1.Definição e conceito
A febre reumática (FR) é uma doença inflamatória sistêmica pós-infecciosa, resposta autoimune a uma faringoamigdalite por estreptococo do grupo A, que ocorre tipicamente 2 a 4 semanas após a infecção. Sua importância está na cardite, que pode evoluir para doença reumática cardíaca, principal causa de cardiopatia adquirida em crianças em muitas regiões.
2.Epidemiologia
Acomete sobretudo crianças de 5 a 15 anos, em populações com acesso limitado ao tratamento das faringites estreptocócicas. O Brasil é considerado área de risco moderado a alto, o que tem implicação direta na aplicação dos critérios diagnósticos.
3.Fisiopatologia
Por mimetismo molecular, anticorpos e linfócitos T dirigidos a antígenos do estreptococo reagem de forma cruzada com tecidos do hospedeiro (coração, articulações, sistema nervoso central, pele), gerando inflamação. A predisposição genética modula a suscetibilidade.
4.Critérios de Jones (revisão 2015)
O diagnóstico usa os critérios de Jones revisados (2015), que passaram a diferenciar populações de baixo risco e de risco moderado/alto e incorporaram a cardite subclínica detectada por ecocardiograma. Exige-se evidência de infecção estreptocócica prévia (ASLO/anti-DNAse B, cultura ou teste rápido), salvo na coreia e na cardite indolente.
| Maiores | Menores |
|---|---|
| Cardite (clínica e/ou subclínica ao eco) | Artralgia (poliartralgia) |
| Artrite (poliartrite; em risco alto, mono/poliartralgia conta) | Febre |
| Coreia de Sydenham | Elevação de VHS/PCR |
| Eritema marginado | Intervalo PR prolongado ao ECG |
| Nódulos subcutâneos |
Diagnóstico: 2 maiores ou 1 maior + 2 menores, com evidência de infecção estreptocócica prévia (em surto inicial).
Por ser população de risco moderado/alto, no Brasil aplicam-se os limiares mais sensíveis dos critérios de 2015 (ex.: monoartrite/poliartralgia como critério maior), em linha com as orientações da SBP e da Sociedade Brasileira de Cardiologia/Reumatologia.
5.Tratamento do surto agudo
- Erradicação do estreptococo: penicilina G benzatina IM dose única — 600.000 U se < 27 kg e 1.200.000 U se ≥ 27 kg (alternativa: amoxicilina/penicilina V oral; macrolídeo se alergia).
- Artrite/cardite leve: anti-inflamatórios (AINE; ex.: naproxeno ou ácido acetilsalicílico, com monitorização).
- Cardite moderada/grave: corticosteroide (prednisona) e manejo de insuficiência cardíaca.
- Coreia: repouso e, se necessário, valproato ou carbamazepina; corticoide em casos graves.
- Repouso conforme a atividade inflamatória/cardite.
6.Profilaxia secundária
É a medida mais eficaz para prevenir recorrências e a evolução para doença cardíaca. Baseia-se em penicilina G benzatina IM a cada 3–4 semanas (a cada 3 semanas em alto risco/recorrência), nas mesmas doses por peso. A via injetável é superior à oral.
| Situação | Duração |
|---|---|
| Sem cardite | 5 anos ou até os 21 anos (o que for maior) |
| Cardite sem doença valvar residual | 10 anos ou até os 21 anos (o que for maior) |
| Cardite com doença valvar residual | 10 anos ou até os 40 anos (por vezes vitalícia) |
A profilaxia secundária não dispensa o tratamento adequado de cada nova faringite estreptocócica (profilaxia primária) e a prevenção de endocardite quando indicada.
7.Complicações
- Doença reumática cardíaca (valvopatia, sobretudo mitral e aórtica) — principal sequela.
- Insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e necessidade de intervenção valvar a longo prazo.
- Recorrências, que agravam o dano cardíaco.
8.Seguimento e prognóstico
Seguimento clínico e ecocardiográfico para avaliar a evolução valvar, garantia de adesão à profilaxia (principal determinante do prognóstico) e educação da família. Sem cardite, o prognóstico é excelente; com doença valvar estabelecida, depende da gravidade e da prevenção de novos surtos.
9.Referências selecionadas
- Gewitz MH, et al. Revision of the Jones Criteria for the diagnosis of acute rheumatic fever (AHA, 2015).
- CDC. Clinical Guidance for Acute Rheumatic Fever. 2025.
- Diretrizes brasileiras de febre reumática (SBP / SBC / SBR).