Neonatologia · Endócrino e Metabólico

Endocrinopatias Neonatais

Hipotireoidismo congênito, hiperplasia adrenal e diferenciação sexual

1. Importância do tema na Pediatria

As endocrinopatias neonatais incluem condições de detecção precoce que mudam o prognóstico: o hipotireoidismo congênito (rastreado no pezinho, evita deficiência intelectual) e a hiperplasia adrenal congênita (HAC, risco de crise perdedora de sal e ambiguidade genital). O hiperinsulinismo e os distúrbios da diferenciação sexual completam o tema.

2. Avaliação inicial

Valorizar o resultado do pezinho (TSH para hipotireoidismo; 17-OHP para HAC). Diante de letargia, hipotonia, icterícia prolongada e hérnia umbilical → pensar em hipotireoidismo. Diante de vômitos, desidratação, hiponatremia + hipercalemia e/ou genitália ambígua → pensar em HAC. Toda ambiguidade genital exige avaliação urgente (sexo de criação NÃO deve ser definido às pressas).

3. Fisiopatologia aplicada

No hipotireoidismo congênito, a causa mais comum é a disgenesia tireoidiana

(ectopia/agenesia); — a — falta — de — hormônio — tireoidiano — compromete — o

neurodesenvolvimento — daí a urgência do tratamento. Na HAC por deficiência de 21- hidroxilase (> 95% dos casos), bloqueia-se a síntese de cortisol (e de aldosterona na forma perdedora de sal), com acúmulo de precursores desviados para androgênios: surgem virilização (ambiguidade na menina) e, na forma clássica perdedora de sal, crise adrenal (hiponatremia, hipercalemia, acidose, desidratação) em 1–4 semanas. Implicação: repor o hormônio deficiente precocemente.

4. Diagnóstico

CondiçãoPistas e exames
HipotireoidismoPezinho com TSH alto; letargia, hipotonia, icterícia
congênitoprolongada, hérnia umbilical, fontanela ampla; confirmar TSH/T4
HAC (21-hidroxilase)Pezinho com 17-OHP elevado; ambiguidade na menina; perdedora de sal: Na baixo, K alto, acidose
HiperinsulinismoHipoglicemia persistente com necessidade de GIR alto (ver tema próprio)
CondiçãoPistas e exames
Distúrbios daGenitália ambígua; cariótipo, eletrólitos, 17-OHP, USG,
diferenciação sexualdosagens hormonais

(DDS)

5. Conduta e tratamento

1. 1 — hipotireoidismo congênito: iniciar levotiroxina o quanto antes; monitorizar TSH/T4 e o desenvolvimento. 2. 2 — HAC: glicocorticoide (hidrocortisona) de reposição e, na perdedora de sal, mineralocorticoide (fludrocortisona) + reposição de sal; na CRISE adrenal, hidrocortisona em dose de estresse + soro fisiológico com glicose e correção da hipercalemia. 3. 3 — ambiguidade genital: equipe multidisciplinar; NÃO definir o sexo de criação precipitadamente; investigar (cariótipo, hormônios, imagem).

Doses (protocolo medicamentoso)

MedicaçãoDoseApresentaçãoObservações
Levotiroxina10–15 mcg/kg/dia VO (dose única) precocementeComprimido congênito; iniciarHipotireoidismo
Hidrocortisona~8–15 mg/m²/dia VO ÷ 3ComprimidoHAC — reposição
(manutenção)de glicocorticoide
HidrocortisonaBólus ~25–50 mg/m² IV,Pó/soluçãoCrise adrenal
(crise/estresse)depois 50–100 mg/m²/dia(suspeita de perdedora de sal)
Fludrocortisona0,05–0,2 mg/dia VO + reposição de sal perdedora de salComprimido na formaMineralocorticoide

As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre em formulário neonatal (ex.: Neofax) e no protocolo da sua unidade antes de prescrever.

Fluxograma (resumo)

6. Passo 1 — pezinho alterado (TSH↑ ou 17-OHP↑) → confirmar e tratar.

2. Passo 2 — hipotireoidismo → levotiroxina precoce; HAC → hidrocortisona ± fludrocortisona/sal. 3. Passo 3 — crise adrenal → hidrocortisona de estresse + SF/glicose + corrigir K; ambiguidade → equipe multidisciplinar.

