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Alergia e Imunologia · Dermatologia

Dermatite Atópica

Diagnóstico, escada terapêutica e complicações

Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.

Guia Educacional

DERMATITE ATÓPICA

01 | EPIDEMIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA

A dermatite atópica (DA) é a doença inflamatória crônica da pele mais prevalente na infância, afetando 15–20% das crianças. A fisiopatologia é determinada por uma dupla falha:

FALHA 1 — Barreira Epidérmica                                    FALHA 2 — Polarização Th2
Mutações de filagrina → perda transepidérmica de água            Desvio imunológico com superprodução de IL-4, IL-13 e
(TEWL), penetração de alérgenos e colonização por S.             IL-31. Na fase crônica: resposta mista Th2 + Th1 + Th17
aureus.                                                          (IFN-γ, IL-12, IL-17) com liquenificação.

CITOCINA PAPEL ALVO TERAPÊUTICO

Polarização Th2; inibição da barreira; isótipo

IL-4                                                                   Dupilumabe (bloqueio IL-4Rα)
                  IgE

Inflamação alérgica; supressão de filagrina;

IL-13                                                                  Dupilumabe / Tralokinumabe / Lebrikizumabe
                  prurido

Prurido crônico — via neuronal (OSMR/IL-

IL-31                                                                  Nemolizumabe (em avaliação pediátrica)
                  31RA)

Fase crônica — acantose, hiperqueratose,

IFN-γ / IL-17                                                          Inibidores de JAK (abrocitinibe, upadacitinibe)
                  fibrose

01b | POR QUE O ANTI-HISTAMÍNICO NÃO CONTROLA O PRURIDO DA DA?

Esta é uma das dúvidas mais frequentes na prática clínica — e responder corretamente evita um dos erros mais comuns no manejo da dermatite atópica.

O prurido da DA não é mediado pela histamina

Prurido da Urticária / Alergia                                   Prurido da Dermatite Atópica
Mediador principal: Histamina (receptor H1)                      Mediador principal: IL-31, neuropeptídeos, proteases
Via: mastócitos → liberação de histamina → ativação de           Via: IL-31 → receptor OSMR/IL-31RA em neurônios
fibras C cutâneas                                                sensoriais → ativação direta das fibras pruriceptivas
Resultado: anti-H1 bloqueia o receptor → controle                (independente de histamina)
eficaz do prurido                                                Resultado: anti-H1 não atinge o alvo → prurido
                                                                 persiste

Mediadores do prurido na DA — além da histamina

MEDIADOR MECANISMO RELEVÂNCIA CLÍNICA

Liga-se ao receptor OSMR/IL-31RA em

                         neurônios sensoriais cutâneos → ativação             Principal alvo do prurido crônico — pico à
IL-31
                         direta das fibras pruriceptivas C (via não-          noite → insônia
                         histaminérgica)
TSLP (Thymic             Liberado pelo epitélio danificado → ativa fibras
                                                                              Elo entre barreira quebrada e sensação de
Stromal                  TRPA1 nos neurônios sensoriais → prurido
                                                                              coceira
Lymphopoietin)           independente de histamina

Ativam receptor PAR-2 em neurônios →

Proteases (ex:                                                                Explica prurido em pele com aspecto
                         desencadeiam prurido mesmo na ausência de
kalicreína)                                                                   "normal"
                         inflamação visível
Neuropeptídeos           Liberados por terminações nervosas →
                                                                              Contribuem para a cronicidade e
(Substância P,           inflamação neurogênica e amplificação do
                                                                              liquenificação
CGRP)                    prurido

MEDIADOR MECANISMO RELEVÂNCIA CLÍNICA

Explica por que o dupilumabe reduz prurido Sensibilizam diretamente os neurônios

IL-4 / IL-13                                                                    rapidamente — antes da melhora visível da
                         sensoriais, além do efeito inflamatório na pele
                                                                                pele
                         Presente, mas via secundária na DA. Atua               Anti-H1 tem efeito marginal — pode ajudar
Histamina                principalmente em episódios agudos e quando            no sono pelo efeito sedativo (1ª geração),
                         há urticária associada                                 não pelo bloqueio do prurido

💡 COMO EXPLICAR PARA O PACIENTE / FAMÍLIA

"A coceira da dermatite não vem da mesma substância que causa a coceira da alergia comum." "O remédio para alergia (anti-histamínico) não atinge o nervo que produz essa coceira." "O que controla a coceira da dermatite é tratar a inflamação da pele — com hidratante, corticoide e, nos casos graves, com os medicamentos novos." "O anti-histamínico pode ajudar a dormir, mas não vai fazer a pele melhorar."

