Neonatologia · Endócrino e Metabólico

Hipocalcemia Neonatal

Distúrbio do cálcio no recém-nascido

1. Importância do tema na Pediatria

A hipocalcemia é um distúrbio eletrolítico comum no RN, sobretudo em prematuros, filhos de mãe diabética e RN asfixiados. Pode ser assintomática ou manifestar-se com irritabilidade, tremores e convulsões. Saber as causas (precoce × tardia), corrigir com a dose correta e manter o cálcio no soro de manutenção é tema de prova e de prática diária.

2. Avaliação inicial

Definir a hipocalcemia (cálcio total < 8 mg/dL no termo e < 7 mg/dL no prematuro, ou cálcio iônico < 4,4 mg/dL / ~1,1 mmol/L). Identificar o grupo de risco e o tempo de vida (precoce < 72 h × tardia > 72 h). Avaliar sintomas: tremores, hiperexcitabilidade, abalos, convulsões e, na forma grave, prolongamento do QT.

3. Fisiopatologia aplicada

No feto, o cálcio é transferido ativamente pela placenta; ao nascer, cessa esse aporte e o RN depende da mobilização óssea e da resposta do paratormônio (PTH), que é transitoriamente imatura. A hipocalcemia precoce (< 72 h) ocorre por essa queda fisiológica exagerada nos grupos de risco (prematuro, filho de mãe diabética — com hipomagnesemia associada —, asfixia). A hipocalcemia tardia (> 72 h) associa-se a sobrecarga de fosfato (fórmulas/leite de vaca com muito fósforo), hipomagnesemia, hipoparatireoidismo (síndrome de DiGeorge) e deficiência de vitamina D materna. Implicação: corrigir o cálcio e também o magnésio (a hipomagnesemia perpetua a hipocalcemia).

4. Diagnóstico

Precoce × tardia

TipoTempoCausas principais
Precoce< 72 h diabética, asfixia, hipomagnesemiaPrematuridade, filho de mãe
Tardia> 72 h hipoparatireoidismo (DiGeorge), deficiência de vitamina D, hipomagnesemiaSobrecarga de fosfato,

Exames essenciais

ExameAchado / utilidade
Cálcio total e iônicoConfirma e quantifica (iônico é a forma ativa)
MagnésioHipomagnesemia coexistente (perpetua a hipocalcemia)
FósforoHiperfosfatemia (causa tardia)
ECGProlongamento do intervalo QT
PTH / vitamina D (casosHipoparatireoidismo / deficiência de vitamina D

tardios)

5. Conduta e tratamento

1. 1 — hipocalcemia sintomática (convulsão/tetania): gluconato de cálcio 10% 1–2 mL/kg (100–200 mg/kg) IV lento, diluído, em 5–10 min, com monitorização cardíaca (risco de bradicardia/arritmia); pode repetir. 2. 2 — após a correção aguda, manter cálcio na infusão contínua (soro de manutenção) para evitar recidiva. 3. 3 — dosar e corrigir o magnésio (sulfato de magnésio se hipomagnesemia) — sem isso a hipocalcemia não corrige. 4. 4 — hipocalcemia assintomática leve: muitas vezes só manutenção e tratamento da causa; tardia por fosfato → reduzir o aporte de fósforo.

Doses (protocolo medicamentoso)

MedicaçãoDoseApresentaçãoObservações
Gluconato de1–2 mL/kg (100–200Ampola 10%Monitor cardíaco;
cálcio 10%mg/kg) IV lento em 5–10(100 mg/mL)risco de necrose
(agudo)minse extravasar
Cálcio200–800 mg/kg/dia deAmpola 10%Diluído no soro de
(manutenção)gluconato de cálcio 10% na infusão contínuamanutenção
Sulfato de25–50 mg/kg/dose IV (deSolução injetávelCorrigir a
magnésioMgSO₄) associadahipomagnesemia

As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre em formulário neonatal (ex.: Neofax) e no protocolo da sua unidade antes de prescrever.

Soro de manutenção com cálcio (exemplo de cálculo) Exemplo para um RN de 3 kg ao final do 1º dia (necessidade hídrica ~80 mL/kg/dia → 240 mL/dia) com necessidade de cálcio de manutenção (~400 mg/kg/dia de gluconato de cálcio 10%):

1. 1 — volume total ≈ 240 mL/dia (80 mL/kg × 3 kg) — ajustar conforme balanço. 2. 2 — glicose: SG 10% para GIR ~5–6 mg/kg/min (base do soro).

3. 3 — cálcio: 400 mg/kg/dia × 3 kg = 1.200 mg/dia de gluconato de cálcio 10% = 12 mL/dia da ampola 10% (100 mg/mL), diluídos no soro. 4. 4 — acrescentar sódio e potássio conforme a idade pós-natal e os eletrólitos; o potássio só após diurese estabelecida.

