofibrinogenemia.
  • Elevação de transaminases e DHL, hepatoesplenomegalia, sangramentos, disfunção do SNC.
  • Elevação de sIL-2R (CD25 solúvel) e CD163; hemofagocitose em medula (apoia, mas não é obrigatória).

5.Critérios de classificação

Para a SAM associada à AIJ sistêmica, os critérios EULAR/ACR/PRINTO 2016 definem: paciente febril com ferritina > 684 ng/mL e pelo menos dois dos seguintes:

Critérios de classificação da SAM em AIJ sistêmica (2016).
ParâmetroLimiar
Plaquetas≤ 181 × 10⁹/L
AST> 48 U/L
Triglicerídeos> 156 mg/dL
Fibrinogênio≤ 360 mg/dL

Os critérios HLH-2004 também são usados no contexto de HLH em geral. O julgamento clínico e a tendência temporal dos exames (ferritina em ascensão, fibrinogênio em queda) são tão importantes quanto os pontos de corte isolados.

Sinal de alarme

Em criança com AIJ sistêmica, VHS que cai enquanto a PCR permanece alta, ferritina disparando e plaquetas em queda devem acender o alerta imediato para SAM.

6.Tratamento

É uma emergência — hospitalização, suporte e imunossupressão precoces:

  • Glicocorticoide em dose alta: pulsos de metilprednisolona (30 mg/kg/dia, máx 1 g, por 3 dias).
  • Anakinra (bloqueio de IL-1), de uso crescente e precoce, inclusive em doses elevadas.
  • Ciclosporina como poupador/associada.
  • Imunoglobulina IV em situações selecionadas; tratar o gatilho (ex.: infecção).
  • Refratários: esquemas tipo etoposídeo (protocolo HLH) e, mais recentemente, emapalumabe (anti-interferon-γ), aprovado para a SAM da doença de Still/AIJ sistêmica.
  • Suporte intensivo conforme a disfunção orgânica.

7.Seguimento e prognóstico

O prognóstico depende do reconhecimento e tratamento precoces. Episódios podem recorrer, sobretudo na AIJ sistêmica, exigindo vigilância contínua (ferritina, hemograma, fibrinogênio) e atenção a gatilhos. Com terapia dirigida atual, a mortalidade caiu, mas a SAM segue entre as complicações mais graves da reumatologia pediátrica.

8.Referências selecionadas

  1. Ravelli A, et al. 2016 Classification Criteria for Macrophage Activation Syndrome Complicating Systemic JIA (EULAR/ACR/PRINTO).
  2. Henter JI, et al. HLH-2004 diagnostic and therapeutic guidelines.
  3. Estudos sobre anakinra e emapalumabe na SAM/doença de Still.