Neonatologia · Endócrino e Metabólico

Hipoglicemia Neonatal

Distúrbio metabólico mais comum no RN

1. Importância do tema na Pediatria

A hipoglicemia é o distúrbio metabólico mais comum no RN. Como o cérebro depende da glicose, a hipoglicemia grave ou prolongada pode causar lesão neurológica permanente. Reconhecer os grupos de risco, monitorizar corretamente e tratar com as doses adequadas é determinante para o prognóstico — tema frequente de prova.

Alerta — a hipoglicemia ASSINTOMÁTICA também pode causar lesão neurológica

associa-se a maior risco de comprometimento do neurodesenvolvimento na infância (estudo CHYLD e meta-análises recentes).

mesmo em RN que não apresentaram sintomas.

o limiar do protocolo, ainda que assintomáticos — não se deve aguardar o surgimento de sintomas.

transitórios/leves; na dúvida, corrigir e manter a glicemia no alvo.

2. Avaliação inicial

Identificar os grupos de risco (filho de mãe diabética, GIG, PIG/RCIU, prematuro, asfixia, sepse, hipotermia) e iniciar a triagem de glicemia (dextro). A maioria é assintomática; quando há sintomas, são inespecíficos: tremores, irritabilidade, hipotonia, letargia, sucção débil, apneia, cianose e convulsão. A tríade de Whipple (sintoma + glicemia baixa + melhora com a correção) confirma a relevância clínica.

3. Fisiopatologia aplicada

Ao nascer, cessa o aporte materno de glicose e o RN passa a depender das próprias reservas (glicogenólise e gliconeogênese) até estabilizar a alimentação. A hipoglicemia surge por reservas insuficientes (PIG/RCIU, prematuro — pouco glicogênio), por hiperinsulinismo (filho de mãe diabética e GIG — a hiperglicemia materna gera hiperinsulinismo fetal, que persiste após o nascimento e suprime a produção de glicose) ou por maior consumo (asfixia, sepse, hipotermia, policitemia). Implicação no manejo: o

hiperinsulinismo exige GIR mais alto e raramente responde só à dieta; reservas baixas melhoram com aporte enteral/venoso.

4. Diagnóstico

Limiares operacionais (orientativos)

SituaçãoConduta de referência
< 25–30 mg/dL nas primeiras 4Intervir; alimentar/IV e recheck

h

< 40 mg/dL após as primeiras — Intervir conforme protocolo

horas

Sintomático com glicemia — Tratamento IV imediato (não confiar só na dieta)

baixa

Alvo após tratamento IV (PES) — ≈ 50 mg/dL (até 60–70 nas primeiras 48 h se necessita IV)

Os pontos de corte variam entre AAP e PES (Pediatric Endocrine Society); use o protocolo da sua unidade.

Protocolo de monitorização com dextro

1. 1 — primeira aferição: filho de mãe diabética/GIG/PIG/prematuro → dextro na 1ª– 2ª hora de vida, antes das mamadas. 2. 2 — alimentar precocemente (seio/fórmula) e repetir o dextro antes das mamadas (a cada 2–3 h) nas primeiras 12–24 h. 3. 3 — manter a triagem por 12 h (filho de diabética/GIG) a 24 h (PIG/prematuro), até estabilizar acima do alvo; confirmar com glicemia laboratorial nos valores muito baixos.

5. Conduta e tratamento

1. 1 — assintomático e glicemia pouco abaixo do alvo: alimentação precoce e recheck em 30–60 min; gel de dextrose oral 40% (0,5 mL/kg) pode ser adjuvante. 2. 2 — sintomático OU glicemia muito baixa OU sem resposta à dieta: bólus IV de glicose 200 mg/kg (2 mL/kg de SG 10%) lento, seguido de infusão contínua. 3. 3 — infusão contínua de glicose com GIR inicial 5–8 mg/kg/min; aumentar 2 mg/kg/min conforme necessário; recheck em 30 min e ajustar. 4. 4 — hipoglicemia refratária (GIR > 8–10–12): pensar em hiperinsulinismo; considerar glucagon, hidrocortisona e investigação endócrina (insulina, cortisol, GH).

Doses (protocolo medicamentoso)

MedicaçãoDoseApresentaçãoObservações
Glicose (bólus)200 mg/kg = 2 mL/kg de SG 10% IV lento contínuaSoro glicosado 10%Sempre seguir com infusão
MedicaçãoDoseApresentaçãoObservações
Glicose (infusão)GIR 5–8 mg/kg/min inicial; titular maiores em acesso central)SG 10% (concentrações 144GIR(mg/kg/min) = (% × mL/kg/dia) ÷
Glucagon0,2 mg/kg IM/IV (máx ~1 mg)Pó para reconstituiçãoResgate no hiperinsulinismo
Hidrocortisona5 mg/kg/dia IV ÷ 12/12 h a utilização de glicosePó/soluçãoRefratária; reduz

As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre em formulário neonatal (ex.: Neofax) e no protocolo da sua unidade antes de prescrever.

