Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.
1. Introdução e Importância Clínica
As doenças alérgicas representam uma das condições crônicas mais comuns na infância, com uma prevalência que triplicou nas últimas décadas. Em pediatria, o conceito de Marcha Atópica é fundamental: a progressão sequencial de Dermatite Atópica, Asma e Ririte. O reconhecimento precoce e o manejo adequado impactam não apenas a morbidade imediata, mas o envolvimento pulmonar e a qualidade de vida a longo prazo. A asma é a principal doença crônica das crianças.
2. Definição e Conceitos Fundamentais
Hipersensibilidade: Resposta imunológica excessiva a um antígeno.
Alergia: Reação de hipersensibilidade iniciada por mecanismos imunológicos específicos (IgE-mediada ou não IgE-mediada).
Atopia: Predisposição genética para produzir anticorpos IgE em resposta a alérgenos.
Anafilaxia: Reação sistêmica grave, de início rápido, potencialmente fatal.
Classificação de Gell e Coombs (proposta originalmente em 1963) é o sistema fundamental utilizado para categorizar as reações de hipersensibilidade do sistema imunológico:
Tipo I: Hipersensibilidade Imediata (Anafilática)
Esta reação ocorre quase instantaneamente após a exposição a um antígeno ao qual o indivíduo já foi sensibilizado.
Mediador principal: Anticorpos IgE.
Mecanismo: O antígeno liga-se às moléculas de IgE fixadas na superfície de mastócitos e basófilos, provocando a degranulação e liberação de mediadores químicos (como a histamina).
Exemplos clínicos
Anafilaxia.
Asma brônquica (alérgica).
Rinite alérgica.
Urticária.
Tipo II: Hipersensibilidade Citotóxica
Envolve a ligação de anticorpos diretamente a antígenos presentes na superfície celular ou em tecidos.
Mediadores principais: Anticorpos IgG e IgM.
Mecanismo: A ligação do anticorpo ativa o sistema complemento ou promove a citotoxicidade celular dependente de anticorpos (ADCC), levando à destruição da célula-alvo.
Exemplos clínicos
Reações transfusionais hemolíticas.
Eritroblastose fetal (incompatibilidade Rh).
Anemia hemolítica autoimune.
Febre reumática (danos às válvulas cardíacas).
Tipo III: Hipersensibilidade por Imunocomplexos
Ocorre quando complexos antígeno-anticorpo (imunocomplexos) solúveis se depositam nos tecidos, em vez de serem removidos da circulação.
Mediadores principais: Anticorpos IgG, IgM e Sistema Complemento.
Mecanismo: O depósito desses complexos em vasos sanguíneos ou tecidos ativa o complemento, atraindo neutrófilos que liberam enzimas lisossômicas, causando inflamação e dano tecidual (vasculite).
Exemplos clínicos
Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES).
Glomerulonefrite pós-estreptocócica.
Doença do soro.
Reação de Arthus.
A Doença do Soro (DS) é o exemplo clássico de uma reação de Hipersensibilidade Tipo III (mediada por imunocomplexos) na classificação de Gell e Coombs. Ela ocorre quando o sistema imunológico reage a proteínas estranhas (não humanas) ou a medicamentos que agem como haptenos, formando complexos antígeno-anticorpo que se depositam nos tecidos.
Fisiopatologia: O Mecanismo de deposição Diferente da hipersensibilidade tipo I (IgE), a Doença do Soro depende da formação de imunocomplexos solúveis em excesso de antígenos. Formação: O antígeno circula no sangue e o corpo produz anticorpos (geralmente IgG). Deposição: Esses complexos tornam-se grandes demais para serem eliminados, mas pequenos o suficiente para circularem e se depositarem em endotélios vasculares, membranas sinoviais e glomérulos renais.Inflamação: A deposição ativa a via clássica do sistema complemento, atraindo neutrófilos que liberam enzimas lisossômicas, causando vasculite e dano tecidual.
2. Etiologia: Do "Soro de Cavalo" aos Biológicos. Historicamente, a DS era causada pela administração de soro heterólogo (antitetânico ou antiofídico derivado de cavalos). Hoje, as causas mudaram: Antitoxinas e Soro Antipeçonhento: Ainda ocorrem, especialmente em doses elevadas. Medicamentos (Haptenos): Penicilinas, cefalosporinas, sulfonamidas. Anticorpos Monoclonais: Rituximabe, infliximabe (proteínas quiméricas). Doença do Soro-Símile (SSLR): Muito comum em pediatria após uso de Cefaclor, embora o mecanismo exato não envolva imunocomplexos circulantes verdadeiros.
