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Pneumologia · Médicos e profissionais

Antibioticoterapia na Pneumonia

Bases da escolha, agentes etiológicos e padrões radiológicos

Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.

1. Bases Da Escolha Do Antibiótico

A antibioticoterapia na pneumonia pediátrica é fundamentada em três pilares:

Pilar                               Racional
Faixa etária                        Define os agentes etiológicos mais prováveis
Gravidade                           Determina via de administração, espectro e local de tratamento
Epidemiologia local                 Perfil de resistência regional do S. pneumoniae

2. Pbp — Proteínas Ligadoras De Penicilina

2.1 O que são as PBPs?

As PBPs (Penicillin Binding Proteins) são enzimas localizadas na membrana bacteriana responsáveis pela síntese e remodelação do peptideoglicano — o principal componente estrutural da parede celular bacteriana.

Funcionam como transpeptidases e carboxipeptidases, catalisando as ligações cruzadas entre as cadeias de peptideoglicano que conferem rigidez e integridade à parede.

2.2 Por que são o alvo dos betalactâmicos?

Os antibióticos betalactâmicos (penicilinas, cefalosporinas, carbapenêmicos) possuem estrutura molecular análoga ao substrato natural das PBPs — o dipeptídeo D-Ala-D- Ala.

Etapa                 O que ocorre
1. Ligação            O betalactâmico se liga irreversivelmente ao sítio ativo da PBP
2. Inibição           A transpeptidação é bloqueada — síntese de peptideoglicano cessa
3.
                      A bactéria não mantém integridade da parede celular
Consequência

4. Resultado Lise osmótica e morte bacteriana

2.3 Mecanismos de Resistência aos Betalactâmicos

S. pneumoniae — Resistência por PBP Alterada CONCEITO FUNDAMENTAL: O S. pneumoniae resistente NÃO produz beta- lactamase. Seu mecanismo é a alteração estrutural das próprias PBPs. Por isso, o clavulanato é INEFICAZ contra a resistência do pneumococo.

Aspecto                               Detalhe
                                      Aquisição de genes mosaic por recombinação com
                                      estreptococos viridans da microbiota oral
                                      PBPs com estrutura alterada no sítio de ligação — baixa
Resultado
                                      afinidade pelo betalactâmico
Por que clavulanato não               O clavulanato inibe beta-lactamase, que o pneumococo não
funciona                              produz — não há enzima a inibir
                                      Aumentar a dose de amoxicilina (90 mg/kg/dia) —
Solução clínica                       concentrações altas superam a baixa afinidade das PBPs
                                      alteradas
                                      Vencida por doses altas de amoxicilina — NÃO é necessário
Resistência intermediária
                                      trocar de antibiótico
                                      Ceftriaxona EV ou fluoroquinolona (adolescentes) — doses
Resistência elevada
                                      ainda maiores ou classe diferente

S. aureus — Resistência por PBP2a (MRSA)

Aspecto                               Detalhe
Gene responsável                      mecA (ou mecC) — transferência horizontal entre cepas
                                      PBP2a — PBP adicional com baixíssima afinidade por todos
Proteína produzida
                                      os betalactâmicos
                                      Mesmo com concentrações altas de oxacilina, a PBP2a
                                      assume a síntese da parede celular
                                      Nenhum betalactâmico funciona no MRSA — independente
Consequência
                                      da dose
Aspecto                               Detalhe
                                      Vancomicina, Linezolida ou Daptomicina — agentes que não
Solução clínica
                                      dependem das PBPs

H. influenzae / Gram-negativos — Resistência por Beta-lactamase

Aspecto                               Detalhe
                                      Produção de enzima beta-lactamase (ex: TEM-1) que
                                      hidrolisa o anel betalactâmico
Consequência                          O antibiótico é destruído antes de atingir as PBPs
                                      Ele inibe irreversivelmente a beta-lactamase — protege a
Aqui o clavulanato funciona!
                                      amoxicilina da destruição enzimática
Solução clínica                       Amoxicilina-clavulanato VO ou Ampicilina-sulbactam EV

