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Como Conduzir uma Criança com Febre

Guia de revisão baseado em evidências para residentes e pediatras

Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.

1. Importância Do Tema

1.1 Epidemiologia e Relevância Clínica

A febre é o sintoma mais frequente que leva crianças a consultas médicas de urgência e emergência em todo o mundo. Representa, isoladamente, 20–30% de todas as consultas pediátricas de pronto-atendimento e é responsável por grande parte das prescrições de antibióticos em pediatria — muitas vezes desnecessárias. No Brasil, estima-se que cerca de 10 milhões de atendimentos pediátricos anuais tenham a febre como queixa principal. Na grande maioria dos casos (85–90%), a febre em crianças tem etiologia viral e evolução benigna e autolimitada. Entretanto, em uma fração clinicamente significativa — especialmente em lactentes jovens — pode representar o único sinal de uma Infecção Bacteriana Grave (IBG), como bacteremia, infecção do trato urinário (ITU), pneumonia, meningite, artrite séptica ou osteomielite. A identificação precisa desses casos é o desafio central do manejo da febre na infância.

A conduta inadequada — tanto o subtratamento (não reconhecimento de IBG) quanto o supertratamento (uso indiscriminado de antibióticos, exames desnecessários, internações evitáveis) — traz consequências significativas: aumento da morbimortalidade, resistência bacteriana, iatrogenias e aumento do custo em saúde.

1.2 Por Que o Manejo da Febre é um Tema Crítico

Evidência-Chave

A temperatura per se não determina a gravidade — o ASPECTO CLÍNICO da criança é o principal preditor de IBG em todas as faixas etárias. Uma criança de 2 anos com febre de 40 °C e aspecto ótimo tem muito menor risco do que uma criança de 38,5 °C com aspecto tóxico. A escala semáforo do NICE (2021) e o escore Step-by- Step (Mintegi, JAMA Pediatrics 2021) demonstraram isso em grandes coortes internacionais.

2. Avaliação Inicial Sistematizada

2.1 Definição de Febre — Como Medir Corretamente

A febre é definida como temperatura corporal acima do limiar fisiológico normal, determinado pelo setpoint hipotalâmico elevado por ação de pirógenos endógenos (IL-1β, IL-6, TNF-α, PGE₂). É importante distinguir febre de hipertermia: na febre, o setpoint está elevado e os mecanismos de termorregulação estão preservados; na hipertermia, o setpoint é normal, mas a produção ou dissipação de calor está comprometida (ex.: golpe de calor).

                      🟢 Verde — baixo              🟡 Âmbar — risco
   Domínio                                                                      🔴 Vermelho — alto risco
                             risco                    intermediário
Cor / perfusão      Cor normal;                Palidez referida;               Pálido/marmóreo/cianótico
                    extremidades quentes       extremidades frias
Atividade           Sorriso; alerta; choro     Não sorri; diminuição da        Não acorda ou não se
                    normal; responde aos       atividade; choro anormal        mantém acordado; choro
                    pais                                                       agudo persistente
Respiração          Normal                     FR > 50 irpm (< 12m); > 40      Gemido; grunhido; SpO₂ <
                                               irpm (≥ 12m); SpO₂ > 95%        95%; uso de musculatura
                                                                               acessória
Hidratação          Pele/olhos normais;        Mucosas secas; olhos            TEC > 4 seg; pele em
                    mucosas úmidas             fundos; TEC 3–4 seg             prega; olhos muito fundos
Outros              Sem foco de risco          Febre ≥ 5 dias; tumefação       Petéquias/púrpura não
                                               articular; rigidez de nuca;     blanqueáveis; convulsão;
                                               fontanela abaulada              rigidez de nuca;
                                                                               meningismo

