Reumatologia Pediátrica · Revisão

Lúpus Eritematoso Sistêmico Juvenil (LESJ)

Fisiopatologia, critérios EULAR/ACR 2019, nefrite lúpica, tratamento e doses, complicações, seguimento e prognóstico.

1.Definição e conceito

O lúpus eritematoso sistêmico juvenil (LESJ) é uma doença autoimune crônica, multissistêmica, caracterizada por produção de autoanticorpos, formação de imunocomplexos e inflamação de múltiplos órgãos, com curso de surtos e remissões. Cerca de 15–20% de todos os casos de lúpus iniciam-se na infância ou adolescência e, em geral, o LESJ tem apresentação mais grave e maior acometimento renal e neurológico do que a forma do adulto.

2.Epidemiologia

Predomina no sexo feminino (mais intensamente após a puberdade), com pico na adolescência. É raro antes dos 5 anos — nessa faixa deve-se considerar lúpus monogênico/interferonopatias. Há influência genética e étnica, com maior gravidade em determinados grupos.

3.Fisiopatologia

A perda de tolerância imunológica leva à ativação de linfócitos B e T autorreativos, produção de autoanticorpos (anti-DNA de dupla fita, anti-Sm e outros) e deposição de imunocomplexos, com ativação do complemento e dano tecidual. A via do interferon tipo I tem papel central. Defeitos na depuração de células apoptóticas e na regulação imune perpetuam o processo. Quanto mais precoce o início, maior a chance de um componente genético/monogênico.

4.Classificação diagnóstica (EULAR/ACR 2019)

Os critérios EULAR/ACR 2019 trouxeram alta sensibilidade e especificidade também no LESJ. Têm um critério de entrada obrigatório — FAN ≥ 1:80 — seguido de domínios clínicos e imunológicos com pontuação ponderada; classifica-se como lúpus quando o escore total é ≥ 10, desde que haja pelo menos um critério clínico.

Coexistem na literatura os critérios ACR 1997 e SLICC 2012. O diagnóstico permanece clínico — os critérios são de classificação, não substituem o julgamento.

Atenção

FAN negativo torna o LESJ muito improvável; FAN positivo isolado, porém, é inespecífico e comum em crianças saudáveis. O contexto clínico manda.

5.Manifestações clínicas

Quase qualquer órgão pode ser acometido:

  • Constitucionais: febre, fadiga, perda de peso.
  • Mucocutâneas: eritema malar, fotossensibilidade, lúpus discoide, úlceras orais/nasais, alopecia não cicatricial.
  • Musculoesqueléticas: artrite/artralgia não erosiva, mialgia.
  • Renais (nefrite lúpica): proteinúria, hematúria, hipertensão, queda da função — determinante do prognóstico.
  • Neuropsiquiátricas: convulsões, psicose, cefaleia, disfunção cognitiva, AVC.
  • Hematológicas: anemia (inclusive hemolítica), leucopenia, linfopenia, plaquetopenia.
  • Serosites: pleurite, pericardite.

6.Exames complementares

Imunologia

Autoanticorpos e complemento

FAN (triagem/entrada). Anti-DNA dupla fita e anti-Sm são específicos; anti-DNA correlaciona-se com atividade e nefrite. Anti-Ro/La, anti-RNP. Anticorpos antifosfolípides (anticardiolipina, anti-β2-glicoproteína I, anticoagulante lúpico) pelo risco trombótico. C3 e C4 consumidos indicam atividade.

Avaliação de órgãos

Rotina e dirigida

Hemograma, função renal, urina I e relação proteína/creatinina, provas inflamatórias (VHS costuma alta; PCR baixa, salvo serosite/infecção). A biópsia renal é decisiva na nefrite, classificando-a (ISN/RPS classes I–VI) e guiando o tratamento. Avaliação neurológica, cardíaca e pulmonar conforme o quadro.

