1. Importância do tema na Pediatria
A convulsão neonatal é uma emergência neurológica e marcador de doença subjacente (sobretudo EHI). Muitas crises são apenas eletrográficas; o reconhecimento e o tratamento precoces, após a correção das causas reversíveis, influenciam o prognóstico.
2. Avaliação inicial
Reconhecer os tipos de crise (sutis são as mais comuns), dosar imediatamente glicemia e cálcio à beira-leito e instituir monitorização por EEG/aEEG, pois muitas crises não têm correlato clínico.
3. Fisiopatologia aplicada
O cérebro neonatal é mais excitável (predomínio da neurotransmissão excitatória; o GABA ainda tem efeito parcialmente despolarizante), o que favorece crises. As causas incluem EHI (mais comum), acidente vascular/isquemia, hemorragia, infecções
(meningite/encefalite), — distúrbios — metabólicos — (hipoglicemia, — hipocalcemia,
hipomagnesemia, hiponatremia), erros inatos, dependência de piridoxina, malformações e abstinência. Implicações: corrigir causas reversíveis é prioridade, e o EEG/aEEG é essencial.
4. Diagnóstico
Critérios clínicos
Crises sutis (movimentos oculares, — mastigação, — pedalar, — apneia), — clônicas
focais/multifocais, tônicas e mioclônicas.
Exames essenciais
| Exame | Utilidade |
|---|---|
| Glicemia, cálcio, | Causas reversíveis (correção imediata) |
eletrólitos, magnésio
| EEG / aEEG | Confirma crises (inclusive subclínicas) e a atividade de base |
|---|---|
| Neuroimagem (US/RM) | Hemorragia, isquemia, malformação |
| Líquor e triagem | Meningite/encefalite; erros inatos |
Exame — Utilidade
metabólica
EEG e aEEG — o que são e por que importam Como muitas crises neonatais não têm expressão clínica (são apenas eletrográficas), a monitorização da atividade elétrica cerebral é essencial. Há duas modalidades, complementares entre si:
- EEG convencional: registro da atividade elétrica cerebral por múltiplos eletrodos
(montagem completa), idealmente com vídeo sincronizado (vídeo-EEG). É o padrão-ouro para confirmar e localizar as crises (inclusive as subclínicas) e para avaliar a atividade de base, que tem valor prognóstico. Exige técnico e interpretação por neurofisiologista.
- aEEG: EEG de amplitude integrada — monitorização contínua à beira-leito, com
| poucos eletrodos (1–2 canais), em que o sinal é filtrado, retificado, comprimido no tempo e integrado, gerando uma “faixa” de tendência ao longo de horas. Permite que a própria equipe da UTI acompanhe a atividade de base e detecte crises; os padrões da base (contínuo, descontínuo, surto-supressão, baixa voltagem, inativo) ajudam no prognóstico (ex.: na EHI). EEG convencional (vídeo- | ||
|---|---|---|
| Aspecto | aEEG (amplitude integrada) EEG) | |
| Eletrodos | Múltiplos (montagem completa) | Poucos (1–2 canais) |
| Onde / quem | Laboratório ou leito; técnico + neurofisiologista | Beira-leito; equipe da própria UTI |
| Apresentação | Traçado em tempo real (± vídeo) | Faixa de tendência comprimida no tempo |
| Pontos fortes | Padrão-ouro; localiza e caracteriza as crises | Contínuo, simples; detecta crises e avalia a base |
| Limitações | Disponibilidade e interpretação especializada | Poucos canais → pode perder crises focais/breves |
Na prática: o aEEG é excelente para a monitorização contínua à beira-leito; quando disponível, o EEG convencional confirma e caracteriza as crises. Um não substitui o outro.
5. Conduta e tratamento
1. 1 — corrigir causas reversíveis: glicose 10% 2 mL/kg IV se hipoglicemia; gluconato de cálcio 10% 1–2 mL/kg se hipocalcemia; magnésio; piridoxina 100 mg IV se refratária. 2. 2 — 1ª linha: fenobarbital 20 mg/kg IV (repetir 10 mg/kg até 40 mg/kg). 3. 3 — 2ª linha: fenitoína/fosfenitoína 20 mg/kg, levetiracetam 40–60 mg/kg, midazolam (infusão) na refratária.
Doses (protocolo medicamentoso)
| Medicação | Dose | Apresentação | Observações |
|---|---|---|---|
| Fenobarbital (1ª | Ataque 20 mg/kg IV; até | Solução injetável | Vigiar depressão |
| linha) | 40 mg/kg; manutenção 3–5 mg/kg/dia | respiratória | |
| Fenitoína/ | 20 mg/kg IV | Solução injetável | Monitorização |
| fosfenitoína | cardíaca | ||
| Levetiracetam | 40–60 mg/kg IV de ataque | Solução IV/oral | Alternativa |
| Midazolam | Bólus + infusão contínua | Solução injetável | Refratárias |
| Piridoxina (B6) | 100 mg IV refratária | Solução injetável | Teste na |
As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre em formulário neonatal (ex.: Neofax) e no protocolo da sua unidade antes de prescrever.