🎯 IMPLICAÇÃO TERAPÊUTICA — ALVOS CORRETOS DO PRURIDO NA DA

muitas vezes antes da melhora cutânea visível

antipruriginosa mais rápida que o dupilumabe

maior efeito sobre o prurido

noturnas — nunca como tratamento principal

Quando o anti-histamínico SIM tem efeito — e quando usar?

O bloqueio H1 é eficaz sempre que a histamina for o mediador principal da reação. Isso ocorre em condições distintas da DA:

CONDIÇÃO MEDIADOR PRINCIPAL EFEITO DO ANTI-H1 QUANDO USAR

Urticária aguda                    Histamina (mastócitos)             ✅ Excelente                   1ª linha — anti-H1 2ª
                                                                                                    geração (loratadina,
                                                                                                    cetirizina, fexofenadina)
Urticária crônica espontânea       Histamina (ativação                ✅ Boa resposta — 1ª           Anti-H1 2ª geração em
                                   mastocitária crônica)              linha                         dose plena ou dobrada;
                                                                                                    refratários → omalizumabe
Rinite alérgica                    Histamina + leucotrienos           ✅ Bom para                    Anti-H1 2ª geração ±
                                                                      prurido/espirros —            corticoide intranasal para
                                                                      parcial para obstrução        obstrução
Conjuntivite alérgica              Histamina (mastócitos              ✅ Bom — oral ou colírio       Colírio anti-H1
                                   conjuntivais)                      anti-H1                       (olopatadina, cetotifeno) ±
                                                                                                    oral
Reação alérgica a alimento /       Histamina + outros                 ✅ Para prurido/urticária      Anti-H1 VO ou IM. NUNCA
medicamento (leve-mod)             mediadores                         — não age sobre               substituir adrenalina em
                                                                      broncoespasmo                 anafilaxia
Anafilaxia                         Histamina + PAF +                  ⚠ Efeito parcial — não        Adrenalina IM 1ª linha —
                                   leucotrienos + triptase            reverte choque nem            anti-H1 é adjuvante tardio
                                                                      broncoespasmo
DA — prurido crônico               IL-31, TSLP, proteases,            ❌ Sem efeito sobre o          Apenas se urticária
                                   neuropeptídeos                     prurido                       coexistente ou sedação

CONDIÇÃO MEDIADOR PRINCIPAL EFEITO DO ANTI-H1 QUANDO USAR

noturna (1ª geração). Trate a inflamação.

Anti-H1 de 1ª vs 2ª geração — quando escolher cada um?

2ª GERAÇÃO (loratadina, cetirizina, fexofenadina, 1ª GERAÇÃO (difenidramina, hidroxizina, prometazina) bilastina)

taquicardia • Indicação de 1ª linha: urticária aguda e crônica, rinite

⚠ Não usar como tratamento de rotina em crianças             ✅ Preferidos para uso crônico e em crianças (a partir
pequenas (risco de apneia com doses altas)                   das faixas aprovadas)

🚨 ATENÇÃO — Anafilaxia: o anti-histamínico NÃO é o tratamento

vascular — não apenas por histamina

02 | CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS — HANIFIN & RAJKA

Diagnóstico é clínico — biópsia não é indicada de rotina. Regra: ≥ 3 maiores + ≥ 3 menores.

CRITÉRIOS MAIORES (≥ 3) CRITÉRIOS MENORES (≥ 3)

Distribuição por faixa etária: Lactente (0–2a) → extensoras e bochechas | Criança (2–12a) → flexoras | Adolescente → difuso + liquenificação

03 | ESCORES DE GRAVIDADE — COMO PONTUAR

ESCORE CÁLCULO / COMPONENTES CLASSIFICAÇÃO

                             A/5 + 7B/2 + C (A=extensão; B=intensidade 0–18;     Leve <25 | Moderado 25–50 | Grave
SCORAD
                             C=subjetivos 0–10)                                  >50

0=limpa · 1=quase limpa · 2=leve · 3=moderada ·

IGA                                                                              IGA >3 → critério para biológico
                             4=grave

Score 0–72; eritema, edema, escoriação,

EASI                                                                             Uso primário em ensaios clínicos
                             liquenificação por região

SCORAD — Passo a passo

Fórmula: SCORAD = A/5 + 7B/2 + C | Pontuação máxima: 103 EXTENSÃO — Regra dos 9 × 0,2 (máx = 36) A Avalie a área de pele afetada usando a Regra dos 9 — cada região corresponde a 9% da superfície corporal. Some as áreas afetadas e multiplique por 0,2.

