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Alergia e Imunologia

Imunoterapia Alérgica (AIT)

Imunoterapia com alérgenos

Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.

1. Introdução

A imunoterapia com alérgenos (AIT) é o único tratamento capaz de modificar o curso natural das doenças alérgicas, sendo considerada a abordagem mais próxima de uma cura para alergias mediadas por IgE. Diferentemente dos tratamentos farmacológicos convencionais, que apenas suprimem os sintomas, a AIT atua nos mecanismos imunológicos subjacentes, induzindo tolerância imunológica duradoura ao agente causador da alergia.

Descrita pela primeira vez por Noon e Freeman em 1911 para o tratamento de rinite alérgica por pólen, a imunoterapia evoluiu significativamente ao longo de mais de um século, com melhora dos extratos, protocolos e vias de administração. Atualmente, é amplamente recomendada por diretrizes internacionais para o tratamento de rinite alérgica, asma alérgica, conjuntivite alérgica e alergia a veneno de himenópteros.

2. Fisiopatologia e Mecanismos de Ação

2.1 Resposta Imune nas Doenças Alérgicas

A alergia é mediada fundamentalmente por resposta imune do tipo Th2, caracterizada por produção de interleucinas IL-4, IL-5 e IL-13, que estimulam a produção de IgE específica por linfócitos B, recrutamento de eosinófilos e ativação de mastócitos e basófilos. A exposição repetida ao alérgeno resulta na ligação cruzada de IgE de superfície dessas células efetoras, com liberação de mediadores inflamatórios como histamina, leucotrienos e prostaglandinas.

2.2 Mecanismos da Imunoterapia

A AIT promove uma série de modificações imunológicas progressivas que culminam no estado de tolerância:

2.3 Fases da Imunoterapia

O processo de dessensibilização ocorre em duas fases distintas:

3. Indicações

3.1 Indicações Clássicas

A AIT é indicada nas seguintes situações

3.2 Critérios de Elegibilidade

Para indicar a AIT, devem ser cumpridos os seguintes critérios:

3.3 Formas de Administração

As principais vias de administração incluem

4. Contraindicações

4.1 Contraindicações Absolutas

4.2 Contraindicações Relativas

5. Complicações e Efeitos Adversos

5.1 Reações Locais

São as mais comuns, ocorrendo em 30 a 50% das aplicações subcutâneas. Manifestam-se como eritema, edema e prurido no local da injeção. Geralmente autolimitadas e de resolução espontânea em 24 horas. Podem ser manejadas com anti-histamínicos e compressas frias.

5.2 Reações Sistêmicas

Ocorrem em aproximadamente 0,1 a 0,2% das aplicações e são classificadas em:

5.3 Fatores de Risco para Reações Graves

5.4 Prevenção e Segurança

Para minimizar reações adversas, recomendam-se: avaliação clínica antes de cada aplicação, observação mínima de 20 a 30 minutos pós-injeção, disponibilidade de epinefrina autoinjetável, ajuste de dose em situações especiais e utilização de extratos padronizados de qualidade garantida.

6. Resultados Esperados

6.1 Eficácia Clínica

Múltiplos estudos clínicos randomizados e metanálises demonstram que a AIT promove:

6.2 Efeito Modificador da Doença

O principal diferencial da AIT em relação à farmacoterapia é o efeito modificador de doença. Após 3 a 5 anos de tratamento, os benefícios clínicos podem persistir por anos adicionais após a descontinuação, fenômeno chamado de 'efeito carry-over' ou tolerância sustentada. Estudos de seguimento de longo prazo demonstram manutenção de benefícios por 3 a 7 anos após término do tratamento.

6.3 Alergia a Veneno de Himenópteros

Nesta indicação, a AIT apresenta resultados excepcionais: proteção contra reações sistêmicas em 80 a 98% dos pacientes após 3 a 5 anos de tratamento. Em casos selecionados (adultos sem mastocitose, reações leves), pode-se considerar suspensão após 5 anos com manutenção de proteção em grande proporção dos casos.

6.4 Preditores de Resposta

Melhores respostas são esperadas em pacientes com: diagnóstico correto e sensibilização bem caracterizada, monoterapia alérgica (sensibilização a poucos alérgenos), início precoce do tratamento, extrato de alta qualidade e boa adesão ao protocolo completo de 3 a 5 anos.

7. Referências