Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.
Em toda suspeita de anafilaxia, a epinefrina intramuscular é o tratamento de primeira linha e não deve ser retardada por nenhuma razão. Anti-histamínicos e corticosteroides são ADJUVANTES — nunca substituem a adrenalina. O atraso na aplicação está diretamente associado a óbito.
1. O Que É o Autoaplicador de Adrenalina
O autoaplicador de adrenalina (epinefrina) é um dispositivo portátil, pré-carregado com dose única de epinefrina, desenvolvido para que pacientes, familiares ou qualquer pessoa presente possa administrar o medicamento de forma rápida, segura e sem necessidade de treinamento especializado em situações de emergência anafilática.
A epinefrina (adrenalina) é uma catecolamina endógena que age em receptores alfa e beta-adrenérgicos, produzindo vasoconstrição periférica, aumento do débito cardíaco, broncodilatação e inibição da liberação de mediadores inflamatórios — revertendo os efeitos potencialmente letais da anafilaxia.
Os dispositivos disponíveis apresentam-se em duas concentrações principais: 0,15 mg (para crianças com peso entre 15 e 30 kg) e 0,30 mg (para adultos e crianças acima de 30 kg). Alguns fabricantes disponibilizam versão de 0,50 mg para pacientes com peso acima de 50-60 kg, conforme prescrição médica.
2. Quando Usar — Reconhecendo a Anafilaxia
A anafilaxia é uma reação alérgica sistêmica grave, de progressão rápida e potencialmente fatal. O reconhecimento precoce é fundamental. O autoaplicador deve ser usado imediatamente quando houver SUSPEITA de anafilaxia — não é necessária certeza diagnóstica para iniciar o tratamento.
2.1 Critérios Diagnósticos de Anafilaxia (NIAID/FAAN)
A anafilaxia é altamente provável quando qualquer um dos três critérios abaixo estiver presente:
- Comprometimento respiratório (dispneia, sibilância, broncoespasmo, estridor, queda de SpO2)
- Hipotensão ou sintomas de hipoperfusão (síncope, colapso, incontinência)
- Acometimento de pele ou mucosas (urticária generalizada, prurido, rubor, angioedema)
- Comprometimento respiratório
- Hipotensão ou sintomas associados
- Sintomas gastrointestinais persistentes (cólica, vômitos, diarreia)
- Queda > 30% da PA sistólica basal, ou valores abaixo de 70 mmHg em lactentes / 90 mmHg em adultos
2.2 Sintomas de Alerta — Use o Autoaplicador Se Aparecerem
| SISTEMA | SINTOMAS — USE A ADRENALINA SE PRESENTES |
|---|---|
| 🫁 Respiratório | Falta de ar, sibilância (chiado no peito), tosse intensa, rouquidão súbita, sensação de aperto na garganta, estridor (som agudo ao respirar) |
| ❤️ Cardiovascular | Tontura, desmaio, palidez, pulso rápido e fraco, pressão arterial baixa, palpitações |
| 🦠 Pele / Mucosas | Urticária generalizada (manchas vermelhas e pruriginosas em todo o corpo), angioedema de lábios/língua/face, rubor intenso |
| 🤢 Digestivo | Náusea intensa, vômitos, cólica abdominal intensa, diarreia — quando associados a outros sistemas |
| 🧠 Neurológico | Sensação de morte iminente, confusão mental, agitação intensa, perda de consciência |
2.3 Gatilhos Mais Comuns
- Alimentos: amendoim, castanhas, frutos do mar, leite, ovos, trigo, gergelim, frutas (pêssego, kiwi, morango).
- Medicamentos: antibióticos betalactâmicos (penicilinas, cefalosporinas), AINEs, meios de contraste iodados, agentes biológicos.
- Veneno de insetos: abelhas, vespas, formigas-de-fogo.
- Látex: especialmente em profissionais de saúde e pacientes com múltiplas cirurgias.
- Exercício físico: especialmente em combinação com alimentos (anafilaxia induzida por exercício dependente de alimento).