2.2 Métodos de Aferição e Limiares

     Local de aferição                 Limiar de febre                        Observações
Retal (padrão-ouro)                ≥ 38,0 °C                    Mais fidedigno; recomendado < 3 meses
                                                                Aceito acima de 3 meses; variação de até
Axilar                             ≥ 37,5 °C
                                                                1 °C
                                                                Somente ≥ 5 anos; não usar após bebida
Oral (sublingual)                  ≥ 37,8 °C
                                                                quente/fria
                                                                Alta variabilidade; menos confiável < 2
Timpânica (infravermelho)          ≥ 38,0 °C
                                                                anos
                                                                Boa correlação em ≥ 3 meses; evitar se
Temporal (infravermelho)           ≥ 38,0 °C
                                                                sudorese
                                                                NÃO usar para diagnóstico; apenas
Tátil (mão da mãe/pai)             —
                                                                triagem grosseira
Importante

Não confiar em aferição tátil (mão da mãe/pai) para diagnóstico clínico de febre — sensibilidade de apenas 73%, especificidade de 83% (Banco de dados WHO). Para crianças < 3 meses, sempre usar termômetro retal. Para maiores de 3 meses, axilar

é aceitável no consultório. Jamais estimar a temperatura pela coloração da pele ou comportamento da criança.

2.3 Anamnese Dirigida para Criança com Febre

Caracterização da Febre

Sintomas Associados — Busca Ativa de Foco

História Clínica Relevante

2.4 Exame Físico Dirigido — O que Não Pode Faltar

Sinais Vitais Completos

Aspecto Geral — O Parâmetro Mais Importante

Exame Segmentar Completo — Busca de Foco

3. Fisiopatologia Aplicada À Febre

3.1 Mecanismo da Febre — Da Infecção ao Setpoint

A febre é uma resposta adaptativa evolutivamente conservada, mediada pelo sistema imune inato. O processo inicia-se com o reconhecimento de padrões moleculares associados a patógenos (PAMPs — ex.: LPS bacteriano, RNA viral) pelos receptores Toll-like (TLRs) de macrófagos, monócitos e células dendríticas. Esse reconhecimento ativa cascatas inflamatórias que culminam na produção de pirógenos endógenos.

Cascata Pirôgenica

3.2 Funções Fisiológicas da Febre

A febre não é apenas um sinal de doença — tem funções imunomoduladoras importantes que justificam a cautela no tratamento indiscriminado:

Isso explica por que tratar a febre NÃO acelera a cura — e pode, em algumas situações (dengue, varicela), prolongar a viremia. O tratamento antitérmico tem indicação primária de CONFORTO, não de eliminação do sinal.

3.3 Correlação Clínica — Fisiopatologia da Resposta Séptica

Quando a resposta inflamatória é excessiva (infecção bacteriana grave, síndrome de resposta inflamatória sistêmica — SRIS), a liberação maciça de citocinas (IL-6, TNF-α) produz efeitos deletérios: vasodilatação periférica, aumento da permeabilidade vascular, disfunção miocárdica e ativação da cascata da coagulação (CIVD). A evolução para choque séptico pode ocorrer em horas.

FISIOPATOLOGIA DA MENINGOCOCCEMIA: A evolução fulminante da doença meningocócica resulta da ativação massiva da cascata do complemento pelo LPS de

Neisseria meningitidis, com liberação de TNF-α em pico. As petéquias/púrpura representam microtrombos de CIVD — podem surgir e progredir em minutos. Qualquer petéquia não branqueável em criança com febre é EMERGÊNCIA MÉDICA independentemente do estado geral aparente.

3.4 Implicações no Manejo

4. Diagnóstico — Avaliação De Risco E Foco

4.1 Estratificação de Risco por Faixa Etária

Faixa etária         Risco de IBS             Internação                 Conduta recomendada
< 28 dias          MUITO ALTO (>          SEMPRE                  Hemograma + Hemocultura +
                   10%)                                           urinocultura + LCR + PCR + PCT + Rx
                                                                  de tórax + ATB empírico imediato
                                                                  (Ampicilina + Gentamicina)
28–90 dias         ALTO (5–10%)           Individualizar          Exames de risco (EAS + hemograma +
                                          (critérios              PCR + PCT): baixo risco →
                                          Rochester/Step-by-      ambulatorial; alto risco → internação +
                                          Step)                   completar investigação + ATB
                   MODERADO (2–           Se aspecto tóxico       Exames + tratamento conforme clínica e
3–36 meses
                   5%)                    ou foco grave           resultado dos exames
                                                                  Exame clínico orienta conduta; exames
                                          Se critérios de
> 36 meses         BAIXO (< 1%)                                   seletivos; antitérmico se febre com
                                          gravidade
                                                                  desconforto