Não infundir cálcio junto com bicarbonato (precipita) e evitar extravasamento (necrose tecidual). Valores ilustrativos — recalcular para cada paciente.

Fluxograma terapêutico (resumo)

1. Passo 1 — sintomática (convulsão/tetania) → gluconato de cálcio 10% 1–2 mL/kg IV lento (monitor).

6. Passo 2 — manter cálcio no soro de manutenção + corrigir o magnésio.

3. Passo 3 — tratar a causa (reduzir fosfato na tardia; investigar PTH/vitamina D/DiGeorge).

7. Comparação de protocolos

Os protocolos da SBP, AAP, NICE, AEP, Oxford (Oxford Handbook), Harvard (Cloherty and Stark's) e do Ministério da Saúde do Brasil convergem nos pontos abaixo; as divergências são pontuais.

sintomática; manutenção em infusão; corrigir o magnésio associado; tratar a causa.

esquemas de manutenção/vitamina D.

8. Critérios de internação

cálcio IV → unidade neonatal com monitorização.

seguimento.

9. Complicações

extravasamento do cálcio; bradicardia na infusão rápida.

10. Erros comuns

magnésio; infundir cálcio com bicarbonato; permitir extravasamento; tratar a forma aguda sem manter a manutenção (recidiva).

11. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

fosfato, hipoparatireoidismo (DiGeorge), vitamina D.

cardíaco.

extravasamento.

Referências (ABNT NBR 14724) 1. CLOHERTY, J. P. et al. Manual de Neonatologia. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. 2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Distúrbios do cálcio no período neonatal. Documento

Científico.

3. ABRAMS, S. A. (AAP). Calcium and vitamin D requirements of newborns. Pediatrics. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.

Casos clínicos (estilo ENAMED) Caso 1 RN prematuro de 33 semanas, filho de mãe diabética, com 36 horas de vida, apresenta tremores e um episódio de convulsão. Cálcio iônico de 3,2 mg/dL.

Questão 1. Classificação temporal e fator de risco principal?

(A) Tardia; deficiência de vitamina D (B) Precoce; prematuridade e filho de mãe diabética (C) Tardia; sobrecarga de fosfato (D) Precoce; hipoparatireoidismo (E) Não é hipocalcemia

Questão 2. Tratamento da hipocalcemia sintomática e cuidado essencial?

(A) Cálcio oral; sem monitor (B) Gluconato de cálcio 10% 1–2 mL/kg IV lento, diluído, com monitorização cardíaca (C) Bólus rápido sem diluir (D) Apenas aumentar a dieta (E) Furosemida IV

Questão 3. Eletrólito que deve ser dosado e corrigido em conjunto?

(A) Sódio (B) Magnésio (C) Cloro (D) Fósforo apenas (E) Potássio

Caso 2 RN a termo, em aleitamento com fórmula rica em fosfato, com 6 dias de vida, apresenta tremores. Cálcio baixo, fósforo elevado.

Questão 4. Classificação temporal e mecanismo?

(A) Precoce; asfixia (B) Tardia; sobrecarga de fosfato (C) Precoce; prematuridade (D) Tardia; hipermagnesemia (E) Fisiológica

Questão 5. Além de corrigir o cálcio, qual medida é apropriada?

(A) Aumentar o aporte de fósforo (B) Reduzir o aporte de fósforo (ajuste da fórmula) (C) Suspender todo o leite (D) Iniciar diurético (E) Restringir o cálcio

Questão 6. Se a hipocalcemia tardia fosse acompanhada de cardiopatia e dismorfismos faciais, qual diagnóstico investigar?

(A) Síndrome de Down (B) Síndrome de DiGeorge (hipoparatireoidismo) (C) Síndrome de Turner (D) Galactosemia (E) Fenilcetonúria

Gabarito comentado Questão 1 — Resposta: B Com 36 h (< 72 h) é precoce; prematuridade e filho de mãe diabética são os fatores de risco. Questão 2 — Resposta: B Gluconato de cálcio 10% 1–2 mL/kg IV lento, diluído, com monitorização cardíaca. Questão 3 — Resposta: B O magnésio deve ser dosado e corrigido — a hipomagnesemia perpetua a hipocalcemia. Questão 4 — Resposta: B Com 6 dias (> 72 h) é tardia; a sobrecarga de fosfato é a causa típica. Questão 5 — Resposta: B Reduzir o aporte de fósforo (ajustar a fórmula) corrige a causa da hipocalcemia tardia. Questão 6 — Resposta: B Hipocalcemia tardia com cardiopatia e dismorfismos sugere síndrome de DiGeorge. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.