Neonatologia · Nefrologia e Urológico

Injúria Renal Aguda no RN

Insuficiência renal aguda neonatal

1. Importância do tema na Pediatria

A injúria renal aguda (IRA) é frequente na UTI neonatal, sobretudo em prematuros e em RN asfixiados, e associa-se a maior mortalidade. Reconhecer a oligúria, diferenciar a causa pré-renal (a mais comum) da renal e da pós-renal e manejar volume/eletrólitos é tema de prova e de prática.

2. Avaliação inicial

Suspeitar diante de oligúria (diurese < 1 mL/kg/h após as primeiras 24 h) e/ou elevação da creatinina. Atenção: nos primeiros dias, a creatinina do RN reflete a materna e cai progressivamente; valores que NÃO caem (ou sobem) indicam IRA. Avaliar volemia/perfusão, balanço hídrico, uso de nefrotóxicos e sinais de uropatia obstrutiva.

3. Fisiopatologia aplicada

O rim neonatal tem baixa taxa de filtração glomerular e está em maturação, o que o torna vulnerável. A IRA pré-renal decorre de HIPOPERFUSÃO (hipovolemia, asfixia, sepse, PCA com roubo, insuficiência cardíaca): o rim está íntegro e responde à reposição de volume. A IRA renal (intrínseca) resulta de necrose tubular aguda (isquemia/asfixia, nefrotóxicos — aminoglicosídeos, AINE, contraste), trombose vascular ou malformações; a pré-renal não corrigida evolui para renal. A pós-renal é obstrutiva (válvula de uretra posterior no menino, bexiga neurogênica, obstrução pieloureteral bilateral). Implicação: restaurar a perfusão na pré-renal, suspender nefrotóxicos na renal e desobstruir na pós-renal.

4. Diagnóstico

TipoMecanismoPistas
Pré-renalHipoperfusão (rim íntegro) baixa; mais comumResponde a volume; FENa
Renal (intrínseca)NTA, nefrotóxicos, trombose FENa altaNão responde a volume;
Pós-renalObstrução do trato urinário hidronefrose; menino comBexiga palpável,

VUP

Exames essenciais

ExameAchado / utilidade
Creatinina/ureia seriadasCreatinina que não cai ou sobe = IRA
Eletrólitos e gasometriaHipercalemia, acidose, hiponatremia
Diurese (balanço)Oligúria < 1 mL/kg/h; pode ser não oligúrica
Ultrassonografia renal/viasHidronefrose/obstrução, malformações, trombose

5. Conduta e tratamento

1. 1 — pré-renal: restaurar a perfusão — prova de volume (soro fisiológico 10–20 mL/kg) e tratar a causa (sepse, PCA, ICC). 2. 2 — renal: suspender nefrotóxicos, ajustar doses à função renal, manejar volume e eletrólitos (corrigir hipercalemia e acidose); restrição hídrica criteriosa na anúria. 3. 3 — pós-renal: desobstruir (sondagem vesical; derivação/cirurgia na VUP) e avaliação urológica. 4. 4 — diálise (peritoneal de escolha no RN) na sobrecarga hídrica refratária, hipercalemia ou acidose graves e hiperamonemia/uremia.

Doses (suporte — referência) Medicação /

Dose — Apresentação — Observações

medida

ExpansãoSF 0,9% 10–20 mL/kg IVSoluçãoProva de volume
volêmicana pré-renal
Gluconato de1–2 mL/kg IV lentoAmpola 10%Estabiliza a
cálcio 10%(monitor) hipercalemiamembrana na
Furosemida1 mg/kg/dose IV sobrecarga (não reverte IRA estabelecida)SoluçãoTentativa na
GlicoinsulinoteraConforme protocoloHipercalemia
pia / resina(deslocar/retirar potássio)

As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre em formulário neonatal (ex.: Neofax) e no protocolo da sua unidade antes de prescrever.