4.2 Critérios de Rochester — Baixo Risco em 28–90 dias

Os Critérios de Rochester (Jaskiewicz et al., 1994, revisados por AAP/SBP) identificam lactentes de baixo risco para IBG entre 28 e 90 dias. Todos os critérios devem estar presentes simultaneamente para classificar como baixo risco:

        Domínio                       Critério de baixo risco (TODOS devem estar presentes)
Aspecto clínico              Bom estado geral; não tóxico; sem sinais de infecção bacteriana focal
                             A termo (≥ 37 sem); sem antibiótico prévio; sem hiperbilirrubinemia
História
                             tratada; sem doenças crónicas; sem internação prévia
Hemograma                    Leucócitos entre 5.000 e 15.000/mm³; bastonetes ≤ 1.500/mm³
                             Leucocitúria < 10 leucócitos/campo em amostra centrifugada; nitrito
Urina
                             negativo
Fezes (se diarreia)          Leucócitos fecais < 5/campo
                             Baixo risco Rochester: pode considerar manejo ambulatorial com retorno
Interpretação
                             em 24 h (SBP/AAP)

4.3 Score Step-by-Step (Mintegi, 2021) — Abordagem Sequencial

O protocolo Step-by-Step, validado em coortes europeias e americanas (PECARN), estratifica o risco de IBG em lactentes de 1–90 dias de forma sequencial. É o protocolo recomendado pelo NICE NG143 (2021) e pela SBP para lactentes de 28–90 dias:

Atenção

O Step-by-Step tem sensibilidade de 92% e especificidade de 46% para IBG em lactentes < 3 meses (Mintegi et al., JAMA Pediatrics, 2021). O baixo risco NÃO é zero risco — retorno em 24h é obrigatório. A PCT é o biomarcador de maior acurácia nas primeiras 6–12 horas de febre, superando o hemograma e a PCR nessa janela temporal.

4.4 Sistema Semáforo NICE (NG143, 2021) — Para Todas as Idades

O sistema semáforo do NICE classifica a criança febril em três categorias de risco com base em sinais e sintomas clínicos, independentemente da temperatura. Qualquer característica VERMELHA = encaminhamento imediato à emergência. Qualquer característica ÂMBAR = avaliação clínica adicional e acompanhamento.

                      🟢 Verde — baixo              🟡 Âmbar — risco                🔴 Vermelho — alto
   Domínio
                             risco              intermediário/urgência             risco/emergência
Cor / perfusão      Cor normal;                Palidez referida;               Pálido/marmóreo/cianótico
                    extremidades quentes       extremidades frias
Atividade           Sorriso; alerta; choro     Não sorri; diminuição da        Não acorda ou não se
                    normal; responde aos       atividade; choro anormal        mantém acordado; choro
                    pais                                                       agudo persistente
Respiração          Normal                     FR > 50 irpm (< 12m); > 40      Gemido; grunhido; SpO₂ <
                                               irpm (≥ 12m); SpO₂ > 95%        95%; uso de musculatura
                                                                               acessória
Hidratação          Pele/olhos normais;        Mucosas secas; olhos            TEC > 4 seg; pele em
                    mucosas úmidas             fundos; TEC 3–4 seg             prega; olhos muito fundos
Outros              Sem foco de risco          Febre ≥ 5 dias; tumefação       Petéquias/púrpura não
                                               articular; rigidez de nuca;     blanqueáveis; convulsão;
                                               fontanela abaulada              rigidez de nuca;
                                                                               meningismo

