Neonatologia · Cardiologia

Persistência do Canal Arterial (PCA)

Canal arterial patente no recém-nascido

1. Importância do tema na Pediatria

A persistência do canal arterial é a alteração cardiovascular mais comum do prematuro e fator de morbidade (insuficiência cardíaca, dependência ventilatória, hemorragia pulmonar, ECN). No RN a termo, o canal costuma fechar nas primeiras 48–72 h; sua persistência sintomática exige conduta. É tema clássico pela fisiologia do fechamento ductal e pelas opções de tratamento.

2. Avaliação inicial

Suspeitar em prematuro com sopro sistólico/contínuo em região infraclavicular esquerda, pulsos amplos (em martelo), precórdio hiperdinâmico, taquicardia, dependência ventilatória ou piora respiratória. Confirmar pelo ecocardiograma (define o canal, o sentido do shunt e a repercussão).

3. Fisiopatologia aplicada

Na vida fetal, o canal arterial desvia o sangue da artéria pulmonar para a aorta (mantido aberto pelas prostaglandinas e pela baixa PaO₂). Ao nascer, a elevação da PaO₂ e a queda das prostaglandinas promovem a constrição e o fechamento funcional (primeiras 48–72 h) e depois o anatômico. No prematuro, a resposta ao oxigênio é imatura e o canal tende a permanecer aberto. Com a queda da resistência pulmonar, surge shunt esquerda→direita: hiperfluxo pulmonar (edema, piora respiratória, hemorragia pulmonar) e roubo diastólico sistêmico (hipoperfusão de intestino, rins e cérebro — ECN, oligúria, HPIV). Implicação no manejo: inibir as prostaglandinas (AINE) fecha o canal; em cardiopatias dependentes do canal, ao contrário, mantém-se aberto com prostaglandina E1.

4. Diagnóstico

Critérios clínicos Sopro sistólico/contínuo infraclavicular esquerdo, pulsos amplos, precórdio hiperdinâmico, pressão de pulso alargada, taquicardia e sinais de insuficiência cardíaca/piora respiratória.

Exames essenciais

ExameAchado / utilidade
EcocardiogramaPadrão-ouro: confirma o canal, mede o diâmetro, o sentido do shunt e a repercussão
Radiografia de tóraxCardiomegalia e congestão/hiperfluxo pulmonar
Avaliação clínica seriadaSopro, pulsos, precórdio e estado respiratório

5. Conduta e tratamento

1. 1 — medidas gerais: manejo hídrico criterioso (restrição relativa), suporte respiratório, manter hematócrito adequado; muitos canais fecham espontaneamente (conduta conservadora no assintomático). 2. 2 — fechamento farmacológico (PCA hemodinamicamente significativo): inibidores da prostaglandina — ibuprofeno, indometacina ou paracetamol. 3. 3 — fechamento cirúrgico (ligadura) ou por cateter: na falha do tratamento clínico ou quando há contraindicação aos AINE.

Atenção

em cardiopatia congênita dependente do canal (ex.: atresia pulmonar, coarctação grave), NÃO fechar — manter aberto com prostaglandina E1 (alprostadil).

Doses (protocolo medicamentoso)

MedicaçãoDoseApresentaçãoObservações
Ibuprofeno10 mg/kg, depois 5 mg/kg às 24 h e 48 h (3 doses) IV/VO renalSolução injetável/oral vigiar função1ª linha em muitos serviços;
Indometacina0,2 mg/kg/dose IV 12/12 h (3 doses)Pó para reconstituiçãoRisco renal, plaquetário e de

ECN

Paracetamol15 mg/kg/dose VO/IV 6/6 h por 3–7 diasSolução melhor perfil renalAlternativa;
Prostaglandina0,01–0,05 mcg/kg/min IVSolução injetávelMANTER o canal
E1 (alprostadil)contínuo cardiopatia dependente (apneia como efeito)aberto na

As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre em formulário neonatal (ex.: Neofax) e no protocolo da sua unidade antes de prescrever.

Fluxograma terapêutico (resumo)

1. Passo 1 — suspeita clínica → ecocardiograma (confirma e mede a repercussão). 2. Passo 2 — PCA significativo → AINE (ibuprofeno/indometacina) ou paracetamol; assintomático → conservador.