2.4 Resumo Comparativo dos Mecanismos de Resistência

Bactéria                 Mecanismo                       Consequência                  Solução
                                                                                       Aumentar dose de
S. pneumoniae            PBP com sítio alterado          Baixa afinidade ao
                                                                                       amoxicilina (90
resistente               (genes mosaic)                  betalactâmico
                                                                                       mg/kg/dia)
                                                         Nenhum
MRSA (S.                 PBP2a codificada pelo                                         Vancomicina /
                                                         betalactâmico
aureus)                  gene mecA                                                     Linezolida
                                                         funciona
H. influenzae            Produção de beta-               Hidrolisa o anel              Clavulanato inibe a
resistente               lactamase (TEM-1)               betalactâmico                 enzima
                         Beta-lactamases de
Klebsiella ESBL /                                        Resistência a                 Carbapenêmicos /
                         espectro amplo ou
KPC                                                      múltiplas classes             Polimixinas
                         carbapenemases

3. Agentes Etiológicos Por Faixa Etária

Faixa etária               Principais agentes                                Tratamento de 1ª escolha
Recém-nascido (<           S. agalactiae, bacilos gram-
                                                                             Ampicilina + Gentamicina EV
1 mês)                     negativos, Listeria
                           Chlamydia trachomatis, vírus, S.                  Azitromicina (afebril) /
1 – 3 meses
                           pneumoniae                                        Ampicilina EV (febril)
                           S. pneumoniae (principal), vírus
3 meses – 5 anos                                                             Amoxicilina VO
                           respiratórios
Faixa etária               Principais agentes                                Tratamento de 1ª escolha
                           S. pneumoniae, Mycoplasma,                        Amoxicilina ± Azitromicina
Escolar > 5 anos
                           Chlamydophila pneumoniae                          VO

4. Características Dos Principais Agentes

4.1 Streptococcus pneumoniae

O agente mais comum em todas as faixas etárias pediátricas.

Parâmetro                           Característica
Início                              Agudo, abrupto
Febre                               Alta, contínua
Tosse                               Produtiva, expectoração purulenta ou enferrujada
Ausculta                            Crepitações localizadas, sopro tubário
Radiografia                         Consolidação lobar ou segmentar com broncograma aéreo
Laboratorial                        Leucocitose com neutrofilia, PCR elevado
Complicações                        Derrame parapneumônico, bacteremia, meningite
                                    Amoxicilina VO (1ª escolha) / Penicilina ou Ampicilina EV se
                                    internado

4.2 Mycoplasma pneumoniae

Principal agente atípico. Predomina em maiores de 5 anos.

Parâmetro                           Característica
Início                              Insidioso, gradual (dias a semanas)
Febre                               Baixa a moderada
Tosse                               Seca, persistente, irritativa — sinal predominante
                                    Discretamente alterada ou NORMAL — dissociação clínico-
Ausculta
                                    radiológica
Radiografia                         Infiltrado intersticial difuso, peribronquial bilateral
Laboratorial                        Leucócitos normais, crioaglutininas positivas
Manifest. extrapulmonares           Exantema, miringite bolhosa, anemia hemolítica, encefalite
Tratamento                          Macrolídeo (Azitromicina)

4.3 Chlamydia trachomatis

Lactentes entre 1–3 meses. Transmissão pelo canal do parto.

Parâmetro                           Característica
Início                              Insidioso, AFEBRIL
Tosse                               Em salvas, espasmódica — 'staccato cough' (característica)
Ausculta                            Crepitações difusas
Radiografia                         Hiperinsuflação + infiltrado intersticial difuso
Achado associado                    Conjuntivite neonatal prévia (50% dos casos)
Laboratorial                        Eosinofilia periférica característica
Tratamento                          Azitromicina

4.4 Staphylococcus aureus

⚠ ATENÇÃO: A presença de PNEUMATOCELE é altamente sugestiva de S.

aureus — tratar como tal até prova contrária.

