1. Importância do tema na Pediatria
Os distúrbios hematológicos do RN abrangem quatro grandes quadros — anemia, policitemia, plaquetopenia e doença hemorrágica por deficiência de vitamina K — com manejos opostos (transfundir × diluir; repor plaquetas × repor fatores). Saber diferenciá- los, conhecer os limiares de tratamento e a profilaxia com vitamina K é tema recorrente de prova e de prática diária.
2. Avaliação inicial
Diante de palidez, pletora, sangramento ou petéquias, solicitar hemograma com plaquetas, hematócrito venoso, reticulócitos, coagulograma (TP/TTPA) e Coombs quando indicado. Valorizar a história perinatal (parto, perdas, isoimunização, mãe diabética, uso de vitamina K) e o tempo de vida.
3. Fisiopatologia aplicada
Anemia Resulta de perda (hemorragia obstétrica, sangramento, coletas repetidas — anemia iatrogênica), hemólise (isoimunização Rh/ABO, esferocitose, deficiência de G6PD) ou baixa produção (anemia da prematuridade — eritropoetina baixa e meia-vida eritrocitária curta). Implicação: definir o mecanismo orienta a conduta (transfundir, tratar a hemólise, repor ferro).
Policitemia Hematócrito venoso > 65% por aumento da massa eritrocitária: transfusão materno- fetal/feto-fetal, clampeamento tardio excessivo, hipóxia crônica (RCIU/PIG, filho de mãe diabética → eritropoetina alta). O excesso de hemácias eleva a viscosidade, reduzindo o fluxo e a perfusão (cérebro, intestino, rins). Implicação: tratar a forma sintomática para prevenir trombose e ECN.
Plaquetopenia Plaquetas < 150.000/mm³ por destruição imune (aloimune — incompatibilidade de antígenos plaquetários; autoimune materna — PTI/lúpus), consumo (sepse, CIVD, ECN, asfixia) ou baixa produção (infecções congênitas, insuficiência medular). A
trombocitopenia aloimune neonatal é a principal causa de hemorragia intracraniana no RN a termo sadio. Implicação: investigar a causa e repor plaquetas conforme o nível/sangramento.
Doença hemorrágica do RN (deficiência de vitamina K) A vitamina K é cofator da síntese hepática dos fatores II, VII, IX e X. O RN nasce com reservas baixas (pouca transferência placentária, intestino estéril, leite materno pobre em vitamina K). Sem profilaxia, surge sangramento — forma precoce (< 24 h, ligada a fármacos maternos), clássica (2º–7º dia) ou tardia (2–12 semanas, associada a aleitamento exclusivo sem profilaxia e a colestase), esta com alto risco de hemorragia intracraniana. Implicação: a profilaxia universal com vitamina K IM ao nascer previne o quadro.
4. Diagnóstico
| Quadro | Achados-chave |
|---|---|
| Anemia | Palidez, taquicardia, má perfusão; Hb/Ht baixos, reticulócitos, Coombs (hemólise) |
| Policitemia | Pletora, letargia, hipoglicemia, desconforto; hematócrito VENOSO > 65% |
| Plaquetopenia | Petéquias, sangramento; plaquetas < 150.000 (grave < 50.000) |
| Doença | Sangramento (TGI, coto umbilical, intracraniano); TP e TTPA |
| hemorrágica | ALARGADOS, plaquetas NORMAIS |
5. Conduta e tratamento
1. 1 — anemia: transfundir concentrado de hemácias conforme o limiar (idade, suporte respiratório, sintomas); ferro na anemia da prematuridade; tratar a causa de base. 2. 2 — policitemia sintomática: exsanguineotransfusão parcial (retira sangue e repõe soro fisiológico) para reduzir o hematócrito (alvo ~55%); hidratar e monitorizar glicemia. 3. 3 — plaquetopenia: transfundir plaquetas conforme nível/sangramento; na aloimune grave, plaquetas compatíveis ± imunoglobulina; tratar a causa. 4. 4 — doença hemorrágica: vitamina K e, no sangramento ativo, plasma fresco congelado/complexo protrombínico.
Doses (protocolo medicamentoso) Medicação /
Dose — Apresentação — Observações
produto
| Vitamina K | 1 mg IM dose única ao | Solução injetável | Previne a doença |
|---|---|---|---|
| (profilaxia) | nascer (0,5 mg se < 1.500 g) | hemorrágica do RN (universal) |
Medicação /
Dose — Apresentação — Observações
produto
| Vitamina K | 1 mg IV/IM (repetir | Solução injetável | Com plasma |
|---|---|---|---|
| (tratamento) | conforme resposta) sangramento ativo | fresco no | |
| Concentrado de | 10–15 mL/kg IV | Hemocomponent | Anemia conforme |
| hemácias | e | limiar; lento | |
| Concentrado de | 10–15 mL/kg IV | Hemocomponent | Plaquetopenia |
| plaquetas | e | grave/sangrament |
o
Ferro elementar — 2–4 mg/kg/dia VO prematuridade, após estabilidade alimentar — Solução oral — Anemia da
As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre em formulário neonatal (ex.: Neofax) e no protocolo da sua unidade antes de prescrever.
Fluxograma terapêutico (resumo)
1. Passo 1 — definir o quadro (Hb/Ht, plaquetas, TP/TTPA, hematócrito venoso). 2. Passo 2 — anemia → transfundir/ferro; policitemia sintomática → exsanguíneo parcial; plaquetopenia → plaquetas; doença hemorrágica → vitamina K + PFC. 3. Passo 3 — investigar e tratar a causa de base (hemólise, sepse, isoimunização, colestase).
