Reumatologia Pediátrica · Revisão

Dermatomiosite Juvenil

Vasculopatia autoimune de pele e músculo: clínica, autoanticorpos, diagnóstico, tratamento e doses, complicações e prognóstico.

1.Definição e conceito

A dermatomiosite juvenil (DMJ) é a miopatia inflamatória idiopática mais comum da infância — uma vasculopatia autoimune que acomete sobretudo músculo e pele, podendo envolver pulmão, trato gastrointestinal e outros órgãos. Início antes dos 16 anos, com fraqueza muscular proximal simétrica e lesões cutâneas características.

2.Epidemiologia

Rara, com pico entre 4 e 10 anos e predomínio feminino. Diferentemente do adulto, a associação com neoplasia é incomum na criança.

3.Fisiopatologia

É uma vasculopatia mediada por imunidade, com lesão de capilares no músculo e na pele, ativação da via do interferon tipo I e infiltrado inflamatório perimisial/perifascicular. A rarefação de capilares explica a atrofia perifascicular típica e os achados de capilaroscopia periungueal. Autoanticorpos específicos definem subgrupos clínicos.

4.Manifestações clínicas

  • Cutâneas: heliótropo (eritema violáceo periorbital), pápulas de Gottron sobre articulações dos dedos, eritema em face, "V" do decote, joelhos e cotovelos; alterações capilares periungueais; em casos graves, úlceras cutâneas.
  • Musculares: fraqueza proximal simétrica (dificuldade para subir escadas, pentear cabelo, levantar do chão — sinal de Gowers), mialgia, fadiga; disfagia/disfonia indicam acometimento de musculatura faríngea.
  • Calcinose: depósitos de cálcio em pele/subcutâneo, complicação crônica de difícil manejo.
  • Sistêmicas: doença pulmonar intersticial (sobretudo com anti-MDA5), envolvimento gastrointestinal (vasculopatia).

5.Diagnóstico e exames

Classicamente apoiado nos critérios de Bohan & Peter (fraqueza proximal simétrica, elevação de enzimas musculares, alterações eletromiográficas, biópsia muscular e exantema típico) e, mais recentemente, nos critérios de classificação EULAR/ACR 2017 para miopatias inflamatórias.

  • Enzimas musculares: CK, aldolase, DHL, AST/ALT — podem normalizar na doença prolongada não tratada.
  • RM muscular: evidencia edema/inflamação e orienta o sítio de biópsia; útil também no seguimento.
  • Capilaroscopia periungueal: rarefação e alterações capilares — marcador de atividade.
  • Autoanticorpos específicos (MSA): estratificam fenótipo e prognóstico.
Autoanticorpos miosite-específicos e fenótipos.
AnticorpoAssociação clínica
Anti-TIF1γ (p155/140)Doença cutânea proeminente, curso crônico/policíclico
Anti-NXP2Início mais precoce, calcinose, fraqueza mais intensa
Anti-MDA5Doença amiopática, úlceras cutâneas, doença pulmonar intersticial
Anti-Mi-2Doença cutânea clássica, geralmente boa resposta

6.Tratamento e doses

O tratamento precoce e agressivo preserva força e previne calcinose e atrofia.

Esquema de referência (individualizar; sob reumatologia).
MedicamentoDose/usoPapel
Metilprednisolona (pulso)30 mg/kg/dia (máx 1 g) por 3 diasIndução na doença moderada/grave
Prednisona1–2 mg/kg/dia, com desmame lentoControle inicial
Metotrexato10–15 mg/m²/semanaPoupador de corticoide de 1ª linha
Imunoglobulina IV2 g/kg por cicloDoença cutânea/refratária
Micofenolato / ciclosporinaConforme peso/superfícieAlternativas poupadoras
CiclofosfamidaEsquemas IVDoença pulmonar/grave
RituximabConforme protocoloRefratários

Complementam o tratamento: fotoproteção rigorosa, fisioterapia (preservar força e prevenir contraturas) e suporte nutricional. A calcinose é de manejo difícil — o melhor "tratamento" é o controle precoce da doença.

7.Complicações

  • Calcinose com dor, ulceração e infecção.
  • Doença pulmonar intersticial (atenção ao anti-MDA5, risco de forma rapidamente progressiva).
  • Disfagia e aspiração; vasculopatia gastrointestinal (rara, grave).
  • Contraturas, lipodistrofia e alterações de crescimento.

8.Seguimento e prognóstico

Monitorar atividade muscular (força, enzimas, RM, capilaroscopia) e cutânea, além da toxicidade dos medicamentos. Com tratamento adequado e precoce, a maioria evolui bem; parte tem curso crônico/policíclico, e a calcinose é o principal marcador de morbidade a longo prazo. Anti-MDA5 e anti-NXP2/TIF1γ sinalizam fenótipos de maior atenção.

9.Referências selecionadas

  1. Clinical practice guidance for JDM 2018-Update. Modern Rheumatology. 2020.
  2. Juvenile Dermatomyositis: Updates in Pathogenesis, Biomarkers and Treatment. Pediatric Drugs. 2024.
  3. Bohan A, Peter JB. Polymyositis and dermatomyositis (critérios clássicos).
  4. Lundberg IE, et al. 2017 EULAR/ACR classification criteria for idiopathic inflammatory myopathies.