3. Quadro Clínico e Diagnóstico: Os sintomas surgem geralmente 7 a 14 dias após a exposição inicial (ou mais rápido em reexposições). Tríade Clássica: Febre, Artralgia (geralmente grandes articulações) e Exantema. O exantema costuma ser urticariforme ou morbiliforme. Um sinal patognomônico é o eritema na transição entre a pele palmar/plantar e o dorso das mãos/pés (linha lateral). Linfadenopatia generalizada, mal-estar e, raramente, glomerulonefrite ou vasculite gastrointestinal. Achados Laboratoriais, consumo de complemento: queda acentuada de C3 e C4 (marcador de atividade da doença). Aumento de VHS e Proteína C Reativa. Urina I pode apresentar proteinúria ou hematúria microscópica se houver acometimento renal.
4. Manejo Terapêutico: Na maioria dos casos, a doença é autolimitada após a remoção do agente causal. Interrupção do Agente: Suspender imediatamente a droga suspeita. Sintomáticos: Anti-histamínicos de 2ª geração para o prurido e AINEs para as artralgias e febre. Corticosteroides: Em casos moderados a graves (ex: artrite incapacitante ou vasculite sistêmica), utiliza-se Prednisona (0,5 a 1 mg/kg/dia) com desmame em 1 a 2 semanas.
Reação de Arthus é a manifestação clássica da Hipersensibilidade Tipo III (localizada). Diferente da Doença do Soro, que é um fenômeno sistêmico, a Reação de Arthus ocorre em um local específico onde o antígeno foi injetado, resultando em uma vasculite necrotizante localizada. Para que ela ocorra, o indivíduo já deve possuir níveis elevados de anticorpos IgG circulantes contra aquele antígeno específico
Tipo IV: Hipersensibilidade Tardia (Mediada por Células)
Diferente das outras, esta reação não é mediada por anticorpos, mas sim por células T. O tempo de resposta costuma ser de 48 a 72 horas.
Mediadores principais: Linfócitos T (CD4+ e CD8+) e Macrófagos.
Mecanismo: Os linfócitos T sensibilizados liberam citocinas que ativam macrófagos ou matam diretamente as células-alvo por citotoxicidade.
Exemplos clínicos
Teste de Mantoux (PPD para tuberculose).
Dermatite de contato (ex: reação a níquel ou hera venenosa).
Rejeição de enxertos.
Eritema multiforme
SSJ e NET
| Tipo | Nome Comum | Mediador | Tempo de Reação |
|---|---|---|---|
| I | Imediata | IgE | Minutos |
| II | Citotóxica | IgG / IgM | Horas a Dias |
| III | Imunocomplexos | IgG / IgM / Complemento | Horas a Dias |
| IV | Tardia | Células T | 2 a 3 Dias |
Observação: Síndrome de Job, cientificamente conhecida como Síndrome de Hiper-IgE Autossômica Dominante (AD-HIES), é uma imunodeficiência primária (STAT3) rara e complexa. Ela foi descrita originalmente em 1966 e recebeu esse nome em referência ao personagem bíblico Jó, que foi provado com feridas e abscessos por todo o corpo. Diferente de outras imunodeficiências, a Síndrome de Job não afeta apenas o sistema imune, mas também o desenvolvimento esquelético, dental e do tecido conjuntivo.
3. Epidemiologia Pediátrica
Prevalência: Estima-se que 20% a 30% das crianças possuam alguma forma de alergia.
Fatores de Risco
História familiar (um dos pais alérgicos: 40% de risco; ambos: >60%).
Exposição precoce a antibióticos e alterações na microbiota (Hipótese dos Velhos Amigos/Biodiversidade).
Nascimento por cesárea.
Impacto: Principal causa de absenteísmo escolar e emergências pediátricas por causas externas (anafilaxia alimentar).
4. Fisiopatologia
A maioria das alergias pediátricas clássicas segue a Classificação de Gell e Coombs - Tipo I (Imediata).
Fases da Resposta Imune
Sensibilização: Captura do antígeno estimulando linfócitos B para produção de IgE específica e ligação da IgE aos receptores em mastócitos e basófilos.
Fase Imediata (Minutos): Reexposição do alérgeno a IgE e degranulação de mastócitos liberando Histamina, triptase e leucotrienos.
Correlação: Vasodilatação (eritema), aumento da permeabilidade vascular (edema/urticária) e broncoconstrição.
Fase Tardia (6 a 12 horas) pico em 12 a 24 h: Influxo de eosinófilos e linfócitos T_h2.
Correlação: Inflamação crônica (ex: asma persistente e dermatite).
5. Manifestações Clínicas por Faixa Etária
| Faixa Etária | Manifestação Predominante | Características |
|---|---|---|
| Lactentes (0-2 anos) | Dermatite Atópica e Alergia Alimentar (APLV) | Prurido, eczema em faces extensoras, proctocolite alérgica (sangue nas fezes). |
| Pré-escolares (2-5 anos) | Sibilância recorrente / Asma | Tosse noturna, dispneia aos esforços, sibilância desencadeada por aeroalérgenos. |
| Escolares e Adolescentes | Rinite Alérgica e Rinoconjuntivite | Saudação alérgica, sulco nasal transverso, olheiras de Dennie-Morgan. |
6. Critérios Diagnósticos Atuais
O diagnóstico é eminentemente clínico, apoiado por exames.