4.5 Exames Essenciais por Situação Clínica

         Exame                  Indicação principal                           Observações
Hemograma                  Febre sem foco 28–90 dias;           Leucócitos > 15.000 ou < 5.000 = alto
completo                   febre ≥ 39 °C 3–36 meses             risco de IBS
                           Febre ≥ 39 °C sem foco,
Urina rotina (EAS) +                                            Coleta por cateterismo ou punção (evitar
                           especialmente em meninas
urocultura                                                      saco coletor para cultura)
                           < 24m e meninos < 12m
                           < 90 dias com febre;
                                                                Coletar antes do ATB; mínimo 1 mL de
Hemocultura                aspecto tóxico em qualquer
                                                                sangue
                           idade
       Exame                  Indicação principal                           Observações
                         28–90 dias; febre
PCR (Proteína C-                                              PCR > 40 mg/L = alto risco; PCR < 20
                         prolongada; avaliação de
reativa)                                                      mg/L = baixo risco em lactentes
                         IBS
                         28–90 dias (Step-by-Step);           PCT > 0,5 ng/mL = alto risco; superior à
Procalcitonina (PCT)
                         febre ≥ 38 °C < 3 meses              PCR nas primeiras 6 horas
                         FR elevada; SpO₂ < 95%;              NÃO solicitar rotineiramente para febre
Rx de tórax
                         crepitação; febre > 5 dias           sem sintomas respiratórios
                         < 28 dias (sempre); < 90
Punção lombar +          dias com aspecto tóxico ou           Não retardar ATB para aguardar PL em
LCR                      exames alterados;                    meningite suspeita
                         meningismo
                         Edema articular; recusa em
Radiografia de ossos
                         usar o membro; dor                   Suspeita de artrite séptica ou osteomielite
/ articulação
                         localizada
                         ITU confirmada < 2 anos;
USG de vias urinárias                                         Realizada após estabilização clínica
                         ITU febril recorrente
                         Febre > 5 dias; suspeita de          DK: VHS > 40; ferritina > 500 = suspeita
VHS + ferritina
                         DK ou doença inflamatória            de MAS/linfohistiocitose
Sódio + glicemia +       Aspecto tóxico; choque               Lactato > 2 mmol/L = hipoperfusão; > 4 =
lactato + gasometria     séptico suspeito                     choque
Hemoculturas
                         Febre em imunodeprimido;             Painel respiratório viral; CMV; EBV;
específicas + PCR
                         suspeita de encefalite               enterovírus
viral

4.6 O que NÃO FAZER no Diagnóstico

Erros Críticos A Evitar

5. Conduta E Tratamento

5.1 Princípios Gerais do Manejo da Febre

O tratamento da febre pediátrica é guiado por dois objetivos distintos: (1) alívio do desconforto da criança com uso criterioso de antitérmicos; e (2) identificação e tratamento da causa subjacente quando indicado. Não existe valor de temperatura que por si só indique tratamento — a decisão deve ser baseada no desconforto clínico observado e não em limiares arbitrários.

5.2 Passo a Passo — Conduta por Faixa Etária

Passo                                                   Ação
1          Verificar a IDADE — é o primeiro determinante da conduta na criança com febre
2          Aferir temperatura com método adequado para a idade (retal < 3m; axilar ≥ 3m)
           Avaliar o ASPECTO CLÍNICO — aplique o semáforo NICE mentalmente: verde / âmbar /
3
           vermelho
           Se < 28 dias com febre → INTERNAÇÃO IMEDIATA + coleta de culturas + ATB empírico
4
           — não aguardar
           Se 28–90 dias → Step-by-Step: PCT + EAS + PCR + hemocultura → classificar risco →
5
           internar ou ambulatorial
           Se 3–36 meses, ≥ 39 °C sem foco → EAS + urocultura (cateterismo); tratar ITU se
6
           confirmada
           Buscar ativamente o FOCO CLÍNICO em todas as faixas etárias — OMA,
7
           faringoamigdalite, ITU, pneumonia
           Prescrever antitérmico se criança com desconforto: Paracetamol 10–15 mg/kg a cada 4–
8
           6h ou Ibuprofeno 5–10 mg/kg a cada 6–8h (≥ 6m)
           Orientar família: monitoramento em casa, sinais de alarme, retorno se febre > 48–72h
9
           sem melhora ou surgimento de novos sintomas
           Documentar: temperatura, aspecto clínico, exames solicitados, conduta e critérios para
10
           retorno

