Reumatologia Pediátrica · Revisão

Esclerodermia Juvenil

Da morfeia (localizada) à esclerose sistêmica juvenil: formas, diagnóstico, tratamento, complicações e prognóstico.

1.Definição e conceito

A esclerodermia juvenil reúne doenças do tecido conjuntivo marcadas por fibrose. Divide-se em dois grandes grupos com prognósticos muito diferentes: a esclerodermia localizada (morfeia), restrita à pele/tecidos subjacentes e muito mais comum na criança, e a esclerose sistêmica juvenil (ESJ), rara, com fibrose cutânea difusa e acometimento de órgãos internos.

2.Epidemiologia

A forma localizada predomina amplamente na infância, com leve predomínio feminino. A esclerose sistêmica juvenil é rara e responde por pequena fração dos casos pediátricos.

3.Fisiopatologia

Combina lesão vascular, ativação imune/autoimunidade e fibrose por deposição excessiva de colágeno mediada por fibroblastos ativados (TGF-β e outras vias). Na forma sistêmica, a vasculopatia é proeminente (Raynaud, úlceras digitais, hipertensão pulmonar).

4.Formas e subtipos

Esclerodermia localizada (morfeia)

  • Placa (morfeia circunscrita): placas endurecidas, mais superficiais.
  • Linear: a mais comum na criança; faixas que podem cruzar articulações e comprometer crescimento. Na face, "en coup de sabre" e a síndrome de Parry-Romberg (atrofia hemifacial).
  • Generalizada e profunda: múltiplas placas/acometimento de planos profundos.

Esclerose sistêmica juvenil

Esclerose cutânea difusa ou limitada com fenômeno de Raynaud, acometimento pulmonar (doença intersticial, hipertensão pulmonar), gastrointestinal, renal e cardíaco.

Atenção

Na forma linear, mesmo "só de pele", a faixa pode atravessar articulações e placas de crescimento — risco de contraturas, assimetrias e déficit de crescimento do membro ou da face.

5.Diagnóstico e exames

O diagnóstico é clínico, apoiado por:

  • Avaliação da pele e mapeamento das lesões (escores de atividade/dano na morfeia).
  • Capilaroscopia periungueal e autoanticorpos (anti-Scl-70/topoisomerase I, anticentrômero, anti-RNA polimerase III) — sobretudo na suspeita de doença sistêmica.
  • RM para extensão profunda (linear/face, atividade).
  • Na ESJ: investigação de órgãos — função pulmonar e TC de tórax, ecocardiograma, avaliação gastrointestinal e renal.

6.Tratamento

Localizada ativa, linear, profunda ou que ameaça função

Metotrexato (10–15 mg/m²/semana) é a base, frequentemente associado a corticoide sistêmico na fase de indução (pulsos de metilprednisolona ou prednisona oral com desmame). O micofenolato é alternativa em casos refratários/extensos. Formas superficiais limitadas podem responder a tópicos e fototerapia. Fisioterapia previne contraturas.

Esclerose sistêmica juvenil

Tratamento orientado pelos órgãos acometidos: imunossupressão (micofenolato, metotrexato; ciclofosfamida ou outras opções na doença pulmonar), vasodilatadores para Raynaud/úlceras digitais (bloqueadores de canal de cálcio, inibidores de fosfodiesterase, análogos de prostaciclina), proteção gástrica e manejo específico da hipertensão pulmonar.

7.Complicações

  • Localizada: contraturas articulares, atrofia e assimetria de membros/face, alterações estéticas e, no "en coup de sabre", repercussões neurológicas/oculares.
  • Sistêmica: doença pulmonar intersticial, hipertensão pulmonar, crise renal, dismotilidade gastrointestinal, úlceras digitais.

8.Seguimento e prognóstico

A morfeia tem bom prognóstico vital, mas exige seguimento prolongado pelo risco de recidiva e de dano funcional/estético — daí o tratamento ativo das formas lineares/profundas. A esclerose sistêmica juvenil tem prognóstico mais reservado, ditado pelo acometimento pulmonar e cardíaco, e demanda acompanhamento multidisciplinar com rastreio periódico de órgãos.

9.Referências selecionadas

  1. Zulian F, et al. SHARE recommendations for juvenile localized scleroderma and juvenile systemic sclerosis.
  2. Constantin T, et al. Recomendações de diagnóstico e manejo da esclerodermia localizada juvenil.
  3. Foeldvari I, et al. Consenso sobre esclerose sistêmica juvenil.