Anafilaxia (Diretriz WAO/EAACI): Início agudo de envolvimento cutaneomucoso MAIS comprometimento respiratório OU hipotensão/disfunção de órgão-alvo.
Alergia Alimentar: História clínica reprodutível associada a testes de sensibilização ou Teste de Provocação Oral (TPO).
7. Exames Complementares
Atenção: Testes positivos indicam sensibilização, não necessariamente alergia. Jamais solicite painéis de IgE sem clínica compatível.
Skin Prick Test (SPT): Padrão-ouro para leitura rápida (15-20 min). Alta sensibilidade.
IgE Específica Sérica (Rast / ImmunoCAP): Indicada se houver contraindicação ao SPT (lesões de pele extensas, uso de anti-histamínicos).
Teste de Provocação Oral (TPO): Padrão-ouro para diagnóstico de alergia alimentar e para confirmar tolerância. Deve ser feito em ambiente hospitalar.
Hemograma: Eosinofilia (sugestiva, mas inespecífica).
8. Diagnóstico Diferencial em Pediatria
Respiratório: Fibrose cística, discinesia ciliar, corpo estranho (sibilância localizada).
Cutâneo: Escabiose, dermatite seborreica, psoríase infantil.
Sistêmico: Imunodeficiências primárias (ex: Síndrome de Job), intoxicação alimentar.
9. Tratamento Baseado em Diretrizes
Condutas Recomendadas
Crise de Anafilaxia: Adrenalina (Epinefrina) 1:1000 via intramuscular (IM) no vasto lateral da coxa.
Dose: 0,01 mg/kg (Máximo 0,15 mg em crianças < 25 kg e 0,3 mg em > 25 kg).
Rinite: Corticosteroides intranasais (fluticasona, mometasona) como primeira linha.
Urticária: Anti-histamínicos de 2ª geração (Desloratadina, Cetirizina, Fexofenadina).
SSJ /NET: O uso de corticoides na NET é hoje muito controverso devido ao risco de sepse, a Ciclosporina (3-5 mg/kg/dia) é considerada uma das melhores opções para interromper a progressão da apoptose de queratinócitos, pois inibe diretamente a ativação das células T e a produção de granulisina. Anti-TNF (Etanercept): Estudos recentes mostram redução na mortalidade e tempo de reepitelização mais rápido. Imunoglobulina Intravenosa (IVIG): Utilizada para bloquear os receptores Fas, embora as evidências sejam menos robustas que as da ciclosporina em pediatria. Cuidados de Suporte: Reposição volêmica rigorosa, controle de temperatura, analgesia multimodal e cuidado de feridas com coberturas não aderentes.
Eritema Multiforme (EM): Geralmente autolimitado; tratamento sintomático (anti-histamínicos e anestésicos tópicos para mucosas), se o gatilho for Mycoplasma pneumoniae, o uso de macrolídeos é essencial.
Condutas que NÃO devem ser feitas
NUNCA utilizar anti-histamínicos ou corticoides como primeira linha na anafilaxia (eles não revertem o edema de glote nem o choque).
NUNCA realizar dieta de exclusão para gestantes como prevenção primária.
NUNCA solicitar IgE total para diagnóstico de alergia específica.
10. Critérios de Internação e UTI
Internação: Reações anafiláticas moderadas, necessidade de >1 dose de adrenalina, ou dificuldade de vigilância domiciliar.
UTI: Insuficiência respiratória, instabilidade hemodinâmica (choque anafilático), ou edema de via aérea superior progressivo.
11. Complicações e Seguimento
Tempo de observação pós-anafilaxia: 12–24h.
Prognóstico: A maioria das alergias alimentares (leite, ovo) são superadas até a adolescência. Alergia a amendoim e frutos do mar costuma ser persistente.
12. Armadilhas Clínicas e Erros Frequentes
Confundir Intolerância com Alergia: Intolerância à lactose é um problema enzimático (GI), não imunológico. Não causa urticária.
Dosagem de IgG para Alimentos: Este exame não tem validade clínica para diagnóstico de alergia e leva a dietas restritivas desnecessárias.
Uso de Prometazina: Anti-histamínico de 1ª geração com efeitos colaterais centrais importantes; deve ser evitado em pediatria.
📍 Take Home Mensagens
A adrenalina IM é a única droga que salva vidas na anafilaxia.
Testes de IgE sem clínica compatível geram diagnósticos errados e ansiedade familiar.
A introdução alimentar precoce (ao redor dos 6 meses) de alimentos alergênicos é hoje recomendada para prevenir alergias (Diretriz LEAP Study).