3. Passo 3 — falha/contraindicação → fechamento cirúrgico ou por cateter. (Cardiopatia dependente → manter com PGE1.)

6. Comparação de protocolos

Os protocolos da SBP, AAP, NICE, AEP, Oxford (Oxford Handbook), Harvard (Cloherty and Stark's) e do Ministério da Saúde do Brasil convergem nos pontos abaixo; as divergências são pontuais.

assintomático; AINE no PCA significativo; cirurgia/cateter na falha; PGE1 mantém o canal na cardiopatia dependente.

indometacina), o lugar do paracetamol e o momento de tratar (precoce × tardio).

7. Critérios de internação

repercussão respiratória → UTI neonatal.

ambulatorial/eco.

8. Complicações

ventilatória/DBP, enterocolite necrosante, HPIV e oligúria (roubo diastólico).

9. Erros comuns

função renal/plaquetas/ECN; e o erro grave — fechar o canal numa cardiopatia dependente do canal (deve-se mantê-lo aberto com PGE1).

10. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

ouro.

cirurgia/cateter na falha.

prostaglandina E1.

Referências (ABNT NBR 14724) 1. CLOHERTY, J. P. et al. Manual de Neonatologia. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.

2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Persistência do canal arterial no prematuro. Documento

Científico.

3. BENITZ, W. E. (AAP). Patent Ductus Arteriosus in Preterm Infants. Pediatrics, 2016. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.

Casos clínicos (estilo ENAMED) Caso 1 Prematuro de 28 semanas, no 5º dia, com piora respiratória e dependência do ventilador. Ao exame: sopro sistólico infraclavicular esquerdo, pulsos amplos e precórdio hiperdinâmico.

Questão 1. Exame que confirma o diagnóstico e a repercussão?

(A) Radiografia isolada (B) Ecocardiograma (C) ECG (D) Hemograma (E) Gasometria

Questão 2. Qual a fisiopatologia da repercussão?

(A) Shunt direita→esquerda com cianose (B) Shunt esquerda→direita: hiperfluxo pulmonar e roubo diastólico sistêmico (C) Obstrução da via de saída do VE (D) Tamponamento cardíaco (E) Estenose mitral

Questão 3. Opção farmacológica de fechamento e dose?

(A) Prostaglandina E1 em infusão (B) Ibuprofeno 10–5–5 mg/kg (ou paracetamol 15 mg/kg/dose 6/6 h) (C) Furosemida isolada para fechar o canal (D) Digoxina (E) Adenosina

Caso 2 RN a termo com cianose intensa que melhora pouco com oxigênio; ao ecocardiograma, cardiopatia com circulação pulmonar dependente do canal arterial.

Questão 4. Conduta quanto ao canal arterial nesse caso?

(A) Fechar com ibuprofeno (B) Manter o canal aberto com prostaglandina E1 (alprostadil) (C) Ligadura cirúrgica imediata (D) Indometacina em 3 doses (E) Paracetamol por 7 dias

Questão 5. Efeito adverso importante da prostaglandina E1 a vigiar?

(A) Hipertensão grave (B) Apneia (C) Hiperglicemia (D) Constipação (E) Hipertermia maligna

Questão 6. No prematuro do Caso 1, qual erro deve ser evitado ao usar AINE?

(A) Checar a função renal e as plaquetas (B) Ignorar a função renal, as plaquetas e o risco de ECN (C) Confirmar pelo ecocardiograma (D) Avaliar a repercussão (E) Considerar a contraindicação

Gabarito comentado Questão 1 — Resposta: B O ecocardiograma é o padrão-ouro: confirma o canal e mede a repercussão. Questão 2 — Resposta: B O shunt E→D causa hiperfluxo pulmonar e roubo diastólico (hipoperfusão sistêmica). Questão 3 — Resposta: B Ibuprofeno 10–5–5 mg/kg (ou paracetamol 15 mg/kg/dose 6/6 h) promove o fechamento. Questão 4 — Resposta: B Na cardiopatia dependente do canal, mantém-se o canal aberto com prostaglandina E1. Questão 5 — Resposta: B A apneia é um efeito adverso clássico da prostaglandina E1 — vigiar a via aérea. Questão 6 — Resposta: B Ao usar AINE, é erro ignorar a função renal, as plaquetas e o risco de ECN. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.