5.3 Antitérmicos — Doses Pediátricas e Comparação

 Medicamento             Dose             Intervalo            Dose máx./dia    Observações clínicas
                                                                               1ª escolha; seguro em <
Paracetamol         10–15                                  75 mg/kg/dia ou
                                      4/4 h a 6/6 h                            6 meses; hepatotóxico
(acetaminofeno)     mg/kg/dose                             4 g/dia (adulto)
                                                                               em superdosagem
                                                                               ≥ 6 meses; evitar em
                    5–10                                   40 mg/kg/dia ou
Ibuprofeno                            6/6 h a 8/8 h                            desidratação, disfunção
                    mg/kg/dose                             2,4 g/dia
                                                                               renal, dengue suspeita
                                                                               Uso muito comum no
                                                                               Brasil; eficácia
Dipirona            10–15
                                      6/6 h a 8/8 h        50 mg/kg/dia        antitérmica equiparável;
(metamizol)         mg/kg/dose
                                                                               risco de agranulocitose
                                                                               (raro)
                                                                               Contraindicada em
                    NÃO USAR                                                   pediatria (risco
Nimesulida                            —                    —
                    em < 12 anos                                               hepatotóxico) — ANVISA
                                                                               proibiu uso em < 12 anos
                                                                               Risco de síndrome de
Ácido
                                                                               Reye; contraindicado em
acetilsalicílico    NÃO USAR          —                    —
                                                                               crianças com infecções
(AAS)
                                                                               virais

SOBRE ALTERNÂNCIA DE ANTITÉRMICOS: A prática de alternar paracetamol e ibuprofeno para manter a criança apirética é NÃO RECOMENDADA pela SBP, AAP, NICE, CPS e AEP. Aumenta o risco de erros de dosagem pelos pais, não demonstrou benefício clínico significativo em relação ao bem-estar da criança e pode mascarar a evolução clínica. Use UM antitérmico por vez, na dose e intervalo corretos. (Cochrane Review, Sullivan et al., 2023)

5.4 Tratamento de Focos Específicos Identificados

Otite Média Aguda (OMA)

Faringoamigdalite Bacteriana (GABHS — Streptococcus pyogenes)

Infecção do Trato Urinário (ITU) Febril

Pneumonia Bacteriana

Meningite Bacteriana — Emergência

5.5 Convulsão Febril — Conduta

Crise Febril Simples (CFS)

Crise Febril Complexa (CFC)

5.6 Fluxograma Terapêutico — Decisão Rápida

< 28 DIAS                          28–90 DIAS                      > 3 MESES
Qualquer febre ≥ 38,0 °C           Step-by-Step / Rochester        Semáforo NICE + busca de
→ INTERNAÇÃO SEMPRE                → PCT + PCR + EAS +             foco
→ Hemograma + hemocultura          hemograma + hemocultura         → Verde: antitérmico +
+ EAS + urocultura + LCR           → Alto risco: INTERNAR +        orientação
→ ATB: Ampicilina +                ATB                             → Âmbar: exames seletivos +
Gentamicina                        → Baixo risco: ambulatorial +   retorno
                                   retorno em 24h                  → Vermelho: EMERGÊNCIA

