Neonatologia · Neurologia

Asfixia Perinatal e Encefalopatia Hipóxico-Isquêmica

EHI e hipotermia terapêutica

1. Dados rápidos

DefiniçãoLesão cerebral por hipóxia-isquemia perinatal, com encefalopatia clínica
GravidadeEstadiada por Sarnat modificado (I–III) e/ou escore de Thompson
Janela terapêuticaHipotermia iniciada nas primeiras 6 horas de vida
Alvo / duração33,5 °C por 72 h, em RN ≥ 36 semanas com EHI moderada/grave

2. Fisiopatologia

A lesão cerebral na EHI não é um evento único e instantâneo, mas um processo que evolui em fases ao longo do tempo. A hipóxia-isquemia inicial desencadeia uma cascata bioquímica (falência energética, entrada de cálcio, excitotoxicidade pelo glutamato, estresse oxidativo, inflamação e morte celular por apoptose e necrose). Compreender as fases e os seus tempos é o que explica a existência de uma janela terapêutica para a hipotermia.

FaseTempoEventos principais
Falência energéticaDurante e logoQueda de ATP, metabolismo anaeróbio e
primáriaapós o insulto (minutos) de glutamato (excitotoxicidade) e edema citotóxicoacidose lática, despolarização de membrana, entrada de cálcio, liberação
Fase latente≈ 1 a 6 horas oxidativo (reperfusão); porém já se ativam as cascatas de morte celular — é a JANELA TERAPÊUTICA da hipotermiaRecuperação parcial do metabolismo
Falência energética≈ 6 a 48 horasDisfunção mitocondrial, novo edema
secundária(pico 24–48 h) oxidativo, inflamação e apoptose/necrose — responde por grande parte da lesão e correlaciona-se com o prognósticocitotóxico, excitotoxicidade, estresse
Lesão terciáriaDias a meses/anosInflamação persistente, alterações epigenéticas, prejuízo da neurogênese e

Fase — Tempo remodelamento — influencia o desfecho a longo prazo — Eventos principais

A hipotermia terapêutica atua sobretudo na fase latente e atenua a falência energética secundária (reduz o metabolismo cerebral, a excitotoxicidade, o estresse oxidativo e a apoptose). Por isso deve ser iniciada DENTRO da janela de ~6 horas — ou seja, antes de instalada a falência energética secundária.

3. Diagnóstico

necessidade de reanimação e disfunção de múltiplos órgãos.

classificar por Sarnat/Thompson.

Exames e achados esperados

ExameAchado esperado
Gasometria de cordão / 1ªAcidose metabólica (pH ≤ 7,0; BE ≤ −12)

hora

EEG / aEEGAtividade de base deprimida; surtos-supressão; crises
Ressonância magnéticaLesão de gânglios da base/tálamo ou cortical (melhor entre 4–7 dias)
Função orgânicaLesão renal, hepática, cardíaca e coagulopatia (avaliar)

Hipotermia terapêutica Indicada quando há critério A (pelo menos um) somado a critério B, em RN ≥ 36 semanas, iniciada em até 6 horas de vida:

CritérioConteúdo
A — evento/depressãopH ≤ 7,0 ou BE ≤ −12 (cordão/1ª h); OU Apgar ≤ 5 no 10º min; OU reanimação/ventilação ainda necessária no 10º min
B — encefalopatiaEHI moderada ou grave (Sarnat II–III) ou convulsões

seguido de reaquecimento lento (~0,5 °C/h).

hipocapnia e hipoglicemia; monitorar e tratar convulsões.

Suporte e medicações O tratamento é, sobretudo, de suporte intensivo: ventilação protetora, manutenção da pressão arterial e da perfusão, controle glicêmico e eletrolítico, manejo de coagulopatia e tratamento das convulsões.

MedicaçãoDoseApresentaçãoObservações
FenobarbitalAtaque 20 mg/kg IV (repetir 10 mg/kg até 40 mg/kg); manutenção 3–5 mg/kg/diaSolução injetável convulsões (ver documento próprio)1ª linha para
Fentanil / morfinaConforme protocolo da UTIN (reduz estresse do frio)Solução injetável a hipotermiaConforto durante

As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre em formulário neonatal (ex.: Neofax) e no protocolo da sua unidade antes de prescrever.

