Neonatologia · Malformações, Genética e Cirurgia

Avaliação Dismorfológica do RN

Abordagem do RN com malformações e síndromes

1. Importância do tema na Pediatria

A avaliação dismorfológica organiza o raciocínio diante do RN com anomalias congênitas: classificar os achados, reconhecer padrões (síndromes) e orientar a investigação e o aconselhamento genético. Os conceitos (malformação, deformação, disrupção, displasia; sequência × síndrome × associação) e as principais cromossomopatias são clássicos de prova.

2. Avaliação inicial

História gestacional/familiar (consanguinidade, perdas, exposições, oligo/polidrâmnio), exame físico SISTEMÁTICO (medidas, fácies, mãos/pés, coluna, genitália, órgãos internos por imagem) e a distinção entre anomalias MAIORES (impacto funcional/cirúrgico) e MENORES (pistas diagnósticas). Fotografar e medir ajuda a reconhecer padrões.

3. Conceitos fundamentais

TermoDefinição
MalformaçãoDefeito intrínseco da morfogênese (ex.: cardiopatia, fenda)
DeformaçãoForma alterada por força mecânica externa sobre estrutura normal (ex.: pé torto por oligoâmnio)
DisrupçãoDestruição de tecido previamente normal (ex.: bridas amnióticas)
DisplasiaOrganização anormal das células em tecidos (ex.: displasias esqueléticas)
SequênciaCascata de eventos a partir de UMA anomalia inicial (ex.: Pierre Robin; sequência de Potter)
SíndromeConjunto de anomalias com causa comum conhecida (ex.: Down)
AssociaçãoAnomalias que ocorrem juntas mais que o acaso, sem causa única (ex.: VACTERL)

4. Diagnóstico — investigação

ExameUtilidade
CariótipoCromossomopatias numéricas/estruturais (Down, Edwards, Patau, Turner)
Microarray (CGH-array)Microdeleções/duplicações não vistas no cariótipo
Painéis/sequenciamentoDoenças monogênicas

(quando indicado)

Imagem (ecocardiograma, — Anomalias internas e esqueléticas

US, RM, RX)

5. Conduta

1. 1 — descrever objetivamente os achados (sem “rotular” precocemente) e classificar (maior/menor; malformação/deformação/etc.). 2. 2 — investigar conforme a hipótese (cariótipo/microarray, imagem, avaliação de órgãos) e envolver a genética clínica. 3. 3 — manejar as anomalias com risco de vida, oferecer aconselhamento genético e seguimento multidisciplinar.

Principais cromossomopatias

SíndromeAchados típicos
Down (T21)Hipotonia, fácies típica, prega palmar única, cardiopatia (DSAV), risco de atresia duodenal
Edwards (T18)Mãos cerradas com sobreposição de dedos, pés em mata- borrão, microngnatia; alta letalidade
Patau (T13)Holoprosencefalia, fenda labiopalatina, polidactilia, defeitos de linha média; alta letalidade
Turner (45,X)Menina com linfedema, pescoço alado, coarctação; baixa estatura

Fluxograma (resumo)

6. Passo 1 — anomalias → descrever + classificar (maior/menor; tipo).

2. Passo 2 — reconhecer padrão (sequência/síndrome/associação) → investigar (cariótipo/microarray/imagem).

7. Passo 3 — manejar, aconselhar e seguir com a genética.

8. Comparação de protocolos

Os protocolos da SBP, AAP, NICE, AEP, Oxford (Oxford Handbook), Harvard (Cloherty and Stark's) e do Ministério da Saúde do Brasil convergem nos pontos abaixo; as divergências são pontuais.

cariótipo/microarray na investigação; envolvimento da genética e aconselhamento.

microarray × sequenciamento) conforme disponibilidade.

9. Critérios de internação

unidade neonatal; demais casos → seguimento ambulatorial com genética.

10. Complicações

neurológicas) e do impacto no neurodesenvolvimento; importância do aconselhamento.

11. Erros comuns

(mecânica) com malformação (intrínseca); não pesquisar anomalias internas associadas; não oferecer aconselhamento genético.

12. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

(destruição) × displasia (tecidual).

única, ex.: VACTERL).

diagnósticas.

Pontos-chave para residência e ENAMED

(força mecânica, ex.: oligoâmnio) × DISRUPÇÃO (bridas amnióticas) × DISPLASIA (organização tecidual).

(causa comum: Down) × ASSOCIAÇÃO (VACTERL, CHARGE).

anomalias INTERNAS associadas.

bolha”). EDWARDS (T18): mãos cerradas/dedos sobrepostos. PATAU (T13):

holoprosencefalia, polidactilia, fenda.

sequenciamento (monogênicas); sempre com genética e aconselhamento.

Referências (ABNT NBR 14724)

13. JONES, K. L. Smith's Recognizable Patterns of Human Malformation.

2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Abordagem do recém-nascido com malformações.

Documento Científico.

3. AMERICAN COLLEGE OF MEDICAL GENETICS. Diretrizes de investigação genética. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.

Casos clínicos (estilo ENAMED) Caso 1 RN com hipotonia, fácies característica, prega palmar transversa única e sopro cardíaco. O ecocardiograma mostra defeito do septo atrioventricular.

Questão 1. Hipótese diagnóstica?

(A) Síndrome de Edwards (B) Síndrome de Down (trissomia do 21) (C) Síndrome de Patau (D) Síndrome de Turner (E) Sequência de Potter

Questão 2. Exame para confirmar a cromossomopatia?

(A) Hemograma (B) Cariótipo (C) Radiografia (D) EEG (E) Dosagem de TSH

Questão 3. Malformação gastrointestinal classicamente associada?

(A) Atresia de esôfago (B) Atresia duodenal (sinal da dupla bolha) (C) Onfalocele (D) Gastrosquise (E) Ânus imperfurado isolado

Caso 2 RN com pé torto bilateral e contraturas, em gestação com oligoâmnio acentuado por agenesia renal; fácies comprimida e hipoplasia pulmonar.

Questão 4. Como classificar o pé torto nesse contexto?

(A) Malformação intrínseca (B) Deformação (força mecânica por oligoâmnio) (C) Disrupção (D) Displasia (E) Associação

Questão 5. Como se chama a cascata de eventos a partir do oligoâmnio por agenesia renal?

(A) Síndrome de Down (B) Sequência de Potter (C) Associação VACTERL (D) Síndrome de Turner (E) Sequência de Pierre Robin

Questão 6. Conjunto de anomalias sem causa única, que ocorrem juntas mais que o acaso, denomina-se:

(A) Síndrome (B) Associação (ex.: VACTERL) (C) Sequência (D) Deformação (E) Displasia

Gabarito comentado Questão 1 — Resposta: B Hipotonia, fácies típica, prega única e DSAV sugerem síndrome de Down. Questão 2 — Resposta: B O cariótipo confirma a trissomia do 21. Questão 3 — Resposta: B A atresia duodenal (dupla bolha) associa-se à síndrome de Down. Questão 4 — Resposta: B O pé torto por oligoâmnio é uma deformação (força mecânica sobre estrutura normal). Questão 5 — Resposta: B A agenesia renal → oligoâmnio → compressão = sequência de Potter. Questão 6 — Resposta: B Anomalias que ocorrem juntas sem causa única são uma associação (ex.: VACTERL). Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.