Parâmetro                           Característica
Início                              Rápido, hiperagudo — evolução em horas
Febre                               Alta, toxemia importante — aspecto SÉPTICO

Radiografia Pneumatocele ⭐, abscesso, empiema, pneumonia necrosante

Leucocitose importante OU leucopenia (mau prognóstico), PCR Laboratorial muito elevado

Fatores associados                  Pós-influenza, infecção cutânea concomitante, lactente jovem
Complicações                        Empiema, pneumotórax, sepse grave
Tratamento (MSSA)                   Oxacilina EV
Tratamento (MRSA)                   Vancomicina EV
Adjuvante (toxinas)                 Clindamicina EV — bloqueia produção de PVL e TSST-1

4.5 Haemophilus influenzae

Relevante em lactentes não vacinados. Produz beta-lactamase em muitas cepas.

Parâmetro                           Característica
Início                              Subagudo
Parâmetro                           Característica
Radiografia                         Consolidação segmentar, pode haver derrame
Observação                          Cepas tipo b drasticamente reduzidas pela vacinação Hib
Tratamento                          Amoxicilina-clavulanato ou Ceftriaxona EV

4.6 Vírus Respiratórios

Principais agentes em menores de 2 anos. Antibiótico NÃO é indicado na infecção viral pura.

Vírus                      Características
VSR                        Lactente, bronquiolite + pneumonia, sibilância, sazonal
                           Todas as idades, início abrupto — RISCO de sobreinfecção
Influenza
                           bacteriana grave
Adenovírus                 Formas graves, bronquiolite obliterante, pode mimetizar bacteriana
Parainfluenza              Lactente, frequentemente associado a crupe

5. Radiografia De Tórax — Padrões E

AGENTES O padrão radiológico, combinado com a clínica, faixa etária e epidemiologia, orienta a terapia empírica.

5.1 As 4 Fases da Pneumonia Bacteriana

A pneumonia lobar clássica (especialmente por S. pneumoniae) segue uma sequência anatomopatológica previsível:

Fase                       Período             Anatomopatologia                   Achado no Rx
                                               Vasodilatação, edema               Normal ou quase normal.
1 — Congestão              1º – 2º dia         alveolar inicial, exsudato         Leve aumento da trama
                                               seroso                             vascular
                                               Alvéolos repletos de               Consolidação densa,
2 — Hepatização                                hemácias, neutrófilos,             homogênea.
                           2º – 4º dia
Vermelha                                       fibrina. Consolidação              Broncograma aéreo
                                               maciça                             evidente. Rx PIORA
                                               Hemácias lisadas,                  Opacidade persiste.
3 — Hepatização                                predomínio de                      Início de
                           4º – 8º dia
Cinzenta                                       macrófagos, início da              heterogeneidade.
                                               digestão do exsudato               Possível derrame
Fase                       Período             Anatomopatologia                   Achado no Rx
                                                                                  Clareamento lento e
                                               Reabsorção progressiva,            heterogêneo. Pode levar
4 — Resolução              8º – 21º dia
                                               reaeração alveolar                 4–6 semanas para
                                                                                  normalizar
Atenção

O Rx piora nos primeiros dias mesmo com o paciente melhorando clinicamente. NÃO confundir piora radiológica com falha terapêutica!

5.2 Pneumonia × Atelectasia — O Erro Mais Comum

CONCEITO FUNDAMENTAL: Um infiltrado que desaparece no controle em torno do 3º dia de internação NÃO É PNEUMONIA — é ATELECTASIA. A pneumonia tem cinética lenta e o Rx leva semanas para normalizar.