4. Complicações

déficit cognitivo, surdez, epilepsia) e óbito.

Pontos-chave

convulsões.

prognóstico.

Fontes de referência (institucionais) 1. SBP — Sociedade Brasileira de Pediatria (Programa de Reanimação Neonatal; Documentos de

Neonatologia).

2. AAP — American Academy of Pediatrics (Therapeutic Hypothermia for Neonatal HIE, 2025; Red

Book).

3. NICE — National Institute for Health and Care Excellence (NG195; encefalopatia neonatal).

5. AEP — Asociación Española de Pediatría (Protocolos de Neonatología).

5. Oxford — Oxford Handbook of Neonatology (Oxford University Press); CEBM. 6. Harvard — Cloherty and Stark's Manual of Neonatal Care (Harvard / Boston Children's Hospital).

Referências específicas 7. American Academy of Pediatrics. Therapeutic Hypothermia for Neonatal Hypoxic-Ischemic

Encephalopathy: Clinical Report. Pediatrics. 2025.

8. Sarnat HB, Sarnat MS (1976); Thompson CM (1997) — estadiamento da EHI.

Casos clínicos (estilo ENAMED) Caso 1 RN a termo (40 semanas), nascido em parto domiciliar e transportado à maternidade, chega com 1 hora de vida hipoativo. Gasometria da 1ª hora: pH 6,95 e BE −18. Ao exame: estupor, flacidez generalizada, reflexos de sucção e Moro ausentes, pupilas pouco reativas; apresentou uma convulsão durante a admissão. Questão 1. Qual a classificação da encefalopatia e a conduta inicial mais adequada?

(A) Sarnat I (leve); apenas observação clínica, sem hipotermia (B) Sarnat III (grave); indicar hipotermia terapêutica se ≥ 36 semanas e dentro das 6 horas de vida, com suporte intensivo (C) Encefalopatia não classificável; iniciar corticoide em altas doses (D) Sarnat II (moderado); aquecer ativamente o paciente até 38 °C (E) Quadro sem indicação de resfriamento, pois há convulsão

Caso 2 RN de 38 semanas com asfixia perinatal e encefalopatia moderada (Sarnat II) é transferido de outro serviço e chega à unidade com 8 horas de vida, estável hemodinamicamente. A equipe questiona se ainda deve iniciar a hipotermia terapêutica. Questão 2. Qual a conduta mais apropriada quanto à hipotermia neste momento?

(A) Iniciar a hipotermia imediatamente, pois não há limite de tempo (B) Iniciar a hipotermia e mantê-la por apenas 24 horas para compensar o atraso (C) A janela recomendada é de até 6 horas; após esse período o benefício não está estabelecido — a decisão deve ser individualizada, mantendo suporte intensivo e evitando hipertermia (D) Resfriar a 30 °C para “recuperar” o tempo perdido (E) Está formalmente contraindicado qualquer cuidado neuroprotetor após 6 horas

Gabarito comentado Questão 1 — Resposta: B Estupor/coma, flacidez, reflexos ausentes e convulsão caracterizam encefalopatia grave (Sarnat III). Com acidose importante (pH 6,95; BE −18) — critério A — e encefalopatia moderada/grave — critério B —, há indicação de hipotermia terapêutica em RN ≥ 36 semanas, desde que iniciada em até 6 horas, sempre com suporte intensivo. Aquecer ou observar isoladamente seria inadequado. Questão 2 — Resposta: C A hipotermia tem benefício comprovado quando iniciada nas primeiras 6 horas. Após esse período (8 horas, no caso), o benefício não está estabelecido pelas evidências; a decisão é individualizada (discussão com o serviço de referência e a família), mantendo-se o suporte intensivo e, fundamentalmente, evitando a hipertermia. Resfriar abaixo do alvo ou encurtar o tempo não se justifica. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Critérios de resfriamento e idade gestacional mínima podem variar entre protocolos (alguns ≥ 35 sem).