6. Comparação De Protocolos Internacionais

6.1 Tabela Comparativa: SBP × AAP × NICE × CPS × AEP

       Aspecto              SBP                    AAP               NICE            CPS                AEP
Definição de
                       ≥ 38,0 °C          ≥ 38,0 °C             ≥ 38,0 °C        ≥ 38,0 °C        ≥ 38,0 °C
febre (retal)
                                                                Qualquer febre
Limiar para            ≥ 39,0 °C sem      ≥ 39,0 °C sem foco                     ≥ 38,5 °C        ≥ 38,0 °C +
                                                                + sinal
preocupação            foco (3–36m)       (3–36m)                                persistente      risco
                                                                âmbar/vermelho
                       Internação                                                Internação       Internação
< 28 dias com                             Internação sempre +   Internação
                       sempre +                                                  sempre +         sempre +
febre                                     ATB                   sempre + ATB
                       ATB                                                       ATB              ATB
                                                                NICE semáforo
28–90 dias:            Rochester /        Step-by-Step /                         Rochester        Step-by-Step
                                                                +
triagem                Step-by-Step       PECARN                                 adaptado         / Lab
                                                                biomarcadores
Biomarcadores          PCR + PCT                                PCT + PCR                         PCT + PCR
                                          PCT preferencial                       PCT + PCR
em 28–90d              obrigatórios                             obrigatórios                      obrigatórios
Paracetamol            10–15                                                     10–15            10–15
                                          10–15 mg/kg/dose      15 mg/kg/dose
dose                   mg/kg/dose                                                mg/kg/dose       mg/kg/dose
Ibuprofeno ≥ 6         5–10                                     5–10             5–10             5–10
                                          5–10 mg/kg/dose
meses                  mg/kg/dose                               mg/kg/dose       mg/kg/dose       mg/kg/dose
                       NÃO
Alternância de                                                  NÃO              NÃO              NÃO
                       recomendada        NÃO recomendada
antitérmicos                                                    recomendada      recomendada      recomendada
                       rotineiramente
                       NÃO
Banho                  recomendado                              NÃO              NÃO              NÃO
                                          NÃO recomendado
morno/compressa        como                                     recomendado      recomendado      recomendado
                       tratamento
                       Amplamente                                                                 Uso em
                                          Não disponível nos    Não              Não
CRS/dipirona           usado no                                                                   alguns
                                          EUA                   recomendado      disponível
                       Brasil                                                                     países
                       Sem ATB;           Sem ATB;
Crise febril                                                                     Mesma            Mesma
                       Diazepam           Diazepam/Midazolam    Mesma conduta
simples                                                                          conduta          conduta
                       retal SOS          SOS

6.2 Pontos Convergentes entre os Protocolos

TODOS os protocolos internacionais convergem nos seguintes pontos:

6.3 Pontos Divergentes e Especificidades

AAP (Estados Unidos) — Pontos Específicos

NICE (Reino Unido) — Pontos Específicos

CPS (Canadá) — Pontos Específicos

AEP (Europa) — Pontos Específicos

SBP (Brasil) — Pontos Específicos e Adaptações

indica paracetamol como 1ª escolha

(sangramento)

pneumococo, Hib, meningococo

devem ser adaptados à disponibilidade local

7. Critérios De Internação

7.1 Indicações de Internação Hospitalar

INTERNAÇÃO EM CARÁTER DE URGÊNCIA / EMERGÊNCIA:

INTERNAÇÃO ELETIVA / MONITORAMENTO:

INTERNAÇÃO NÃO INDICADA (critérios para alta segura):

8. Erros Comuns Na Prática Clínica

8.1 Erros de Avaliação e Diagnóstico

                  Erro comum                                          Conduta correta
Focar no número da temperatura e não no                Aspecto clínico (NICE semáforo) > temperatura
aspecto clínico                                        — avaliar sempre a criança inteira
Dispensar neonato (< 28 dias) com febre sem            < 28 dias com febre = emergência = internação
investigação                                           + culturas + ATB sempre
Tranquilizar família porque a criança 'melhorou        Melhora com antitérmico NÃO discrimina viral
com o antitérmico'                                     de bacteriano — não reconfortar indevidamente
                                                       Sempre cateterismo ou punção suprapúbica
Coletar urocultura em saco coletor                     para urocultura — saco coletor tem
                                                       contaminação de 60–80%
                                                       Rx de tórax somente com sintomas
Solicitar Rx de tórax para toda criança febril         respiratórios ou febre prolongada — não é
                                                       exame de triagem
                                                       Meningite bacteriana suspeita: realizar PL —
Não realizar PL por 'medo de herniação' em
                                                       herniação é rara; omitir PL prejudica
meningite suspeita sem edema de papila
                                                       diagnóstico
                                                       Em imunodeprimido qualquer febre =
Ignorar febre em imunodeprimido por ser 'baixa'
                                                       emergência — protocolo de neutropenia febril
                                                       ITU é causa de febre sem foco em 5–7% dos
Não pesquisar ITU em lactente febril sem foco
                                                       lactentes — EAS obrigatório ≥ 39 °C sem foco