Fluxograma terapêutico (resumo)

6. Passo 1 — oligúria/creatinina elevada → avaliar volemia + US renal.

2. Passo 2 — pré-renal → volume; renal → suspender nefrotóxicos + manejar K/acidose; pós-renal → desobstruir. 3. Passo 3 — refratário (sobrecarga/hipercalemia/acidose graves) → diálise peritoneal.

7. Comparação de protocolos

Os protocolos da SBP, AAP, NICE, AEP, Oxford (Oxford Handbook), Harvard (Cloherty and Stark's) e do Ministério da Saúde do Brasil convergem nos pontos abaixo; as divergências são pontuais.

suspender nefrotóxicos; corrigir hipercalemia/acidose; diálise peritoneal como escolha no RN.

modificado) e o limiar de início da diálise.

8. Critérios de internação

→ UTI neonatal.

9. Complicações

hipertensão, e doença renal crônica no seguimento.

10. Erros comuns

manter aminoglicosídeo/AINE em dose plena; não pesquisar obstrução (VUP no menino); usar furosemida como “tratamento” da IRA estabelecida.

11. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

(VUP no menino).

refratárias.

Pontos-chave para residência e ENAMED

ser NÃO oligúrica.

se a que NÃO cai ou sobe.

(NTA/nefrotóxicos) não responde; FENa alta.

PCA), contraste, anfotericina.

palpável, hidronefrose bilateral).

Referências (ABNT NBR 14724) 1. JETTON, J. G.; ASKENAZI, D. J. Acute kidney injury in the neonate. Clin Perinatol. 2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Injúria renal aguda neonatal. Documento Científico. 3. CLOHERTY, J. P. et al. Manual de Neonatologia. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.

Casos clínicos (estilo ENAMED) Caso 1 RN a termo, com asfixia perinatal, evolui no 2º dia com oligúria (0,4 mL/kg/h) e creatinina que não cai. Bem perfundido após reposição volêmica, mas a diurese não melhora.

Questão 1. Tipo de IRA mais provável?

(A) Pré-renal (B) Renal (necrose tubular aguda pós-asfixia) (C) Pós-renal (D) Nenhuma — é fisiológico (E) Glomerulonefrite

Questão 2. Conduta apropriada?

(A) Manter aminoglicosídeo em dose plena (B) Suspender nefrotóxicos, ajustar doses à função renal e manejar volume/eletrólitos (C) Forçar diurese com grande volume (D) Apenas observar (E) Iniciar AINE

Questão 3. Qual distúrbio eletrolítico mais perigoso vigiar?

(A) Hipocalcemia isolada (B) Hipercalemia (risco de arritmia) (C) Hipernatremia (D) Hipocloremia (E) Hipofosfatemia

Caso 2 RN do sexo masculino com jato urinário fraco, bexiga palpável e hidronefrose bilateral à ultrassonografia, com creatinina elevada.

Questão 4. Tipo de IRA e principal hipótese?

(A) Pré-renal; hipovolemia (B) Pós-renal; válvula de uretra posterior (C) Renal; NTA (D) Glomerulonefrite (E) Síndrome nefrótica

Questão 5. Conduta inicial?

(A) Restrição hídrica isolada (B) Desobstruir (sondagem vesical) e avaliação urológica (C) Diálise imediata para todos (D) AINE (E) Apenas observação

Questão 6. Modalidade dialítica de escolha no RN, se indicada?

(A) Hemodiálise convencional (B) Diálise peritoneal (C) Plasmaférese (D) Hemoperfusão (E) Nenhuma é possível

Gabarito comentado Questão 1 — Resposta: B Oligúria persistente após volume, pós-asfixia, indica IRA renal (necrose tubular aguda). Questão 2 — Resposta: B Suspender nefrotóxicos, ajustar doses e manejar volume/eletrólitos. Questão 3 — Resposta: B A hipercalemia é o distúrbio mais perigoso (arritmias). Questão 4 — Resposta: B Menino com bexiga palpável e hidronefrose bilateral sugere válvula de uretra posterior (pós-renal). Questão 5 — Resposta: B Desobstruir com sondagem e encaminhar à urologia. Questão 6 — Resposta: B A diálise peritoneal é a de escolha no recém-nascido. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.