Neonatologia · Endócrino e Metabólico

Erros Inatos do Metabolismo

Apresentação neonatal

1. Importância do tema na Pediatria

Os erros inatos do metabolismo (EIM) são causas potencialmente tratáveis de deterioração neonatal e devem entrar no diagnóstico diferencial do RN que “adoece” sem causa óbvia. O reconhecimento precoce e o manejo agudo (parar o catabolismo, remover toxinas, repor cofatores) salvam vidas e evitam sequelas.

2. Avaliação inicial

Suspeitar no RN com deterioração após um INTERVALO LIVRE (nasceu bem e piorou ao iniciar a alimentação): recusa alimentar, vômitos, letargia/coma, hipotonia, convulsões, taquipneia (por acidose). Pistas: consanguinidade, óbitos neonatais inexplicados na família, odor peculiar da urina. Colher a “amostra crítica” durante a crise.

3. Fisiopatologia aplicada

Um defeito enzimático bloqueia uma via metabólica, acumulando substratos tóxicos e/ou faltando produtos/energia. Didaticamente: (a) doenças de INTOXICAÇÃO (acidemias orgânicas, defeitos do ciclo da ureia com HIPERAMONEMIA, aminoacidopatias) — deterioração aguda após a alimentação; (b) defeitos de ENERGIA (mitocondriais, oxidação de ácidos graxos, glicogenoses) — hipoglicemia, hipotonia, miocardiopatia; (c) doenças de MOLÉCULAS COMPLEXAS (lisossômicas) — curso mais crônico. Implicação: o catabolismo (jejum, infecção) piora a intoxicação; oferecer glicose e suspender a proteína são medidas-chave.

4. Diagnóstico

Exames de triagem na crise

ExameAchado / utilidade
Gasometria + ânion gapAcidose metabólica com ânion gap aumentado (acidemias orgânicas)
AmôniaHIPERAMONEMIA (defeitos do ciclo da ureia; acidemias) — urgência
Glicemia + cetonas +Hipoglicemia (energia); cetose/hiperlactacidemia

lactato

ExameAchado / utilidade
Triagem metabólicaAminoácidos, ácidos orgânicos urinários, perfil de
ampliadaacilcarnitinas (MS/MS)

5. Conduta — manejo agudo

1. 1 — PARAR o catabolismo: suspender a proteína/dieta e oferecer GLICOSE (infusão com GIR alto) para anabolismo; corrigir a desidratação. 2. 2 — tratar a acidose e, na HIPERAMONEMIA, iniciar medidas para remover amônia (quelantes — benzoato/fenilbutirato; arginina) e considerar DIÁLISE precoce na amônia muito elevada. 3. 3 — cofatores empíricos conforme a suspeita (ex.: vitamina B12, biotina, tiamina) e suporte clínico. 4. 4 — colher a amostra crítica e acionar a referência em genética/metabolismo; reintroduzir a dieta conforme o diagnóstico.

Fluxograma (resumo)

1. Passo 1 — deterioração após intervalo livre → gaso, amônia, glicemia, lactato + amostra crítica.

6. Passo 2 — suspender proteína + glicose (anabolismo); tratar

acidose/hiperamonemia.

7. Passo 3 — hiperamonemia grave → diálise; cofatores; acionar a

genética/metabolismo.

8. Comparação de protocolos

Os protocolos da SBP, AAP, NICE, AEP, Oxford (Oxford Handbook), Harvard (Cloherty and Stark's) e do Ministério da Saúde do Brasil convergem nos pontos abaixo; as divergências são pontuais.

com amônia/gaso/triagem; manejo agudo (parar catabolismo, glicose, remover toxinas); diálise na hiperamonemia grave.

diálise variam por protocolo/centro.

9. Critérios de internação

centro com triagem/genética e diálise.

10. Complicações

coma e óbito; sequelas se o tratamento for tardio.

11. Erros comuns

a proteína na descompensação; não colher a amostra crítica; atrasar a diálise na hiperamonemia grave.

12. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

alimentar).

crítica.

acidose e hiperamonemia.

Pontos-chave para residência e ENAMED

LIVRE, ao iniciar a alimentação (recusa, vômitos, letargia, hipotonia, convulsões, taquipneia por acidose).

GLICEMIA/lactato. A HIPERAMONEMIA é emergência (neurotóxica).

ENERGIA (mitocondrial, oxidação de ácidos graxos) × MOLÉCULAS COMPLEXAS (lisossômicas).

GLICOSE (anabolismo); corrigir acidose; remover amônia (quelantes/arginina) e DIÁLISE se muito elevada.

genética/metabolismo.

da urina.

Referências (ABNT NBR 14724) 1. SAUDUBRAY, J. M. et al. Inborn Metabolic Diseases: Diagnosis and Treatment. 2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Emergências metabólicas no período neonatal.

Documento Científico.

3. BRASIL. Ministério da Saúde. Triagem neonatal ampliada (Lei nº 14.154/2021). Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.

Casos clínicos (estilo ENAMED) Caso 1 RN a termo que nasceu bem e, no 3º dia (após o início da alimentação), evolui com recusa alimentar, vômitos, letargia progressiva e taquipneia. Gasometria com acidose metabólica e ânion gap aumentado; amônia elevada.

Questão 1. Qual a principal suspeita?

(A) Sepse apenas (B) Erro inato do metabolismo (descompensação) (C) Refluxo (D) Cólica (E) Constipação

Questão 2. Qual exame é mandatório e indica emergência?

(A) Amônia (hiperamonemia) (B) Apenas hemograma (C) Radiografia de tórax (D) EEG isolado (E) Urocultura

Questão 3. Qual a medida inicial do manejo agudo?

(A) Aumentar a proteína da dieta (B) Suspender a proteína e oferecer glicose (parar o catabolismo) (C) Jejum total sem glicose (D) Iniciar ferro (E) Apenas observação

Caso 2 O mesmo RN mantém amônia muito elevada apesar das medidas iniciais.

Questão 4. Qual conduta está indicada na hiperamonemia grave/refratária?

(A) Apenas observação (B) Diálise (remoção de amônia) e quelantes (C) Suspender a glicose (D) Reintroduzir proteína (E) Corticoide

Questão 5. Qual achado da história reforça a suspeita de EIM?

(A) Consanguinidade e óbitos neonatais inexplicados na família (B) Parto cesárea (C) Mãe primigesta (D) Uso de ácido fólico (E) Aleitamento materno

Questão 6. Qual o melhor momento para colher a amostra crítica?

(A) Após a alta (B) Durante a crise/descompensação (C) Somente em jejum prolongado (D) Após 1 mês (E) Não é necessária

Gabarito comentado Questão 1 — Resposta: B Deterioração após intervalo livre com acidose e hiperamonemia sugere EIM. Questão 2 — Resposta: A A amônia é mandatória; a hiperamonemia é emergência neurotóxica. Questão 3 — Resposta: B Parar o catabolismo: suspender a proteína e oferecer glicose. Questão 4 — Resposta: B Hiperamonemia grave/refratária: diálise e quelantes. Questão 5 — Resposta: A Consanguinidade e óbitos neonatais inexplicados reforçam a suspeita de EIM. Questão 6 — Resposta: B A amostra crítica deve ser colhida durante a crise. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.