6. Comparação de protocolos
Os protocolos da SBP, AAP, NICE, AEP, Oxford (Oxford Handbook), Harvard (Cloherty and Stark's) e do Ministério da Saúde do Brasil convergem nos pontos abaixo; as divergências são pontuais.
- Convergências: profilaxia universal com vitamina K IM; policitemia definida por
Ht venoso > 65% e exsanguíneo parcial na forma sintomática; transfusão por limiares; investigar a causa.
- Divergências (pontuais): os limiares exatos de transfusão de
hemácias/plaquetas (variam por idade, peso e suporte) e o uso da via oral de vitamina K em alguns países.
7. Critérios de internação
- Internação: anemia sintomática/transfusional, policitemia sintomática,
plaquetopenia grave/sangramento ou doença hemorrágica → unidade neonatal.
- Ambulatorial/alojamento: alterações leves e assintomáticas, RN estável →
seguimento com reavaliação.
8. Complicações
- Anemia: descompensação hemodinâmica, má evolução ponderal. Policitemia:
trombose, ECN, sequelas neurológicas. Plaquetopenia/doença hemorrágica: hemorragia intracraniana.
9. Erros comuns
- não administrar a vitamina K ao nascer; usar hematócrito capilar (superestima)
em vez do venoso para definir policitemia; transfundir sem definir a causa da anemia; não investigar a plaquetopenia aloimune (risco de HIC); confundir doença hemorrágica (TP/TTPA alargados, plaquetas normais) com CIVD (plaquetas baixas).
10. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)
- Vitamina K 1 mg IM ao nascer previne a doença hemorrágica do RN (forma tardia
→ risco de HIC).
- Policitemia = hematócrito VENOSO > 65%; tratar com exsanguíneo parcial se
sintomática.
- Anemia: definir o mecanismo (perda, hemólise, produção) antes de transfundir.
- Sangramento com TP/TTPA alargados e plaquetas NORMAIS = deficiência de
vitamina K (≠ CIVD).
Pontos-chave para residência e ENAMED
- Os 4 quadros têm condutas OPOSTAS — anemia (transfundir) × policitemia
(diluir/exsanguíneo parcial); plaquetopenia (repor plaquetas) × doença hemorrágica (repor vitamina K/fatores).
- DOENÇA HEMORRÁGICA: TP e TTPA alargados com PLAQUETAS NORMAIS;
na CIVD, as plaquetas também caem (diferencial clássico de prova).
- Profilaxia universal da vitamina K (1 mg IM); a forma TARDIA (2–12 sem) liga-se a
aleitamento exclusivo sem profilaxia e à colestase, com alto risco de hemorragia intracraniana.
- Policitemia: usar hematócrito VENOSO (> 65%) — o capilar superestima. Filho de
mãe diabética e PIG/RCIU são causas típicas.
- Trombocitopenia ALOIMUNE neonatal é a principal causa de HIC no RN a termo
previamente hígido.
- Anemia da prematuridade: eritropoetina baixa + coletas repetidas; manejo com
limiares de transfusão e ferro 2–4 mg/kg/dia.
Referências (ABNT NBR 14724) 1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Distúrbios hematológicos do recém-nascido. Documento
Científico.
2. AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Controversies concerning vitamin K and the newborn.
Pediatrics.
3. CLOHERTY, J. P. et al. Manual de Neonatologia. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.
Casos clínicos (estilo ENAMED) Caso 1 RN nascido em parto domiciliar, que não recebeu vitamina K, apresenta no 3º dia sangramento pelo coto umbilical e melena. TP e TTPA alargados, plaquetas normais.
Questão 1. Diagnóstico mais provável?
(A) Sepse com CIVD (B) Doença hemorrágica do recém-nascido (deficiência de vitamina K) (C) Plaquetopenia imune (D) Hemofilia (E) Deficiência de fator XIII
Questão 2. Conduta?
(A) Apenas observação (B) Vitamina K 1 mg IV/IM e, no sangramento ativo, plasma fresco congelado (C) Transfusão de plaquetas isolada (D) Corticoide (E) Heparina
Questão 3. Que medida teria prevenido o quadro?
(A) Vitamina K 1 mg IM ao nascer (B) Antibiótico profilático (C) Ferro oral precoce (D) Fototerapia (E) Restrição hídrica
Caso 2 RN a termo, filho de mãe diabética, apresenta-se pletórico, com letargia e hipoglicemia. O hematócrito venoso é de 70%.
Questão 4. Diagnóstico?
(A) Anemia (B) Policitemia neonatal (C) Meta-hemoglobinemia (D) Desidratação isolada (E) Sepse
Questão 5. Tratamento se sintomático?
(A) Transfusão de hemácias (B) Exsanguineotransfusão parcial (com soro fisiológico) (C) Vitamina K (D) Ferro oral (E) Diurético
Questão 6. Complicação associada à policitemia?
(A) Hipernatremia isolada (B) Hiperviscosidade com trombose e enterocolite (C) Catarata (D) Surdez (E) Anquiloglossia
Gabarito comentado Questão 1 — Resposta: B Sangramento com TP/TTPA alargados e plaquetas normais, em RN sem vitamina K, é a doença hemorrágica do RN. Questão 2 — Resposta: B Vitamina K (1 mg IV/IM) e plasma fresco congelado no sangramento ativo. Questão 3 — Resposta: A A profilaxia com vitamina K 1 mg IM ao nascer previne a doença hemorrágica. Questão 4 — Resposta: B Pletora, letargia, hipoglicemia e Ht venoso > 65% definem policitemia neonatal. Questão 5 — Resposta: B A policitemia sintomática trata-se com exsanguineotransfusão parcial, reduzindo o hematócrito. Questão 6 — Resposta: B A hiperviscosidade associa-se a trombose, enterocolite e sequelas neurológicas. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.