- Idiopática: em até 20% dos casos não se identifica gatilho em adultos.
3. Como Usar o Autoaplicador — Passo a Passo
O procedimento a seguir aplica-se aos principais autoaplicadores disponíveis no mercado (EpiPen®, Jext® e similares). Leia sempre a bula do dispositivo prescrito, pois pequenas variações de design podem existir entre fabricantes.
Retire o autoaplicador do estojo protetor. Segure com a mão dominante, com o polegar e os outros dedos em forma de punho. A PONTA LARANJA (ou colorida) é a agulha — nunca a aponte para os dedos ou para outras pessoas.
Com a outra mão, retire a tampa de segurança azul (ou transparente) do lado oposto à agulha, puxando-a para cima com firmeza. NÃO dobre nem torça. NÃO coloque o polegar sobre nenhuma das extremidades.
O local de aplicação correto é a face anterolateral da coxa (parte externa da coxa, no meio entre o joelho e o quadril). Pode ser aplicado DIRETAMENTE SOBRE A ROUPA — não é necessário remover calças ou calças jeans. Evite costura, botão ou dobra de tecido grosso no ponto de aplicação.
Pressione a ponta colorida (agulha) com força contra a coxa, em ângulo reto (90°), com movimento firme e rápido — como um soco controlado. Você ouvirá um clique indicando a ativação do dispositivo.
Mantenha o dispositivo firmemente pressionado contra a coxa por 10 segundos completos (conte: 1001, 1002... até 1010). Isso garante a administração completa da dose. Em crianças pequenas, pode ser necessário segurar a perna para evitar movimentos.
Retire o dispositivo com movimento reto, sem torcer. Massageie o local de aplicação por 10 segundos para facilitar a absorção da medicação. A agulha retrairá automaticamente para dentro do dispositivo após a retirada, protegendo contra acidentes.
IMEDIATAMENTE após aplicar a adrenalina, ligue para o SAMU (192) ou Bombeiros (193) e informe que houve aplicação de adrenalina por anafilaxia. O paciente DEVE ser avaliado em pronto-socorro, mesmo que os sintomas melhorem rapidamente. Risco de reação bifásica em 4-12 horas.
Caso os sintomas não melhorem ou piorem após 5 a 15 minutos da primeira aplicação, uma SEGUNDA DOSE pode ser administrada com outro autoaplicador, se disponível. Por isso, recomenda-se que pacientes de risco carreguem SEMPRE DOIS AUTOAPLICADORES. Aguarde o SAMU — não transporte o paciente sozinho se possível.
4. Posição do Paciente Durante a Emergência
- Adultos e crianças: deite o paciente de costas com as pernas elevadas (posição de Trendelenburg) para melhorar o retorno venoso e combater a hipotensão. NUNCA sente o paciente abruptamente — pode precipitar parada cardíaca.
- Paciente inconsciente com respiração preservada: posição de recuperação (decúbito lateral), para evitar aspiração em caso de vômito.
- Gestante: decúbito lateral esquerdo para evitar compressão da veia cava.
- Dificuldade respiratória intensa: semi-sentado pode ser necessário para facilitar a respiração, desde que não haja hipotensão grave.
- NUNCA deixe o paciente em pé ou sentado de forma abrupta: há risco de colapso cardiovascular súbito.
5. Indicações para Prescrição do Autoaplicador
Todo paciente com história de anafilaxia prévia deve receber prescrição de autoaplicador de adrenalina. O dispositivo deve ser prescrito por médico especialista (alergologista, imunologista, clínico geral, pediatra) após avaliação individualizada.
- Anafilaxia prévia por qualquer causa (alimento, medicamento, veneno de inseto, látex, idiopática).
- Alergia grave a alimentos de alto risco (amendoim, castanhas, frutos do mar) com reações sistêmicas.
- Alergia a veneno de himenópteros com reação sistêmica grave — até completar imunoterapia com eficácia comprovada.
- Anafilaxia induzida por exercício.