7. Comparação de protocolos

Os protocolos da SBP, AAP, NICE, AEP, Oxford (Oxford Handbook), Harvard (Cloherty and Stark's) e do Ministério da Saúde do Brasil convergem nos pontos abaixo; as divergências são pontuais.

hipotireoidismo; hidrocortisona ± fludrocortisona na HAC; não apressar o sexo de criação na ambiguidade.

dose de hidrocortisona/fludrocortisona.

8. Critérios de internação

ambiguidade em investigação → unidade neonatal; hipotireoidismo estável → ambulatorial com início precoce.

9. Complicações

adrenal e óbito; efeitos do excesso/baixa de corticoide. Ambiguidade: impacto psicossocial se mal conduzida.

10. Erros comuns

RN com vômitos/hiponatremia + hipercalemia; definir o sexo de criação às pressas na ambiguidade; não dar dose de estresse na crise adrenal.

11. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

com levotiroxina (evita deficiência intelectual).

acidose, crise adrenal.

Pontos-chave para residência e ENAMED

(ectopia/agenesia); rastreio por TSH no pezinho; tratar PRECOCE com levotiroxina 10–15 mcg/kg/dia — atraso causa deficiência intelectual.

ampla, macroglossia, constipação.

DE SAL = hiponatremia + HIPERCALEMIA + acidose (crise em 1–4 semanas).

genitália normal e abrir com crise — alta letalidade se não diagnosticado.

fisiológico com glicose + corrigir hipercalemia.

definir o sexo de criação precipitadamente.

Referências (ABNT NBR 14724) 1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Triagem e manejo das endocrinopatias neonatais.

Documentos Científicos.

2. SPEISER, P. W. et al. (Endocrine Society). Congenital Adrenal Hyperplasia Due to 21-Hydroxylase

Deficiency: Clinical Practice Guideline.

12. BRASIL. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Triagem Neonatal.

Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.

Casos clínicos (estilo ENAMED) Caso 1 RN com 3 semanas, com 17-OHP elevado no pezinho, apresenta vômitos, desidratação e perda de peso. Exames: sódio 125, potássio 6,8 e acidose metabólica. A genitália é ambígua.

Questão 1. Diagnóstico mais provável?

(A) Estenose hipertrófica do piloro (B) Hiperplasia adrenal congênita (forma perdedora de sal) (C) Sepse urinária (D) Hipotireoidismo (E) Erro inato isolado

Questão 2. Conduta imediata na crise?

(A) Apenas reidratação oral (B) Hidrocortisona em dose de estresse + soro fisiológico com glicose + corrigir a hipercalemia (C) Insulina isolada (D) Levotiroxina (E) Antibiótico apenas

Questão 3. Sobre a genitália ambígua, qual a conduta?

(A) Definir o sexo de criação imediatamente (B) Investigar com equipe multidisciplinar, sem apressar a definição do sexo (C) Registrar como masculino sempre (D) Operar de imediato (E) Ignorar

Caso 2 RN com icterícia prolongada, hipotonia, fontanela ampla, hérnia umbilical e dificuldade alimentar; o pezinho mostrou TSH elevado.

Questão 4. Diagnóstico mais provável?

(A) Hipotireoidismo congênito (B) HAC (C) Galactosemia (D) Sepse (E) Anemia

Questão 5. Tratamento e urgência?

(A) Levotiroxina, iniciada precocemente (B) Aguardar 1 mês para tratar (C) Apenas observação (D) Corticoide

(E) Iodo em megadose

Questão 6. Causa mais comum do hipotireoidismo congênito?

(A) Disgenesia tireoidiana (ectopia/agenesia) (B) Deficiência de iodo materna sempre (C) Tireoidite autoimune do RN (D) Adenoma (E) Câncer de tireoide

Gabarito comentado Questão 1 — Resposta: B 17-OHP alto, hiponatremia, hipercalemia, acidose e ambiguidade = HAC perdedora de sal. Questão 2 — Resposta: B Crise adrenal: hidrocortisona de estresse + SF com glicose + corrigir a hipercalemia. Questão 3 — Resposta: B Investigar com equipe multidisciplinar e não apressar a definição do sexo de criação. Questão 4 — Resposta: A Icterícia prolongada, hipotonia, hérnia umbilical e TSH alto: hipotireoidismo congênito. Questão 5 — Resposta: A Levotiroxina precoce é essencial para preservar o neurodesenvolvimento. Questão 6 — Resposta: A A disgenesia tireoidiana é a causa mais comum do hipotireoidismo congênito. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.