Fluxograma terapêutico (resumo)
1. Passo 1 — crise → glicemia e cálcio à beira-leito → corrigir o que estiver alterado.
6. Passo 2 — crises persistentes → fenobarbital 20 mg/kg (até 40).
3. Passo 3 — refratárias → 2ª linha e teste de piridoxina; investigar erro inato.
7. Comparação de protocolos
Os protocolos da SBP, AAP, NICE, AEP, Oxford (Oxford Handbook), Harvard (Cloherty and Stark's) e do Ministério da Saúde do Brasil convergem nos pontos abaixo; as divergências são pontuais.
- Convergências: corrigir as causas metabólicas primeiro; fenobarbital como 1ª
linha; tratar também as crises eletrográficas.
- Divergências (pontuais): fenobarbital × levetiracetam como 1ª linha (ensaios
como o NEOLEV2 favorecem o fenobarbital) e a duração da manutenção.
8. Critérios de internação
- UTI: toda convulsão neonatal é manejada em UTI neonatal, com monitorização.
9. Complicações
- Estado de mal epiléptico, lesão neuronal adicional, sequelas do
neurodesenvolvimento e epilepsia.
10. Erros comuns
- não dosar glicemia/cálcio; iniciar anticonvulsivante sem corrigir a causa
metabólica; não monitorar por EEG; subtratar crises subclínicas.
11. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)
- Glicemia e cálcio à beira-leito ANTES de tudo — causas reversíveis primeiro.
- Muitas crises são subclínicas: EEG/aEEG é essencial.
- Fenobarbital é a 1ª linha (ataque 20 mg/kg, até 40 mg/kg).
- Refratária: testar piridoxina e investigar erro inato.
Referências (ABNT NBR 14724) 1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Convulsão neonatal. Documento Científico. 2. INTERNATIONAL LEAGUE AGAINST EPILEPSY (ILAE). Classificação das crises neonatais. 3. CLOHERTY, J. P. et al. Manual de Neonatologia. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.
Casos clínicos (estilo ENAMED) Caso 1 RN a termo, filho de mãe diabética, com 36 horas de vida, apresenta tremores, apneia e movimentos de pedalar. Glicemia capilar 25 mg/dL.
Questão 1. Qual a primeira conduta?
(A) Iniciar fenobarbital antes de qualquer correção (B) Corrigir a hipoglicemia com glicose 10% (2 mL/kg IV) e investigar distúrbios metabólicos (C) Tomografia de crânio antes de tratar (D) Dieta zero por 24 h (E) Diazepam contínuo
Questão 2. Persistindo as crises, qual a 1ª linha e a dose de ataque?
(A) Fenitoína 5 mg/kg (B) Fenobarbital 20 mg/kg IV (C) Levetiracetam 10 mg/kg (D) Diazepam 0,5 mg/kg (E) Midazolam 0,02 mg/kg única
Questão 3. Tipo de crise mais frequente no período neonatal?
(A) Tônico-clônica generalizada (B) Crises sutis (oculares, mastigação, pedalar, apneia) (C) Ausência típica (D) Espasmos em flexão (E) Atônica
Caso 2 RN a termo com asfixia evolui com crises persistentes apesar de fenobarbital e fenitoína; glicemia, cálcio, magnésio e eletrólitos normais; aEEG com crises eletrográficas frequentes.
Questão 4. Qual teste terapêutico está indicado?
(A) Bicarbonato de sódio (B) Piridoxina (vitamina B6) 100 mg IV (C) Furosemida (D) Sulfato de magnésio em dose alta (E) Manitol
Questão 5. Justificativa para a monitorização por EEG/aEEG?
(A) Avaliar função renal (B) Muitas crises são apenas eletrográficas (subclínicas) (C) Confirmar a idade gestacional (D) Substituir a glicemia
(E) Dispensar a investigação etiológica
Questão 6. Causa mais comum de convulsão neonatal?
(A) Hipocalcemia (B) Encefalopatia hipóxico-isquêmica (C) Malformação cortical (D) Abstinência (E) Meningite
Gabarito comentado Questão 1 — Resposta: B Corrige-se a causa reversível primeiro: glicose 10% 2 mL/kg IV seguida de infusão; anticonvulsivante só se persistir. Questão 2 — Resposta: B Fenobarbital é a 1ª linha: ataque 20 mg/kg IV (até 40 mg/kg). Questão 3 — Resposta: B Predominam as crises sutis no recém-nascido. Questão 4 — Resposta: B Em crises refratárias com metabólico normal, indica-se a piridoxina 100 mg IV. Questão 5 — Resposta: B Muitas crises são subclínicas; sem EEG/aEEG passariam despercebidas. Questão 6 — Resposta: B A EHI é a causa mais comum de convulsão neonatal. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.