Característica                      Pneumonia                               Atelectasia
                                    Piora nos primeiros dias →              Melhora ou desaparece em
Evolução do Rx
                                    melhora lenta (semanas)                 24–72h
                                    Sem impacto imediato na                 Melhora clara após fisio,
Resposta à fisioterapia
                                    opacidade                               mudança de decúbito, choro
                                    Presente (alvéolos cheios,              Ausente (brônquio obstruído
Broncograma aéreo
                                    brônquios pérvios)                      junto com alvéolo)
                                    Mantido ou aumentado                    Reduzido — retração do
Volume pulmonar
                                    (exsudato ocupa espaço)                 parênquima
                                    Contralateral (grandes                  Ipsilateral (atração pelo
Desvio do mediastino
                                    pneumonias)                             colapso)
Elevação do diafragma               Ausente                                 Ipsilateral ao lobo acometido
                                    Alta, persistente, leucocitose
Febre / Leucocitose                                                         Mínima ou ausente
                                    significativa
                                                                            Normais ou discretamente
PCR / Procalcitonina                Elevados
                                                                            alterados
                                    Melhora clínica em 48–72h;              ATB não resolve —
Resposta ao ATB
                                    Rx demora                               fisioterapia resolve

Localizações que mais enganam:

5.3 Padrões Radiológicos × Agente × Antibiótico

Padrão Radiológico                      Agente Sugerido                 Antibiótico orientado
Consolidação lobar com
                                        S. pneumoniae                   Amoxicilina VO / Ampicilina EV
broncograma aéreo
Lobo pesado + arqueamento               Klebsiella pneumoniae           Ceftriaxona ou Cefepime EV ±
da cisura (bulging fissure)             ⭐                               aminoglicosídeo
Infiltrado intersticial bilateral       Mycoplasma / Vírus /
                                                                        Macrolídeo / Suporte (viral)
peribronquial                           Chlamydia
Hiperinsuflação + infiltrado
                                        C. trachomatis / VSR            Azitromicina / Suporte
intersticial
Pneumatocele (única ou                                                  Oxacilina ou Vancomicina +
                                        S. aureus ⭐
múltipla)                                                               Clindamicina EV
Abscesso com nível                                                      Oxacilina/Vanco + Clinda ou
                                        S. aureus / Anaeróbios
hidroaéreo                                                              Amox-Clav EV
Derrame pleural de evolução             S. aureus / S.                  Oxacilina ou Vanco / Ampicilina
rápida                                  pneumoniae                      EV + drenagem
Necrose multifocal ('queijo             S. aureus MRSA /
                                                                        Vancomicina + Clindamicina EV
suíço')                                 Klebsiella
Padrão miliar (micronódulos             M. tuberculosis /               Esquema RHZE / Antifúngico —
difusos)                                Fungos                          NÃO betalactâmico

5.4 O Sinal do Lobo Pesado (Bulging Fissure) — Klebsiella

Descrição: A consolidação é tão densa e volumosa que empurra a cisura interlobar para o lado oposto ao esperado — o lobo parece expandido em vez de retraído.

Cápsula polissacarídica espessa → edema inflamatório exuberante → grande exsudato → expansão lobar

Localização típica                  Lobo superior direito — cisura menor desviada para baixo
                                    Rápida, frequentemente associada a necrose e abscesso
Evolução
                                    precoce
                                    Recém-nascidos, lactentes graves, imunodeficientes,
Contexto pediátrico
                                    desnutridos
Expectoração                        'Geleia de groselha' — raramente observada em crianças

Ceftriaxona ou Cefepime EV; quadros graves: + Antibiótico aminoglicosídeo ou carbapenem

Atenção hospitalar Considerar KPC em infecção nosocomial

6. Classificação Da Gravidade

6.1 Critérios da OMS

Classificação                       Critérios
Pneumonia leve                      Taquipneia sem sinais de gravidade
Pneumonia grave                     Tiragem subcostal + taquipneia
                                    Cianose, recusa alimentar, convulsão, letargia, estridor em
Pneumonia muito grave
                                    repouso

Limites de taquipneia por faixa etária (OMS):

Faixa etária                                              FR (irpm)
< 2 meses                                                 ≥ 60
2–11 meses                                                ≥ 50
1–5 anos                                                  ≥ 40
> 5 anos                                                  ≥ 30

6.2 Critérios de Internação Hospitalar (SBP)

Indicar internação na presença de QUALQUER um dos critérios abaixo:

SpO₂ < 92% em ar ambiente é o sinal isolado de maior peso na decisão de internar.

