Neonatologia · Cardiologia

Cardiopatias Congênitas Cianóticas

Principais lesões cianóticas

1. Importância do tema na Pediatria

As cardiopatias congênitas afetam cerca de 8 a 10 em cada 1.000 nascidos vivos; as formas cianóticas estão entre as cardiopatias críticas que se manifestam no período neonatal e dependem de reconhecimento precoce para a sobrevida. O atraso diagnóstico — especialmente nas lesões canal-dependentes — leva a colapso ao fechamento do canal arterial. É tema frequente nas provas pela necessidade de raciocínio rápido (cianose que não melhora com oxigênio).

2. Avaliação inicial

Diante de cianose central, avaliar a saturação pré e pós-ductal, a resposta ao oxigênio, os pulsos, a presença de sopro, a perfusão e o padrão respiratório. A cianose desproporcional à doença pulmonar, que não melhora com O₂, é o sinal de alerta. O teste do coraçãozinho (oximetria) auxilia a triagem no berçário.

3. Fisiopatologia aplicada

A cianose central resulta de sangue desoxigenado que chega à circulação sistêmica, por shunt direita-esquerda ou por mistura. Classificam-se pelo fluxo pulmonar (diminuído × aumentado). Muitas lesões são canal-dependentes — o canal arterial mantém o fluxo pulmonar ou a mistura; seu fechamento causa deterioração. Implicação direta no manejo: manter o canal aberto com prostaglandina E1.

Cianóticas com fluxo pulmonar DIMINUÍDO

CardiopatiaCaracterística
Tetralogia de FallotEstenose pulmonar + CIV + dextroposição da aorta + hipertrofia de VD; crises hipercianóticas
Atresia pulmonarSem via de saída pulmonar; fluxo pulmonar canal- dependente
Atresia tricúspideAusência da valva tricúspide; depende de CIA/CIV e do canal
Anomalia de EbsteinTricúspide de implantação baixa com regurgitação; átrio direito gigante

Cianóticas com fluxo pulmonar AUMENTADO (mistura)

CardiopatiaCaracterística
Transposição das grandesCirculações em paralelo; sobrevive pela mistura
artérias(canal/forame); cianose precoce e grave
Tronco arterial comumVaso único origina aorta e pulmonar; mistura com hiperfluxo
Drenagem venosa pulmonarVeias pulmonares drenam à direita; mistura
anômala totalobrigatória; pode obstruir
Ventrículo único / DORV;Mistura intracardíaca; HLHS com fluxo sistêmico
coração esquerdocanal-dependente

hipoplásico

4. Diagnóstico

Critérios clínicos Cianose central que não melhora com O₂ a 100% (teste da hiperóxia). Pode haver sopro, taquipneia sem grande esforço, diferença de saturação pré/pós-ductal.

Exames essenciais

ExameAchado / utilidade
Teste da hiperóxiaPaO₂ não sobe significativamente com O₂ a 100% (causa cardíaca)
EcocardiogramaPadrão-ouro: define a anatomia e a canal-dependência
Radiografia de tórax“Ovo deitado” (TGA), “coração em bota” (Fallot), “boneco de neve” (DVPAT)
Oximetria pré/pós-ductal eTriagem e gravidade

índice de oxigenação

Eletrocardiograma — Sobrecarga de câmaras conforme a lesão

5. Conduta e tratamento

1. 1 — estabilizar (vias aéreas, temperatura, glicemia) e obter ecocardiograma. 2. 2 — suspeita de lesão canal-dependente → iniciar prostaglandina E1 para manter o canal aberto. 3. 3 — transposição → atriosseptostomia com balão (Rashkind) e cirurgia de Jatene. 4. 4 — crise hipercianótica (Fallot) → joelho-tórax, oxigênio, morfina, volume, ± beta- bloqueador.

Doses (protocolo medicamentoso)

MedicaçãoDoseApresentaçãoObservações
AlprostadilIniciar 0,01 mcg/kg/minInfusão IVMantém o canal
(PGE1)(10 ng/kg/min); faixacontínuaaberto; risco de
MedicaçãoDose 0,005–0,05Apresentação apneiaObservações
Morfina (crise de0,1–0,2 mg/kg IV/IM/SCSolução injetávelReduz o espasmo
Fallot)infundibular
Propranolol0,01–0,25 mg/kg IV lentoSolução/Beta-bloqueio;
(crise/profilaxia)(ou VO)comprimidomonitorização

As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre em formulário neonatal (ex.: Neofax) e no protocolo da sua unidade antes de prescrever.