Fluxograma terapêutico (resumo)

6. Passo 1 — grupo de risco → dextro precoce + alimentação precoce.

2. Passo 2 — glicemia baixa: leve/assintomática → dieta + recheck; muito baixa/sintomática → bólus 200 mg/kg + infusão (GIR 5–8). 3. Passo 3 — refratária (GIR alto) → glucagon/hidrocortisona + investigar hiperinsulinismo.

7. Comparação de protocolos

Os protocolos da SBP, AAP, NICE, AEP, Oxford (Oxford Handbook), Harvard (Cloherty and Stark's) e do Ministério da Saúde do Brasil convergem nos pontos abaixo; as divergências são pontuais.

mg/kg + infusão contínua na hipoglicemia grave/sintomática; pensar em hiperinsulinismo na refratária.

mais baixas; a PES recomenda alvos mais altos, ~50 mg/dL, e 60–70 se depende de glicose IV).

8. Critérios de internação

exige infusão IV → unidade neonatal.

→ alojamento conjunto.

9. Complicações

neurodesenvolvimento. O risco existe na forma grave/prolongada e TAMBÉM na

hipoglicemia assintomática — daí a importância do rastreamento e do tratamento no RN de risco (ver alerta na pág. inicial).

10. Erros comuns

bólus sem infusão contínua de manutenção; não recalcular o GIR; não investigar o hiperinsulinismo na refratária.

11. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

PIG, prematuro, asfixia, sepse).

e tratar, não esperar sintomas.

nunca só dieta.

hiperinsulinismo.

Referências (ABNT NBR 14724) 1. COMMITTEE ON FETUS AND NEWBORN (AAP). Postnatal glucose homeostasis in late-preterm and

term infants. Pediatrics, 2011.

2. THORNTON, P. S. et al. (Pediatric Endocrine Society). Recommendations for evaluation and

management of persistent hypoglycemia in neonates, infants and children. J Pediatr, 2015.

3. McKINLAY, C. J. D. et al. (CHYLD Study). Association of Neonatal Glycemia With

Neurodevelopmental Outcomes at 4.5 Years. JAMA Pediatrics, 2017.

4. SHAH, R. et al. Neonatal Hypoglycemia and Neurodevelopmental Outcomes — Updated Systematic

Review and Meta-Analysis. 2024.

5. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Hipoglicemia neonatal. Documento Científico. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.

Casos clínicos (estilo ENAMED) Caso 1 RN GIG, 4.200 g, filho de mãe com diabetes gestacional. Na 2ª hora, assintomático, dextro de 32 mg/dL.

Questão 1. Conduta inicial mais adequada?

(A) Bólus de glicose imediato (B) Alimentação precoce e recheck do dextro em 30–60 min (C) Insulina subcutânea (D) Apenas observar sem alimentar (E) Iniciar hidrocortisona

Questão 2. Mecanismo da hipoglicemia nesse RN?

(A) Reservas baixas de glicogênio (B) Hiperinsulinismo (hiperglicemia materna → hiperinsulinismo fetal) (C) Sepse (D) Erro inato do metabolismo (E) Insuficiência adrenal

Questão 3. Caso evoluísse com tremores e dextro de 22 mg/dL, qual a conduta?

(A) Só aumentar a dieta (B) Bólus IV de glicose 200 mg/kg (2 mL/kg SG 10%) seguido de infusão contínua (C) Glucagon oral (D) Aguardar nova aferição em 2 h (E) Soro sem glicose

Caso 2 RN PIG, prematuro tardio, mantém glicemias baixas apesar da infusão de glicose, com necessidade de GIR crescente (> 12 mg/kg/min).

Questão 4. O que essa refratariedade com GIR alto sugere?

(A) Diabetes neonatal (B) Hiperinsulinismo (C) Desidratação (D) Hipernatremia (E) Hipotireoidismo congênito isolado

Questão 5. Medicações de resgate possíveis?

(A) Insulina e furosemida (B) Glucagon (0,2 mg/kg) e hidrocortisona (5 mg/kg/dia) (C) Adrenalina inalatória (D) Salbutamol (E) Manitol

Questão 6. Qual investigação é apropriada na hipoglicemia persistente?

(A) Apenas radiografia (B) Dosagens de insulina, cortisol e GH durante a hipoglicemia (amostra crítica) (C) Somente hemograma (D) Nenhuma (E) Apenas glicemia capilar

Gabarito comentado Questão 1 — Resposta: B Assintomático e pouco abaixo do alvo: alimentar precocemente e repetir o dextro em 30–60 min. Questão 2 — Resposta: B O filho de mãe diabética/GIG tem hiperinsulinismo fetal, que causa hipoglicemia pós-natal. Questão 3 — Resposta: B Sintomático/muito baixo: bólus IV de 200 mg/kg seguido de infusão contínua de glicose. Questão 4 — Resposta: B A necessidade de GIR alto para manter a glicemia sugere hiperinsulinismo. Questão 5 — Resposta: B Glucagon e hidrocortisona são opções de resgate na hipoglicemia refratária. Questão 6 — Resposta: B Na hipoglicemia persistente, colher amostra crítica (insulina, cortisol, GH) durante a hipoglicemia. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.