REGIÃO CORPORAL % DA SC OBSERVAÇÃO

Lactentes: proporcionalmente maior — usar escala

Cabeça e pescoço                                  9%
                                                                        adaptada

Tronco anterior (tórax + abdome) 18% Dividir em 2 × 9%

Tronco posterior (dorso + nádegas) 18% Dividir em 2 × 9%

Cada membro superior 9% (total 18%) Incluir axila e face palmar

18% (total

Cada membro inferior                                                    Coxa (9%) + perna/pé (9%)
                                                  36%)

Genitália 1% Somada ao total

INTENSIDADE — 6 sinais clínicos (máx = 18)

B      Avalie uma área representativa (não necessariamente a pior). Cada sinal recebe nota de 0 a 3. Some os 6
       itens.

SINAL CLÍNICO 0 — Ausente 1 — Leve 2 — Moderado 3 — Grave NOTA

                                                       Discreto,           Rosa-               Vermelho
Eritema (vermelhidão)               Ausente                                                                        ___
                                                       rosado              avermelhado         intenso
                                                       Discreta            Claramente          Edema
Edema / Pápulas                     Ausente                                                                        ___
                                                       elevação            palpável            exuberante
                                                                           Crostas             Exsudato
Exsudato / Crostas                  Ausente            Leve exsudato                                               ___
                                                                           moderadas           intenso
                                                       Escoriações         Erosões             Ulcerações /
Escoriações                         Ausente                                                                        ___
                                                       lineares leves      superficiais        sangramento

Acentuação

                                                                           Espessamento        Pele musgosa /
Liquenificação                      Ausente            discreta das                                                ___
                                                                           evidente            nódulos
                                                       linhas
                                                       Ressecamento        Descamação          Pele muito
Xerose (fora das lesões)            Ausente                                                                        ___
                                                       leve                moderada            seca / fissuras
TOTAL B (soma dos 6 itens —                                                                                         _____ / 18
máx 18)

SINTOMAS SUBJETIVOS — Prurido + Insônia (máx = 20 → × 0,1 = máx 2 × 10 = 20 pts na fórmula como C)

C      O próprio paciente (ou cuidador, no caso de lactentes) pontua cada item de 0 a 10 usando escala visual
       analógica (EVA) nas últimas 72 horas.

ITEM SUBJETIVO ESCALA NOTA (0–10)

0 = sem coceira → 10 = pior coceira

Prurido (coceira)                                                                                        ___
                                                  imaginável

0 = dorme normalmente → 10 = noite em

Insônia (distúrbio do sono)                                                                              ___
                                                  claro
TOTAL C (prurido + insônia) × 0,1                                                            (_____ + _____) × 0,1 = _____

SCORAD FINAL = A/5 + 7B/2 + C

_____/5 + 7×_____/2 + _____ = ________ Leve: < 25 | Moderado: 25–50 | Grave: > 50

IGA — Investigator Global Assessment

Avaliação global rápida pelo examinador, baseada na impressão geral da pele. Não requer cálculo — escolha o nível que melhor descreve o quadro atual.

NÍVEL CLASSIFICAÇÃO DESCRIÇÃO CLÍNICA CONDUTA

Sem sinais inflamatórios. Ausência de eritema,

0         Pele limpa (clear)                                                                        Manutenção
                                             infiltração ou prurido.

Eritema quase imperceptível; mínima aspereza

1         Quase limpa (almost clear)                                                                Manutenção
                                             residual.

Eritema discreto, pápulas leves, mínima

2         Leve                                                                                      Step 2
                                             infiltração, prurido leve.
          Moderada                           Eritema evidente, infiltração moderada,                Step 3 → JAK tópico
3                                            pápulas/vesículas, prurido importante com
                                             impacto no sono.
          Grave                              Eritema intenso, edema, exsudação,                     Step 4 → Biológico
4                                            liquenificação, prurido incapacitante, impacto         (IGA >3)
                                             grave na QV.

EASI — Eczema Area and Severity Index

Pontuação 0–72. Avalia 4 regiões (cabeça/pescoço, membros superiores, tronco, membros inferiores) combinando extensão e intensidade de 4 sinais clínicos.