6.3 Critérios de UTI Pediátrica

7. Gravidade Como Determinante Da

ANTIBIOTICOTERAPIA

7.1 Pneumonia Leve — Ambulatorial

Parâmetro                           Descrição
Perfil                              Taquipneia leve, SpO₂ ≥ 95%, boa aceitação oral, sem toxemia
Raciocínio                          S. pneumoniae provável; cobertura estreita oral suficiente
3m – 5 anos                         Amoxicilina VO 40–50 mg/kg/dia
≥ 5 anos                            Amoxicilina VO ± Azitromicina (suspeita de atípico)
Suspeita de atípico                 Azitromicina VO 10 mg/kg/dia 1×/dia por 5 dias
Duração                             5–7 dias

7.2 Pneumonia Moderada — Internação em Enfermaria

Parâmetro                           Descrição
                                    SpO₂ 92–95%, tiragem subcostal, taquipneia importante,
Perfil
                                    recusa alimentar
1ª escolha                          Ampicilina EV
Suspeita de atípico                 Ampicilina EV + Azitromicina VO
Suspeita de H. influenzae           Ampicilina-sulbactam EV ou Ceftriaxona EV
Alergia à penicilina                Ceftriaxona EV
Transição para VO                   Após 48–72h com melhora clínica → Amoxicilina VO
Duração total                       7–10 dias

7.3 Pneumonia Grave — UTI Pediátrica

Parâmetro                           Descrição
Grave sem foco definido             Ampicilina + Ceftriaxona EV
Suspeita de S. aureus
                                    Oxacilina EV ± Ceftriaxona
MSSA
Suspeita de MRSA                    Vancomicina EV ± Ceftriaxona
Pneumonia necrosante                Vancomicina + Clindamicina EV
Pós-influenza grave                 Oseltamivir + Oxacilina ou Vancomicina EV
                                    Cefepime ou Piperacilina-tazobactam (cobertura anti-
Imunocomprometido
                                    Pseudomonas)
Duração S. aureus                   14–21 dias
Duração necrose /
                                    21–28 dias ou mais
empiema

8. Amoxicilina-Clavulanato — Quando

INDICAR A amoxicilina-clavulanato NÃO é primeira escolha na pneumonia comunitária típica. O clavulanato não acrescenta benefício contra S. pneumoniae, cuja resistência é mediada por alteração de PBP (não por beta-lactamase).

Indicação                                   Justificativa
Suspeita de H. influenzae ou M.             Produtores de beta-lactamase — clavulanato amplia
catarrhalis                                 cobertura
                                            Cobertura de anaeróbios orais (disfagia, RGE grave,
Pneumonia aspirativa
                                            neurológico)
Pneumonia com otite/sinusite
                                            H. influenzae tem papel relevante nesses focos
associada
                                            Risco aumentado de H. influenzae produtor de beta-
Pós-influenza (ambulatorial)
                                            lactamase
Falha à amoxicilina em 48–72h               Antes de escalar para cefalosporinas ou internação
Comorbidades (ambulatorial)                 Cardiopatia, pneumopatia, imunodeficiência leve

Dose: 40–50 mg/kg/dia do componente amoxicilina. Preferir formulação 14:1 para reduzir efeitos gastrointestinais.

9. Esquema Tríplice — Ceftriaxona +

MACROLÍDEO + VANCOMICINA

Antibiótico                         Cobertura
                                    S. pneumoniae, H. influenzae, gram-negativos — boa
Ceftriaxona
                                    penetração pulmonar
                                    Agentes atípicos (Mycoplasma, Chlamydophila) + efeito anti-
Macrolídeo (Azitromicina)
                                    inflamatório
Vancomicina                         S. aureus MRSA, S. pneumoniae altamente resistente

Indicações:

Indicação                                   Justificativa
Pneumonia grave em UTI com
                                            Cobre todo o espectro enquanto aguarda culturas
agente indeterminado
Pneumonia grave pós-influenza               Risco simultâneo de MRSA, pneumococo e atípico
Falha terapêutica a esquemas
                                            Suspeita de agente resistente ou atípico não coberto
anteriores
Pneumonia necrosante /                      Alta suspeita de S. aureus + possibilidade de
empiema grave                               polimicrobiana
Imunocomprometido grave                     Espectro imprevisível — cobertura máxima justificada

NUNCA manter a tríplice sem justificativa clara. Reavaliar em 48–72h e descalonar assim que possível com base em culturas e evolução clínica.

10. S. Aureus Grave — Clindamicina E

BLOQUEIO DE TOXINAS

10.1 Toxinas do S. aureus

Toxina                                Efeito clínico
PVL (Leucocidina de                   Destruição de leucócitos, necrose tecidual, pneumonia
Panton-Valentine)                     necrosante
                                      Superantígeno — ativação policlonal de linfócitos, choque
TSST-1
                                      tóxico
Exfoliatinas                          Destruição de tecidos, formação de bolhas
α-toxina                              Lise celular direta

Matar a bactéria não é suficiente — as toxinas já produzidas continuam causando dano. O objetivo é bloquear a produção o mais rápido possível.

10.2 Clindamicina vs. Linezolida

Característica                      Clindamicina                            Linezolida
Mecanismo                           Inibição 50S                            Inibição 50S
Bloqueio de PVL                     Sim                                     Sim (possivelmente superior)
Bloqueio de TSST-1                  Sim                                     Sim
Atividade bactericida
                                    Não                                     Sim
MRSA
Penetração pulmonar                 Boa                                     Excelente
Custo                               Menor                                   Maior

Atenção: Verificar resistência induzível (teste D / D-zone test) no antibiograma. Se positivo, usar Linezolida.

10.3 Esquema na Pneumonia Necrosante por S. aureus

Fármaco                       Papel                                       Dose orientativa
                                                                          15 mg/kg/dose 6/6h (monitorar
Vancomicina EV                Cobertura bactericida MRSA
                                                                          AUC/MIC)
                              Bloqueio de toxinas (PVL, TSST-
Clindamicina EV                                                           10–13 mg/kg/dose 8/8h
                              1)
Ceftriaxona EV                Gram-negativos e pneumococo                 100 mg/kg/dia 1×/dia ou 12/12h
Azitromicina VO               Atípicos + efeito anti-inflamatório         10 mg/kg/dia 1×/dia

Se MSSA identificado: descalonar Vancomicina → Oxacilina. Se falha à Vancomicina: considerar Linezolida (bactericida + bloqueia toxinas simultaneamente).

11. Princípios Gerais E Duração Do

TRATAMENTO

Princípio                             Aplicação prática
                                      Quanto mais grave, maior cobertura — evitar carbapenem
Escalonamento proporcional
                                      sem indicação clara
Princípio                             Aplicação prática
                                      Iniciar ATB antes do resultado de culturas — cada hora de
Tempo é crítico nos graves
                                      atraso piora o prognóstico
                                      Ao identificar o agente e com melhora clínica, estreitar o
Descalonamento precoce
                                      espectro imediatamente
                                      Melhora → manter/descalonar | Sem resposta → investigar
Reavaliação em 48–72h
                                      complicações | Piora → escalonar
                                      Vancomicina → função renal e nível sérico (AUC/MIC ≥ 400)
Monitorar toxicidade
                                      | Macrolídeo → QTc prolongado
Situação                                    Duração estimada
Pneumonia leve (ambulatorial)               5–7 dias
Pneumonia moderada
                                            7–10 dias
(internada)
Pneumonia grave / S. aureus
                                            14–21 dias
MSSA
Empiema / Pneumonia
                                            21–28 dias ou mais
necrosante

12. Quando Pensar Em Outros Agentes

Situações clínicas específicas devem alertar para patógenos incomuns ou oportunistas, especialmente na ausência de resposta ao tratamento convencional.