- Mastocitose sistêmica com risco de anafilaxia.
- Crianças com alergia alimentar grave, especialmente em ambiente escolar.
6. Cuidados com o Dispositivo
6.1 Armazenamento
- Temperatura: 15°C a 30°C. Nunca refrigere (geladeira) nem exponha a temperaturas > 30°C (porta-luvas de carro no verão pode superar 50°C).
- Proteção: mantenha no estojo original, protegido da luz solar direta.
- Carregue sempre consigo: bolsa, mochila, bolso — nunca deixe apenas em casa ou no carro.
- Dois autoaplicadores: sempre carregue dois dispositivos simultaneamente.
6.2 Verificação Periódica
- Validade: verifique a data de validade mensalmente. Renove a prescrição antes do vencimento.
- Inspeção visual: verifique se o líquido está claro e incolor. Solução turva, amarelada ou com precipitado indica degradação — substitua imediatamente.
- Tampa de segurança: verifique se está intacta.
6.3 Uso Acidental ou em Pessoa Errada
Em caso de injeção acidental em dedo ou outra parte do corpo que não a coxa, dirija-se imediatamente ao pronto-socorro. A vasoconstrição local pode comprometer a circulação do dedo. O tratamento com fentolâmica local é eficaz se realizado precocemente.
7. Treinamento — Quem Deve Saber Usar
- O próprio paciente (quando em idade e capacidade para tal)
- Familiares e cuidadores diretos
- Professores e funcionários de escolas e creches frequentadas pela criança
- Colegas de trabalho próximos (em casos de adultos com anafilaxia no ambiente laboral)
- Treinadores esportivos e instrutores de academia (quando indicado)
O treinamento deve ser realizado com dispositivo de treinamento (trainer pen — sem agulha e sem medicamento), disponível gratuitamente nos consultórios especializados e junto ao fabricante. Recomenda-se revisão do treinamento a cada 6 a 12 meses.
8. Plano de Ação para Anafilaxia — Resumo Rápido
1️⃣ RECONHEÇA: Sintomas de anafilaxia após exposição a alérgeno (ou sem causa identificada)
2️⃣ APLIQUE: Autoaplicador de adrenalina na face anterolateral da COXA — IMEDIATAMENTE
3️⃣ CHAME: SAMU 192 ou Bombeiros 193 — informe 'apliquei adrenalina por anafilaxia'
4️⃣ POSICIONE: Deite o paciente com pernas elevadas (ou posição de recuperação se inconsciente)
5️⃣ AGUARDE: Fique ao lado do paciente. Se não melhorar em 5-15 min → segunda dose
6️⃣ HOSPITAL: Todo paciente com anafilaxia DEVE ser avaliado em pronto-socorro, mesmo após melhora
9. O Que NÃO Fazer
- Aguardar para ver se piora antes de aplicar a adrenalina
- Dar anti-histamínico no lugar da adrenalina (dipirona, loratadina, cetirizina NÃO tratam anafilaxia)
- Usar corticosteroide oral antes da adrenalina
- Deixar o paciente sentado ou em pé se houver tontura ou hipotensão
- Não ir ao pronto-socorro após a aplicação, mesmo com melhora dos sintomas
- Deixar o autoaplicador vencido ou guardado em local de temperatura inadequada
- Não ter dois dispositivos disponíveis
- Remover a roupa antes de aplicar — desnecessário e perde tempo precioso
10. Referências
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- Campbell RL, et al. Emergency department diagnosis and treatment of anaphylaxis: a practice parameter. Ann Allergy Asthma Immunol. 2014;113(6):599-608.
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- Fineman SM. Optimal treatment of anaphylaxis: antihistamines versus epinephrine. Postgrad Med. 2014;126(4):73-81.
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- Sampson HA, et al. Second symposium on the definition and management of anaphylaxis: summary report — Second National Institute of Allergy and Infectious Disease/Food Allergy and Anaphylaxis Network symposium. J Allergy Clin Immunol. 2006;117(2):391-7.
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