8.2 Erros de Tratamento

                  Erro comum                                          Conduta correta
Usar AAS ou nimesulida como antitérmico em             NUNCA — AAS: risco de síndrome de Reye;
crianças                                               nimesulida: proibida < 12 anos pela ANVISA
                                                       NÃO recomendado por nenhum protocolo —
Alternar paracetamol e ibuprofeno de rotina            aumenta risco de erro de dose pelos
                                                       cuidadores
Banho frio ou compressa de gelo para baixar            NÃO recomendado — causa vasoconstrição,
febre                                                  calafrio, aumento do metabolismo e desconforto
                                                       ATB sem indicação seleciona resistência
Prescrever ATB para toda febre > 39 °C sem
                                                       bacteriana — não indicar sem foco bacteriano
foco
                                                       identificado
Dosar antitérmico pelo volume da apresentação          Verificar SEMPRE: paracetamol 200 mg/mL vs.
sem checar a concentração                              100 mg/mL — dose em mg/kg, não em ml
Usar ibuprofeno em criança com dengue                  CONTRAINDICADO na dengue — risco de
suspeita                                               sangramento; usar paracetamol
Retardar ATB em meningite suspeita para                ATB IMEDIATO após hemocultura — não
aguardar PL                                            retardar por PL se criança instável
                                                       Sempre orientar: 'Retorne SE...' — febre > 48h,
Não orientar critérios de retorno ao dar alta
                                                       piora do aspecto, petéquias, choro inconsolável

8.3 Erros de Comunicação com a Família

REFERÊNCIAS E FONTES INSTITUCIONAIS

Diretrizes e Protocolos 1. AAP — Subcommittee on Urinary Tract Infection. Reaffirmation of AAP Clinical Practice Guideline: The Diagnosis and Management of the Initial UTI in Febrile Infants and Young Children 2–24 Months of Age. Pediatrics. 2023.

2. NICE. Fever in under 5s: assessment and initial management (NG143). 2021. https://www.nice.org.uk/guidance/ng143 3. NICE. Meningitis (bacterial) and meningococcal disease (NG125). 2023. https://www.nice.org.uk/guidance/ng125 4. Canadian Paediatric Society (CPS). Fever and temperature taking. Position Statement. 2022. https://cps.ca 5. Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Nota Técnica: Abordagem da Febre sem Foco em Lactentes e Crianças. 2022. https://www.sbp.com.br 6. SBP. Manual de Urgências em Pediatria — Febre e Infecções Bacterianas Graves. 3ª ed, 2023.

7. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico Dengue — alertas para uso de antitérmicos.

2022. https://www.gov.br/saude

Artigos Científicos de Referência (2021–2024) 8. Mintegi S et al. Step-by-Step approach in the management of young febrile infants. JAMA Pediatrics. 2021;175(6).

9. Greenhow TL et al. Management of febrile young infants without source. UpToDate, reviewed 2024.

10. Pantell RH et al. Evaluation and Management of Well-Appearing Febrile Infants 8 to 60 Days Old. Pediatrics. 2021;148(2).

11. Sullivan JE et al. Fever and Antipyretic Use in Children — AAP Clinical Report Update. Pediatrics. 2023.

12. Leahy TR et al. Bacterial meningitis in children — diagnosis and management update. Lancet. 2023.

13. Barbi E et al. Fever in children — Pearls and Pitfalls. Children. 2023;10(2).

Links Institucionais para Consulta

Este documento é de uso exclusivamente educacional, destinado à formação e atualização de médicos. As condutas descritas devem ser adaptadas ao contexto clínico individual de cada paciente. Em casos complexos, consulte sempre um especialista. As doses e recomendações devem ser confirmadas nas diretrizes mais atuais das sociedades