12.1 Pneumocystis jirovecii (PCP)

HIV+, CD4 baixo, transplantados, uso crônico de corticoide, quimioterapia, lactente hipoxêmico desproporcional Início insidioso, tosse seca progressiva, febre baixa, hipoxemia Clínica grave desproporcional ao exame físico Infiltrado intersticial difuso bilateral em 'asa de borboleta' ou Rx / TC vidro fosco difuso na TC LDH sérico muito elevado — marcador sensível; hipoxemia Laboratorial grave

Tratamento                          SMX-TMP em altas doses EV — droga de escolha
Adjuvante                           Corticoide se PaO₂ < 70 mmHg
Profilaxia                          SMX-TMP em crianças HIV+ com CD4 baixo

12.2 Legionella pneumophila

Escolar/adolescente, exposição a ar condicionado, spas, hotéis, fontes ornamentais

Tríade clássica                     Pneumonia + confusão mental + hiponatremia
                                    Diarreia, dor abdominal, cefaleia, febre alta — falha ao
Clínica associada
                                    betalactâmico
Rx                                  Consolidação lobar ou infiltrado difuso de progressão rápida
                                    Hiponatremia, elevação de transaminases, LDH alto, hematúria
Laboratorial
                                    microscópica
Diagnóstico                         Antigenúria urinária para Legionella sorotipo 1
                                    Azitromicina EV/VO — 1ª escolha; Levofloxacino nos graves (>
                                    18 anos)
Atenção                             Betalactâmicos são INEFICAZES — Legionella é intracelular

12.3 Fungos — Histoplasma, Paracoccidioides, Cryptococcus

Área endêmica, imunocomprometido, síndrome constitucional, sem resposta a ATB convencionais Histoplasmose: Vale do Rio Doce/MG; Paracoccidioidomicose:

Endemia no Brasil Sudeste e Sul Febre prolongada, perda de peso, sudorese noturna, Clínica adenomegalia mediastinal Padrão miliar, infiltrado intersticial difuso persistente, Rx adenomegalia hilar

Histoplasmose leve                  Itraconazol
Histoplasmose grave                 Anfotericina B → Itraconazol (stepdown)
Paracoccidioidomicose               Itraconazol, SMX-TMP ou Anfotericina B
Cryptococcus                        Anfotericina B + 5-flucitosina

12.4 Mycobacterium tuberculosis

Contato com bacilífero, febre > 2 semanas, tosse crônica, perda de peso, sudorese noturna

Imigrantes, área de alta prevalência, HIV+, desnutridos, Grupos de risco contatos domiciliares de adulto com tosse Adenomegalia hilar ou paratraqueal, padrão miliar, derrame Rx sugestivo pleural unilateral, cavitação PPD / IGRA, lavado gástrico ou broncoscopia para baciloscopia Diagnóstico e cultura Criança com pneumonia não responsiva + adenomegalia hilar Alerta clínico no Rx → TB até prova contrária

Tratamento Esquema RHZE por 2 meses + RH por 4 meses

12.5 Anaeróbios

Pneumonia aspirativa — disfagia, distúrbio neurológico, epilepsia, RGE grave, higiene oral precária Segmentos posteriores dos lobos superiores e segmentos Localização típica superiores dos lobos inferiores (posição supina) Odor fétido do escarro ou secreção; abscesso de evolução Pista clínica arrastada

Tratamento leve                     Amoxicilina-clavulanato VO
Tratamento internado                Ampicilina-sulbactam EV
                                    Clindamicina EV — especialmente em abscessos; Metronidazol
Alternativa
                                    nos casos graves

12.6 Pseudomonas aeruginosa

Fibrose cística, imunocomprometido grave, neutropenia febril,

Quando pensar                       VM prolongada, bronquiectasias, ATB prévio de amplo
                                    espectro
Clínica                             Pneumonia grave em UTI sem resposta a esquemas habituais
Tratamento                          Cefepime ou Piperacilina-tazobactam EV
Casos graves                        Carbapenem (imipenem ou meropenem) ± aminoglicosídeo
Via oral                            Ciprofloxacino VO — avaliar faixa etária e resistência local