                                             Edema/Pápulas    Escoriação (0–        Liquenificação      Ext. (0–
REGIÃO                   Eritema (0–3)
                                                 (0–3)              3)                  (0–3)             6)

Cabeça e pescoço (×0,1) ___ ___ ___ ___ ___

Membros superiores (×0,2) ___ ___ ___ ___ ___

Tronco (×0,3) ___ ___ ___ ___ ___

Membros inferiores (×0,4) ___ ___ ___ ___ ___

Cálculo por região:(soma dos 4 sinais) × extensão × multiplicador da região. EASI total = soma das 4 regiões. Leve: <7 | Moderado: 7–21 | Grave: >21

04 | TRATAMENTO ESCALONADO — EAACI / AAD 2024

Emolientes são a base de todos os steps e nunca devem ser suspensos. Progressão conforme falha terapêutica ou gravidade inicial.

DA Leve — Todos os pacientes

1 • Banho morno curto com syndet neutro

DA Moderada

2 • Inibidores de calcineurina: Tacrolimus 0,03% (>2a) | Pimecrolimus 1% — 2ª linha para face/dobras

DA Moderada-Grave (Refratária a CT)

3 • Não usar na face — risco de supressão do eixo HHA

DA Grave — Terapia Biológica

4 principal: conjuntivite (20%)

DA Grave — Inibidores de JAK Sistêmicos (>12 anos)

5 • Abrocitinibe (JAK1) | Upadacitinibe (JAK1) | Baricitinibe (JAK1/2)

⚠ ERROS A EVITAR

05 | COMPLICAÇÕES

INFECCIOSAS MARCHA ATÓPICA PSICOSSOCIAIS / QV

Eczema herpeticum (Kaposi) →             Asma brônquica — 30–40% dos casos       Distúrbio do sono → déficit escolar
EMERGÊNCIA: Aciclovir EV 10–15           de DA grave                             Ansiedade / Depressão — avaliar DLQI
mg/kg/dose 8/8h                          Rinite alérgica — saudação alérgica,    Bullying e isolamento social
Impetiginização (S. aureus / MRSA) →     rinorreia
Mupirocina tópica                        Ceratocone / Catarata subcapsular
Molusco contagioso, tinea, M. furfur

🚨 ECZEMA HERPETICUM — Emergência Dermatológica

Vesículas monomórficas umbilicadas sobre pele eczematosa + febre + dor intensa Conduta: Internação imediata + Aciclovir EV 10–15 mg/kg/dose a cada 8 horas Não aguardar PCR de HSV para iniciar tratamento — diagnóstico é clínico

06 | FASE CRÔNICA — IMUNOLOGIA E CONDUTA

Na cronicidade a resposta imune muda de Th2 puro para um perfil misto Th2 + Th1 + Th17, com elevação de IFN-γ, IL-12 e IL-17. Essa transição explica a liquenificação e a menor eficácia dos anti-histamínicos.

CARACTERÍSTICA FASE AGUDA FASE CRÔNICA

Perfil imune Th2 (IL-4, IL-13) Misto Th2+Th1+Th17 (IFN-γ, IL-12, IL-17)

Clínica Vesículas, eritema, exsudato Liquenificação, xerose, hiperpigmentação

Prurido Intenso/histaminérgico Crônico — neuropeptídeos + IL-31

Histologia Espongiose, vesículas Acantose, hiperqueratose, fibrose dérmica

Conduta específica na fase crônica: emolientes oclusivos (ureia 5–10%) + terapia proativa (CT 2×/semana nas áreas de liquenificação) + considerar tacrolimus para manutenção.

07 | PÉROLAS CLÍNICAS

    🔍           Clínico — nunca por biópsia de rotina. Distribuição: extensoras (lactente) → flexoras (criança) →
Diagnóstico     difuso + liquenificação (adolescente).

🧬 Fisiopato Dupla falha: barreira (filagrina) + Th2 (IL-4/IL-13/IL-31). Na cronicidade: Th2+Th1+Th17. Os biológicos modernos atacam exatamente essas citocinas.

Emolientes nunca suspensos. Corticoide potente na face de lactente = erro clássico. Dupilumabe 💊 Tratamento aprovado FDA ≥ 6 meses (2023) — transformou o prognóstico da DA grave.

SCORAD ou IGA em toda consulta: 2 minutos que guiam o step terapêutico e fundamentam a 📊 Escores solicitação de biológico à operadora.

⚡ Kaposi varicelliformis: vesículas umbilicadas + febre = Aciclovir EV imediato. Não esperar sorologias. Emergência Não confundir com impetigo.

Investigar sistematicamente: DLQI, distúrbio de sono, déficit escolar, sinais de depressão/ansiedade 🧠 QV em criança e cuidadores.

Fontes: EAACI/AAD 2024 | AAP | SBP | UpToDate | FDA (dupilumabe ≥6m, 2023)