7.Nefrite lúpica

Acomete grande parte dos pacientes pediátricos e define o prognóstico. A biópsia renal classifica em classes I–VI (ISN/RPS); as classes proliferativas III e IV exigem tratamento mais intenso. O manejo divide-se em indução (corticoide + micofenolato ou ciclofosfamida) e manutenção (micofenolato ou azatioprina), com belimumabe como adjuvante em casos selecionados.

8.Tratamento

A estratégia é controlar a atividade, prevenir surtos e dano cumulativo e minimizar a toxicidade dos corticoides.

  • Hidroxicloroquina: recomendada para praticamente todos — reduz surtos, dano e mortalidade.
  • Glicocorticoides: base do controle agudo; objetivo de reduzir à menor dose possível. Pulsos de metilprednisolona em doença grave.
  • Imunossupressores poupadores de corticoide: micofenolato, azatioprina, metotrexato.
  • Ciclofosfamida: doença grave/ameaçadora de órgão (nefrite proliferativa, neuropsiquiátrica).
  • Belimumabe: aprovado para LESJ (a partir dos 5 anos), em surtos frequentes ou dificuldade de desmame do corticoide.
  • Rituximab: doença refratária ou ameaçadora de órgão.
Doses de referência (individualizar; sob reumatologia).
MedicamentoDoseObservações
Hidroxicloroquina≈ 5 mg/kg/dia (máx ≈ 400 mg/dia)Avaliação oftalmológica periódica
Prednisona0,5–2 mg/kg/dia conforme gravidadeDesmamar o quanto antes
Metilprednisolona (pulso)30 mg/kg/dia (máx 1 g) por 3 diasDoença grave/ameaçadora de órgão
Micofenolato de mofetilaPor superfície corporal (indução/manutenção da nefrite)Poupador de corticoide
CiclofosfamidaEsquemas IV (ex.: pulsos mensais)Nefrite proliferativa, neuro
BelimumabeConforme bula pediátrica (≥ 5 anos)Surtos frequentes/poupador

9.Complicações e comorbidades

  • Nefrite evoluindo para doença renal crônica/terminal.
  • Eventos trombóticos (síndrome antifosfolípide associada).
  • Infecções (doença e imunossupressão) — principal causa de morbimortalidade.
  • Dano cumulativo por corticoide: osteonecrose, osteoporose, catarata, alterações metabólicas e de crescimento.
  • Risco cardiovascular acelerado a longo prazo.

10.Protocolo de seguimento

  • Atividade e dano: avaliação clínica e laboratorial regular (índices como SLEDAI/SLICC), incluindo anti-DNA e complemento.
  • Renal: urina I, proteinúria e função renal periódicos; pressão arterial em toda consulta.
  • Adesão: ponto crítico na adolescência — abordar ativamente.
  • Prevenção: fotoproteção, vacinação (não vivas durante imunossupressão; atualizar antes), saúde óssea, rastreio de dislipidemia, saúde mental.
  • Oftalmologia pelo uso de hidroxicloroquina.

11.Prognóstico

A sobrevida melhorou muito, mas o LESJ ainda implica maior carga de dano acumulado ao longo da vida do que a forma adulta, por sua maior atividade e exposição prolongada a tratamentos. O prognóstico depende do controle da nefrite e do acometimento neuropsiquiátrico, da prevenção de infecções e da adesão. Diagnóstico precoce, hidroxicloroquina para todos e redução criteriosa do corticoide são os pilares de bom desfecho.

12.Referências selecionadas

  1. Aringer M, et al. 2019 EULAR/ACR classification criteria for SLE. Ann Rheum Dis / Arthritis Rheumatol. 2019.
  2. Groot N, et al. SHARE recommendations for the diagnosis and treatment of childhood-onset SLE. Ann Rheum Dis.
  3. An Update on the Management of Childhood-Onset SLE. PMC. 2021.
  4. Fanouriakis A, et al. 2019 update of EULAR recommendations for the management of SLE.