12.7 Citomegalovírus (CMV)

Receptor de transplante, HIV com CD4 muito baixo, lactente com pneumonite intersticial, síndrome TORCH Pneumonite intersticial de evolução subaguda, hipoxemia Clínica progressiva Ganciclovir EV (fase aguda) → Valganciclovir VO (manutenção)

12.8 Nocardia

Imunocomprometido em uso de corticoide em altas doses, pneumonia cavitária sem resposta a ATB convencionais Pode disseminar para SNC e pele — lesões cutâneas + Alerta pneumonia devem levantar suspeita SMX-TMP — droga de escolha; Imipenem + amicacina nos casos graves

12.9 Resumo — Contexto Clínico e Agente a Considerar

Contexto clínico                                 Pensar em
HIV+ / CD4 baixo                                 P. jirovecii, CMV, M. tuberculosis
Transplantado / imunossuprimido                  P. jirovecii, CMV, Aspergillus, Nocardia
Fibrose cística                                  Pseudomonas, S. aureus, Burkholderia cepacia
Aspiração / distúrbio neurológico                Anaeróbios
Exposição a ar condicionado / hotel /
                                                 Legionella
spa
Área endêmica + febre prolongada                 Histoplasma, Paracoccidioides
Contato com bacilífero                           M. tuberculosis
Neutropenia febril                               Pseudomonas, Aspergillus, gram-negativos
Sem resposta a betalactâmico                     Mycoplasma, Legionella, TB, fungos
Padrão miliar no Rx                              TB, histoplasmose, disseminação fúngica
Lactente hipoxêmico desproporcional
                                                 P. jirovecii
ao Rx
Adenomegalia hilar + pneumonia não
                                                 M. tuberculosis
responsiva

13. Resumo — Fluxo Prático

Situação clínica                                    Antibiótico(s) de escolha
Ambulatorial 3m–5a (leve)                           Amoxicilina VO
Ambulatorial > 5a com suspeita de
                                                    Amoxicilina + Azitromicina VO
atípico
Internado (moderado)                                Ampicilina EV → transição VO em 48–72h
Internado com suspeita H. influenzae                Amoxicilina-clavulanato ou Ceftriaxona EV
                                                    Amoxicilina-clavulanato VO ou Ampicilina-
Aspiração / anaeróbios
                                                    sulbactam EV
UTI sem agente definido                             Ampicilina + Ceftriaxona EV
UTI suspeita MSSA                                   Oxacilina EV
UTI suspeita MRSA                                   Vancomicina EV
Pneumonia necrosante / tóxico                       Vancomicina + Clindamicina EV ± Ceftriaxona
Cobertura máxima empírica UTI                       Ceftriaxona + Vancomicina + Azitromicina
Lactente 1–3m afebril (C. trachomatis)              Azitromicina VO
Pós-influenza grave                                 Oseltamivir + Oxacilina ou Vancomicina EV
Klebsiella (bulging fissure)                        Ceftriaxona ou Cefepime EV ± aminoglicosídeo
Imunocomprometido                                   Cefepime ou Pip-Tazo ± Vancomicina
                                                    SMX-TMP EV em altas doses + Corticoide se
P. jirovecii (HIV / transplante)
                                                    PaO₂ < 70
Legionella                                          Azitromicina EV — betalactâmico é ineficaz
Anaeróbios (aspiração)                              Amox-Clav VO ou Ampicilina-sulbactam EV
TB                                                  Esquema RHZE — não iniciar betalactâmico
Pseudomonas (FC / neutropenia)                      Cefepime ou Piperacilina-tazobactam EV

14. Referências Bibliográficas

Diretrizes e Sociedades Científicas

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Este documento tem fins exclusivamente educacionais. A conduta final deve considerar o quadro individual do paciente, os recursos disponíveis e as diretrizes atualizadas da SBP e IDSA.