Fluxograma terapêutico (resumo)

6. Passo 1 — cianose que não melhora com O₂ → suspeitar de cardiopatia.

7. Passo 2 — ecocardiograma + iniciar PGE1 se canal-dependente.

3. Passo 3 — estabilizar e transferir para centro com cirurgia cardíaca.

8. Comparação de protocolos

Os protocolos da SBP, AAP, NICE, AEP, Oxford (Oxford Handbook), Harvard (Cloherty and Stark's) e do Ministério da Saúde do Brasil convergem nos pontos abaixo; as divergências são pontuais e relativas a detalhes de manejo.

diagnóstico; PGE1 para lesões canal-dependentes; referência precoce a centro terciário.

distintas) e a estratégia cirúrgica específica de cada lesão.

9. Critérios de internação

transferência para centro com cirurgia cardíaca pediátrica.

cardiológico após a correção.

10. Complicações

óbito sem intervenção oportuna.

11. Erros comuns

pensar em cardiopatia; deixar o canal fechar; atrasar o ecocardiograma e a transferência.

12. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

pulmonar anômalo total.

crises hipercianóticas.

Referências (ABNT NBR 14724) 1. ABMAN, S. H. et al. Pediatric Pulmonary Hypertension: Guidelines (AHA/ATS). Circulation, v. 132,

2015.

2. CLOHERTY, J. P. et al. Manual de Neonatologia. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. 3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Cardiopatias congênitas no período neonatal.

Documento Científico.

4. REBELO, M. et al. Oxford Handbook of Neonatology. 2. ed. Oxford: Oxford University Press. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.

Casos clínicos (estilo ENAMED) Caso 1 RN a termo com cianose central intensa nas primeiras horas, que não melhora com O₂ a 100%. Radiografia com silhueta em “ovo deitado” e mediastino estreito; ecocardiograma confirma transposição das grandes artérias.

Questão 1. O que o teste da hiperóxia (sem melhora da PaO₂ com O₂ a 100%) indica?

(A) Causa pulmonar (B) Causa cardíaca (cardiopatia cianótica) (C) Anemia grave (D) Metemoglobinemia exclusivamente (E) Hipoglicemia

Questão 2. Qual a conduta medicamentosa imediata?

(A) Ibuprofeno para fechar o canal (B) Prostaglandina E1 para manter o canal aberto (C) Furosemida em bólus (D) Beta-bloqueador (E) O₂ a 100% como tratamento definitivo

Questão 3. Qual procedimento melhora a mistura na transposição até a cirurgia?

(A) Pericardiocentese (B) Atriosseptostomia com balão (Rashkind) (C) Drenagem torácica (D) Ablação (E) Exsanguineotransfusão

Caso 2 Lactente com tetralogia de Fallot apresenta, ao chorar, crise de cianose intensa, irritabilidade e queda da saturação.

Questão 4. Qual a primeira medida não farmacológica?

(A) Posição joelho-tórax e oxigênio (B) Sentar ereto (C) Estimular o choro (D) Hiperventilar com balão (E) Decúbito ventral

Questão 5. Qual medicação ajuda a abortar a crise e em que dose?

(A) Adrenalina 0,1 mg/kg (B) Morfina 0,1–0,2 mg/kg (C) Furosemida 2 mg/kg (D) Digoxina em bólus (E) Salbutamol inalatório

Questão 6. Qual o achado radiológico clássico da Tetralogia de Fallot?

(A) “Ovo deitado” (B) “Coração em bota” (C) “Boneco de neve” (D) Cardiomegalia globosa (E) Mediastino em “8”

Gabarito comentado Questão 1 — Resposta: B Na cardiopatia cianótica a PaO₂ praticamente não sobe com O₂ a 100% (teste da hiperóxia). Questão 2 — Resposta: B A transposição é canal-dependente; a PGE1 mantém o canal aberto e a mistura até a intervenção. Questão 3 — Resposta: B A atriosseptostomia de Rashkind amplia a comunicação interatrial e melhora a mistura até a cirurgia de Jatene. Questão 4 — Resposta: A Joelho-tórax aumenta a resistência sistêmica e o retorno venoso; associa-se oxigênio. Questão 5 — Resposta: B Morfina 0,1–0,2 mg/kg reduz o espasmo infundibular e o esforço; volume e beta-bloqueador também são usados. Questão 6 — Resposta: B A Tetralogia de Fallot tem a silhueta em “coração em bota”. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.